28.12.14

VISITANDO A FEB EM 2014 - MUSEU E EXPOSIÇÕES




Agradeço ao pessoal da Comunicação da FEB a acolhida para visitar a instituição no mês de setembro de 2014. Minha primeira ideia era levar ao leitor do EC algumas imagens pouco divulgadas da Federação. A frente do conjunto de prédios tem um gradil com placas como esta distribuídas regularmente. 



Esta foto mostra a fachada do primeiro prédio da FEB, chamado Administração. Nele se encontra a simpática funcionária que nos recebe e encaminha para o ponto desejado da Federação. Visitei também o grande e bem montado auditório, a livraria e um pequeno museu com mostras em dois pisos.



O Museu apresentava uma exposição sobre os 130 anos da Federação.




Um dos painéis mostra a linha do tempo ao centro. Acima os presidentes da Federação e abaixo, em vermelho, alguns eventos da época e fotos.




Poster da exposição tratando dos presidentes e das sedes da FEB.



Máquina da antiga oficina de impressão da FEB.







Edições antigas e raras dos livros psicografados por Chico Xavier e publicados pela FEB.




Painel com logomarcas da FEB.





Documento comemorativo do Pacto Áureo (acordo entre entidades representativas estaduais e a Federação Espírita Brasileira, que entre outras medidas criou o Conselho Federativo Nacional, órgão representativo de caráter propositivo e deliberativo envolvendo questões ligadas ao movimento espírita nacional).

Eu identifiquei muitas assinaturas de espíritas importantes: Armando de Assis, Antônio Lucena, Lauro Santhiago, Luciano dos Anjos, Carlos Jordão da Silva, Nestor Masotti, Umberto Ferreira, Maria Melo, entre outros e outras. 

Em uma próxima publicação vou mostrar um pouco o prédio Unificação e a biblioteca de Obras Raras da FEB.

24.12.14

O SOLSTÍCIO E O NATAL


Foto: No solstício de inverno, após a noite mais longa, o sol nasce entre as árvores.


Estamos na véspera do Natal, ou pelo menos da data que foi escolhida para comemorar o nascimento de Jesus Cristo. Parece que na história da igreja se escolheu o final de dezembro por ser a data do solstício de inverno europeu, a noite mais longa do ano.

Em Roma se comemorava o “Dies natalis invicti solis”, festa na qual os escravos agiam como se fossem homens livres. Nesta época também havia a Saturnália e uma festa que alguns autores consideram germânica e outros escandinava, o Yule. Nela o criador é representado como uma criança. Na exótica China antiga, uma cultura tão diferente da nossa, também se comemora a fertilidade.

No mundo católico, Júlio I ordenou que se fizesse uma pesquisa e decretou, no ano 350 que o 25 de dezembro seria a data do nascimento de Jesus. O imperador Justiniano, interessado no grande número de cristãos romanos, decretou feriado. Outra religião influente em roma o Mitraísmo, o culto do deus sol dos persas, que teria nascido no dia 25.

Não sou capaz de dizer quando teria sido o dia da manjedoura, o dia em que nasceu um mestre humilde, capaz de dividir a história apenas com suas palavras e ensinamentos. Ainda procuram algum fenômeno astronômico que pudesse explicar a estrela de Belém, mas prefiro me ater ao significado simbólico, de uma nova luz que se acende nos céus da humanidade. Há historiadores preocupados com o suposto censo decretado por César, que teria deslocado José e Maria, de Nazaré até Belém, a cidade do rei David de Israel, mas acho mais comedido entender que a realeza de Jesus não vem de Israel, mas do reconhecimento dos que aceitam sua mensagem como imperiosa, sem ser imperial. Também sou incapaz de avaliar a virgindade de Maria, semelhante às histórias antigas de mulheres que concebiam de deuses pagãos, então prefiro observar atentamente sua castidade interior e a angelitude de seus propósitos descrita pelo evangelista Lucas. Prefiro me ater à bênção da maternidade, uma instituição milenar na qual uma mulher passa a se dedicar ao filho de forma tão íntima e abnegada, que faz pensar em uma humanidade mais irmã e menos patroa.

Como o leitor pode ver, não sei muita coisa, mas sei que as famílias se reúnem, sei que as pessoas se saúdam, desejando felicidade umas às outras, que se faz um esforço para estar bem, uns com os outros. Vejo os carteiros levarem desejos de paz, saúde e até prosperidade. Vejo os telefones soando diferente, vencendo distâncias para levar uma palavra de alegria. Vejo as pessoas se acotovelando nas lojas para comprar presentes, mas vejo também que tentam encontrar algo que desperte um sorriso, que satisfaça a um pequeno desejo, que revele que eles se importaram.

E se nesta hora conseguimos, ainda que por um momento passageiro, construir uma experiência de paz e de trégua das coisas do mundo, vale a pena vivê-lo e compartilhá-lo. Os filmes contam histórias de pessoas que deixam de lado seus rancores e mágoas e tentam a reconciliação com antigos amores, parentes, pais, filhos, nesta época diferente. Quem sabe não seria uma oportunidade?

Como espírita, sei também que os mortos costumam aproveitar para falar de Jesus em nossos grupos e reuniões. Sei que à noite, mesmo no lar cristão mais simples, ergue-se uma prece em memória do filho de Maria. Sei que médiuns se emocionam, e que os grupos vivem uma experiência diferente. Quem sabe não encontramos um tempo em nossas assembleias para falar do Mestre? 

Em nossa casa já se distribuíram as cestas de natal, e se elas não mudaram a pobreza, acenderam uma luz fugidia nos olhos de quem sofre, e uma chama no coração de quem participou do milagre de sua construção e distribuição.

Desejo que todos os que leem esta crônica possam usufruir de um minuto memorável de encontro com Jesus, através do encontro amoroso e desinteressado com os homens.

10.12.14

A NOITE DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO DA LIHPE FOI DELICIOSA

A noite de autógrafos iniciou-se com a apresentação musical do Grupo Asas, que esteve fantástico. Som e vozes encheram o salão da Associação Espírita Célia Xavier, em Belo Horizonte.



A mesa de abertura composta por Waldemar Duarte (pela AME-BH), Marcos Aurélio (AECX) e Jáder (LIHPE), da direita à esquerda.



O professor Adilson Assis falou por cerca de 50 minutos sobre a LIHPE, o livro e o grupo de pesquisas Ciência do Invisível.



A mestra Daniella apresentando as conclusões do seu capítulo no livro sobre a gestão de organizações espíritas do terceiro setor de Santa Luzia.


Da direita para a esquerda: Alexandre Caroli Rocha, Adilson Assis, Daniella e Jáder


O carinho da equipe organizadora com os convidados


Adilson e Daniella autografando.


O livro!



Mais fotos: https://plus.google.com/photos/108133600195305874296/albums/6091151689238237681?banner=pwa


Agradecimento: a todos os trabalhadores que tornaram este evento possível.
Fotografias: Marcus Papa

8.12.14

MAIS UM ARTIGO CIENTÍFICO SOBRE O ESPIRITISMO: ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

Gismair


Gismair Teixeira, doutorando em letras pela Universidade Federal de Goiás, publicou na Revista Fragmento de Cultura o artigo “O intertexto mediúnico de uma dissertação de mestrado e a discursividade espírita.”

O autor parte de um relato envolvendo o renascentista Benvenutto Cellini, que teria participado de uma conjuração de mortos, tendo comunicado Giácomo Lorenzo Bembo, que se apresenta como um representante das trevas, que apareceria dentro de uma garrafa. Este episódio é empregado na literatura por Alexandre Raposo, escritor, no seu livro “Memórias de um diabo de garrafa”.

O trabalho de Gismair interessa a nós, por discutir outro episódio, a evocação de Cellini por Allan Kardec.. Ciente da história, Kardec evocou o espírito de Cellini na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e publicou na Revista Espírita em 1859. Após a leitura do texto ao espírito, que não se recordava bem deste trabalho, o codificador perguntou o que haveria de verdadeiro na cena, ao que lhe foi respondido:

“O necromante era um charlatão, eu era romancista e Angélica minha amante.”

Gismair recorda o leitor da afirmação prepotente de Freud sobre o espiritismo no seu famoso texto “Futuro de uma ilusão”: “... Eles evocaram os espíritos dos maiores homens, dos mais destacados pensadores, mas todas as manifestações e notícias que deles receberam foram tão tolas, tão inconsolavelmente ocas, que não se pode acreditar em outra coisa senão na capacidade dos espíritos de se adaptarem ao círculo de pessoas que invoca.”

O autor do trabalho em resenha, contudo, aponta de forma surpreendente paradoxo claro entre o texto de Kardec e a opinião desfavorável de Freud sobre as evocações espíritas:

O contexto “apresenta a singularidade já mencionada de um paradoxo em que o sobrenatural (o fenômeno mediúnico) desmente o caráter sobrenatural de um acontecimento (a conjuração de demônios), sendo que este último é aproveitado no universo do imaginário literário para a composição de uma narrativa instigante.”


Recomendo a leitura do texto pelo leitor do EC em: 

3.12.14

NOITE DE AUTÓGRAFOS EM BELO HORIZONTE-MG



O evento terá a participação de Adilson Assis, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), coordenador do projeto “Ciência do Invisível” e do próximo Encontro Regional da LIHPE, em 2015. A entrada é gratuita. Participará também a autora Daniella Francisca Leite, mestre em administração pela FEAD.

O livro “O espiritismo, as ciências e a filosofia”, de diversos autores, é composto de duas partes. Na primeira se encontram trabalhos que mostram reflexões sobre as relações entre o pensamento espírita e o pensamento filosófico, especialmente o platonismo. Encontra-se também uma revisão dos métodos usados por Allan Kardec para a fundamentação epistemológica do espiritismo e uma síntese do impacto da obra de Herculano Pires na filosofia de sua época.


A segunda parte é composta de temas na fronteira entre o espiritismo e a ciências humanas e naturais como o trabalho social de casas espíritas, a geografia do “mundo espiritual” e a relação tumultuada de Machado de Assis com as ideias espiritas de sua época. Também são discutidos os conceitos da física usados dos livros espiritualistas “A Grande Síntese” e “A teoria corpuscular do espírito”. 

Agradecemos a contribuição voluntária do Grupo Asas, que cantará na noite de autógrafos.

Interessados em participar, favor apenas confirmar presença no facebook: https://www.facebook.com/events/1488826018048113/?ref_dashboard_filter=hosting

Noite de autógrafos do livro “O espiritismo, as ciências e a filosofia”
6 de dezembro
Associação Espírita Célia Xavier - Rua Coronel Pedro Jorge, 314, no Bairro Prado
Horário: 18h30
Editora: Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo – Eduardo Carvalho Monteiro (CCDPE-ECM)
322 páginas
Preço: R$ 30,00

26.11.14

JORNAL O GLOBO PUBLICA MATÉRIA SOBRE ESTUDO DE CARTAS DE JAIR PRESENTE, PSICOGRAFADAS POR FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER


O jornal O Globo publicou matéria em seu blog e entrevista com o Dr. Alexander da Universidade Federal de Juiz de Fora sobre um estudo conduzido pelos Drs. Alexandre Caroli Rocha e Denise Paraná. Ele pode ser acessado em http://oglobo.globo.com/sociedade/pesquisa-cientifica-avalia-veracidade-das-cartas-de-chico-xavier-1-14662863

Um artigo escrito a partir da pesquisa foi publicado pela revista Explore (Nova York) do grupo Elsevier (eles têm escritórios em 24 países e trabalham com a divulgação de publicações voltadas à ciência, saúde e tecnologia) e pode ser lido em inglês no seguinte link:


Segue uma tradução dos resultados apresentados no abstract do artigo.

"Identificamos 99 itens de informação verificável nestas treze cartas, 98% destes itens foram classificados como "de ajustamento claro e preciso" e nenhum item foi classificado como "sem ajustamento". Concluímos que explicações geralmente utilizadas para a acurácia da informação (ou seja, fraude, acaso, vazamento de informações, e leitura à frio) são apenas remotamente plausíveis. Estes resultados parecem dar suporte empírico para teorias não reducionistas da consciência."

25.11.14

COMO WALLACE TORNOU-SE UM ESTUDIOSO DOS FENÔMENOS ESPIRITUAIS?


Figura 1: Wallace e o espírito de sua mãe (1874): Fotografia obtida pela médium Sra. Guppy após aviso através de raps.

Alfred Russel Wallace foi um pesquisador de fenômenos espirituais na Inglaterra, que iniciou seus estudos com médiuns na década de 1860. Ele é bem conhecido como naturalista e publicou cerca de 750 trabalhos ao longo de sua vida, incluindo os que tratam de suas leituras e pesquisas com médiuns.

Passo a transcrever como um homem de ciência na Inglaterra vitoriana ousou interessar-se pelo estudo da vida após a morte:

"Quando voltei do exterior em 1862, li sobre o espiritualismo e, como a maioria das pessoas, achei que fosse tudo uma fraude, ilusão, estupidez. Encontrei pessoas aparentemente inteligentes e sadias que me asseguravam que haviam experimentado coisas maravilhosas (...) fiquei convencido que os fenômenos associados a ela (Sra. Marshall) eram perfeitamente genuínos. Mas levei três anos de investigações subsequentes para certificar-me de que eles eram produzidos por espíritos."

Continuo a tradução de seus textos espiritualistas para o português e acho que em breve teremos mais um rico trabalho em nosso idioma, no qual ele discute com os pesquisadores de sua época.

13.11.14

DA MANJEDOURA A EMAÚS



Na introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec orientou seu leitor a conhecer o “estado dos costumes e da sociedade judia daquela época”. Ele destaca este trabalho para que se possa conhecer o sentido das palavras empregadas, das histórias contadas por Jesus, dos diálogos e das narrativas quem compõem o Novo Testamento. Seu trabalho na introdução foi modesto, resumindo-se à definição de alguns dos grupos sociais que compunham a sociedade judaica e das sinagogas.

No corpo do texto de O evangelho segundo o espiritismo encontram-se respingos, aqui e e ali, de outras informações que são úteis para uma explicação dos evangelhos, mais racional que espiritual.

Wesley Caldeira, após um longo período de elaboração, está publicando o livro “Da manjedoura a Emaús”, pela editora da Federação Espírita Brasileira. Ele colocou os manuscritos do livro nas mãos de muitos leitores, estudiosos dos evangelhos e do espiritismo, para ouvir suas análises, como o sugeriu o espírito Sorella a Léon Denis.

A leitura é deliciosa. As paisagens, costumes e pessoas que compõem o universo da Galileia e da Judeia à época de Jesus vão sendo descritos em um texto cativante, que rapidamente prende a atenção do leitor, apesar de não ser um romance. As impressões do senso comum que temos dos personagens evangélicos vão sendo desconstruídos suavemente. Descobre-se, por exemplo, que ao contrário da divisão de trabalho manual e trabalho intelectual que herdamos dos gregos e romanos, preocupados com a política e as armas, a carpintaria era uma profissão de prestígio na sociedade judaica. Uma nova visão da terra que acolheu Jesus se abre aos nossos olhos.

Wesley lança mão de autores de prestígio e influência à época de Allan Kardec, como Ernest Renan, clássicos como Suetônio e Flávio Josefo, contemporâneos, como Ariès, espíritas, como o próprio Kardec e os espíritos que ditaram obras a Chico Xavier e Divaldo Franco, Hermínio Miranda. Seu trabalho concilia um estudo cuidadoso da vida de Jesus sob a ótica espírita, sem perder-se em revelações místicas, nem em reinvenções radicais do Cristo, como têm feito alguns intelectuais, mais interessados no impacto das suas ideias que na reconstrução histórica do Rabi de Nazaré.


O natal se aproxima, e com ele, os símbolos do comércio, como o papai noel vermelho e gordo. A criançada se entusiasma com os presentes, os familiares se mobilizam para estar juntos e comemorar. Que tal trazermos também um pouco do aniversariante para nossos lares?

9.11.14

LIVROS DE LÉON DENIS PUBLICADOS PELA FEB




Léon Denis é um dos continuadores da obra de Allan Kardec  na França, cujos esforços lhe valeram a alcunha de "Apóstolo do Espiritismo". De fato, seu esforço para a divulgação do espiritismo no mundo ocidental assemelha-se ao de Paulo de Tarso com o cristianismo.

A Federação Espírita Brasileira tem publicado alguns de seus livros mais importantes. Alguns deles, como Depois da Morte é fruto de uma orientação aprovada no I Congresso Espiritualista (Paris) para "fazer uma publicação popular que resumisse a filosofia espírita."

Suas relações com o movimento espírita brasileiro e seu princípio de não receber dinheiro pelo trabalho de escritor devem ser considerados, além da qualidade do seu trabalho, no entendimento de sua grande influência no desenvolvimento do espiritismo em nosso país.



Figura 1: um mosaico com as capas de livros de Denis publicados no Brasil por diversas editoras

3.11.14

EM TAREFA




No último final de semana estive no GEAK, um núcleo pequeno incrustado em um bairro operário de Contagem. Foi uma grata emoção rever companheiros que conhecemos na COMEBH há três dezenas de anos na frente da gestão desta casa espírita.

Estou acostumado a fazer palestras em casas de porte médio e grande, às vezes em público com centenas de pessoas, mas não há nada mais grato à alma do que falar para um público menor, que acolhe e se interessa por cada palavra, cada história. Pude perceber que os presentes, independente de poder aquisitivo ou escolaridade, têm o espiritismo como uma joia rara, algo realmente importante para a vida. A relação familiar entre os presentes, o cuidado com as tarefas, a satisfação com cada realização da pequena casa são elementos tão importantes a um centro espírita que não podem ser substituídos pela ânsia de ampliação, pelos números.

Denis, Yvonne, Chico e outros personagens tão caros à história do espiritismo ressoavam nas almas ouvintes. Eu já estava ficando acostumado a ter que apresentá-los a um público iniciante que olha com estranheza e curiosidade, às vezes com indiferença. Este grupo, todavia, ouvia como quem recorda, e recorda com prazer. Os construtores do espiritismo que herdamos lhes eram familiares, e recebiam com alegria as poucas histórias que tive tempo de fazer lembrar.

No intervalo de trinta minutos entre as duas partes da palestra, não foi sem surpresa que recordamos juntos de outros trabalhadores comuns ligados a nós, do movimento mineiro. Manoel Alves, José Mário Sampaio (meu pai), Telma Núbia, Leão e Tiana, todos pareciam muito próximos em nossas memórias compartilhadas. A eles foi endereçado um sentimento de gratidão por terem sido professores, amigos, conselheiros, pessoas que dispuseram de tempo e afeto para com a geração que agora dirige e sustenta as casas espíritas. Eles não têm monumentos nem placas, mas sua memória continua viva nas almas com quem conviveram.

A palestra terminou e veio o passe. Recebi muito carinho e afeição da parte dos presentes, que partilhavam nosso entusiasmo com o texto de Léon Denis: potências da alma. Antes de sair não pude deixar de notar um jovem com dificuldade de locomoção, possivelmente por alguma doença degenerativa, que deixava a sala de passes rumo à saída. Certamente não estava lá em busca de cura, que os espíritas sérios não prometem, nem teria deixado nenhuma soma em dinheiro, porque o trabalho de passes é totalmente voluntário. Ele vestia uma camiseta branca, onde se lia impresso nas costas: “Fora da caridade não há salvação”.

1.11.14

CONHEÇA MAURICE LACHÂTRE




Já havíamos publicado no EC que estamos comemorando 200 anos do nascimento de Maurice Lachâtre, mais conhecido como o livreiro que encomendou e teve queimados livros e revistas espíritas na Barcelona do final do século XIX. 

Mais que livreiro, Lachâtre teve uma vida bem diversificada e produtiva, destacando-se como editor. Participou do episódio da Comuna de Paris e viveu intensamente sua época.

Na comemoração dos seus 200 anos, o Instituto Lachâtre publicou o livro "O espiritismo: uma nova filosofia." É composto de uma biografia escrita por um professor da Universidade de Rouen, François Gaudin, o prefácio assinado por Alexandre Rocha e dois trabalhos: um sobre o espiritismo e outro sobre Allan Kardec. 

No texto, Maurice não apenas sintetiza o pensamento de Kardec, mas introduz conceitos do anarquismo e do socialismo que devia considerar coerentes com o espiritismo. Como o assunto é polêmico e exige mais discussão, publiquei uma resenha crítica deste texto de Lachâtre no Jornal de Estudos Espíritas, que acaba de ser publicado digitalmente e está acessível a todos.


Quem quiser conhecer as demais publicações de 2014 do JEE clique no: https://sites.google.com/site/jeespiritas/volumes/volume-2---2014

Com a publicação deste documento temos mais um tijolo no edifício da preservação da história do movimento espírita. Recomendo a leitura a todos os interessados no tema.



O espiritismo: uma nova filosofia.
Autor: Maurice Lachâtre
Editora: Instituto Lachâtre
160 páginas
110 x 180 mm
Ilustrado
Preço: R$24,90 

29.10.14

MENSAGEM DE ANDRÉ LUIZ?




Acabo de receber uma mensagem atribuída a Chico Xavier, veiculada no calor do processo eleitoral. Quem está acostumado a ler André Luiz sabe que ele não usa este estilo profético em seus textos. André faz reflexões rápidas em frases curtas, como em Agenda cristã, ou um texto do tipo narrativo, intercalado com falas extensas, do tipo palestras, que são proferidas por instrutores no mundo espiritual, como no livro Missionários da luz.

Mesmo já tendo sido psicografado por médiuns diferentes, como Waldo Vieira, ele mantém, grosso modo, seu estilo literário. Outro ponto é a ausência de alinhamento com o objetivo moral e a lógica doutrinária espírita, que encontramos em toda a obra psicografada por Chico Xavier. Conversei com estudiosos da obra de Chico Xavier, que concordam comigo nesta pequena análise.

Pesquisei trechos da mensagem na internet e encontrei um impacto maior em blogs não espíritas do que em espíritas. Algumas pessoas declararam gostar do médium espírita. Todavia, nesta análise notamos que esta mensagem parece ter sido inventada e usada por pessoas inescrupulosas, com intenções políticas para fins eleitoreiros, tendo por alvo a população em geral, o que não está de acordo com a ética espírita.

Com relação ao movimento espírita, entendo que hoje, como sempre, temos que assumir nossos destinos, responsabilizarmo-nos por nossas escolhas e agir na transformação para melhor da sociedade em que vivemos, sem delegar aos médiuns e espíritos o papel de condução das decisões que cabe a nós mesmos tomar.

Abaixo está o texto enviado:

"Mensagem de Natal de André Luís, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, no Centro Espírita Jesus de Nazareno, em Congonhas-MG, no dia 23 de dezembro de 1952.


"NO MEIO À CRISE VIRÁ UM HOMEM DA TERRA DO MÁRTIR TIRADENTES E, APESAR DAS PRESSÕES, MUITO FARÁ PELO BRASIL, INCLUSIVE QUE SERÁ O CRIADOR DE UMA CIDADE JARDIM TAL QUAL O ÉDEN, DIFERENTE DE TODAS AS CIDADES. TEMPOS DEPOIS, QUANDO AS TREVAS DO CALABOUÇO AUTORITÁRIO SE DISSIPAR, A ELE SE SEGUIRA UM OUTRO MINEIRO, QUE PROJETARÁ A ESPERANÇA, CONQUISTARÁ O POVO TRAZENDO UMA NOVA ONDA DE PATRIOTISMO PARA O PAÍS. MAS QUE NÃO TOMARÁ POSSE. MORRERÁ ANTES. SERÁ SUBSTITUÍDO POR OUTRO QUE MUITA CONFUSÃO IRÁ CRIAR E, NA SUA SAÍDA, VAI DEIXAR A NAÇÃO ABALADA; E DESTE ABALO VAI COMEÇAR O PERÍODO CRÍTICO, POR ANOS E ANOS. ATE´QUE, NA SEGUNDA DÉCADA DE UM NOVO MILÊNIO, O HOMEM DE PATRIOTISMO, VINDO TAMBÉM DA TERRA DE TIRADENTES, IRÁ CERCAR-SE DE OUTROS E VÃO DERRUBAR A VIGA MESTRA DA CONFUSÃO. E ENTÃO MUITA COISA NOVA VAI ACONTECER. MUITAS NAÇÕES PASSARÃO A DAR CRÉDITO E RESPEITO AO BRASIL."


Agradeço a Waldemar Krepke Duarte pela leitura e sugestões.

28.10.14

CORREIO FRATERNO APRESENTA DEBATES CONTEMPORÂNEOS NO MOVIMENTO ESPÍRITA




O jornal Correio Fraterno publicou um número que cobre o seminário de encerramento das comemorações dos cem anos de Herculano Pires.

Recomendo a leitura da entrevista com o Rubens Nunes, que trata da questão da filosofia diante do espiritismo.

Há também uma matéria completa sobre o 10o. ENLIHPE.


21.10.14

SENSAÇÕES DOS MÉDIUNS DURANTE A COMUNICAÇÃO



Em nossa última reunião mediúnica, estávamos em uma sala muito quente e abafada. O ventilador não conseguia, senão circular ar quente entre os membros, quando terminamos a parte de estudos e iniciamos as comunicações com os espíritos. Em pouco tempo, três comunicações simultâneas deram início.

Uma das comunicações despertou o tema deste texto. A médium começou a sentir frio, e o espírito relatou um acidente em um local muito frio, que provocou sua desencarnação. Como a médium pode sentir frio em um local tão quente? Se o espírito comunicante não está mais encarnado e também não se encontra no local em que desencarnou, por que relata sentir frio?

Nas pessoas encarnadas as sensações são frutos dos órgãos dos sentidos. Os olhos são uma espécie de transdutores de luz, que transformam as ondas luminosas de certa faixa de frequências em impulsos nervosos. Os ouvidos fazem o mesmo com ondas sonoras. Paladar e olfato transformam os sabores e odores; o tato transforma sensações de frio/calor, pressões sobre o corpo e movimentos. O sistema nervoso leva os impulsos ao cérebro. A teoria espírita entende que, no caso dos encarnados, estes impulsos são processados pelo Espírito, através do períspirito.

Os espíritos desencarnados não têm tato, porque se encontram desligados do seu organismo. Como podem sentir frio? Após conversar com diversos espíritos, Kardec concluiu que os relatos de sensações por espíritos são recordações, memórias (questões 256 e 257 de O Livro dos Espíritos), empregadas para descrever o estado em que se encontra. O fundador do espiritismo usa a expressão latina sensorium commune para deixar claro que não há no períspirito o equivalente aos sensores da derme ou da audição e que o Espírito sente como um todo. Em outras palavras, a consciência é uma faculdade espiritual, e não perispiritual. O Espírito desencarnado, contudo, ainda tem o registro das sensações que anteriormente eram recebidas do organismo, podendo trazê-las à consciência como evocamos uma recordação de infância.

Por que então, Espírito comunicante, e, por consequência, a médium, relatavam sentir frio? Por que o Espírito acreditava estar ainda em meio à neve. Ele não era capaz de perceber que se comunicava através de uma médium que estava em uma sala quente, porque se sentia ainda confuso após a desencarnação. O frio que a médium sentia é, portanto, uma percepção profunda da consciência um pouco perturbada do espírito comunicante.


Em situações como esta, dar a notícia da desencarnação é menos importante que dialogar com o comunicante. Ao nos relatar suas vivências, sentimentos e sensações, ele vai aos poucos organizando sua experiência e assenhorando-se dela. Ele pode passar de um estado de confusão, a um estado em que é capaz de se comunicar com outros espíritos em melhor estado, capazes de auxiliá-lo. 

17.10.14

POR QUE OS ESPÍRITOS APRESENTAM-SE TRAJADOS PARA OS MÉDIUNS?





Estamos estudando o livro Devassando o Invisível, de Yvonne Pereira, em nossa reunião mediúnica e fizemos uma espécie de estudo preparatório, sobre a vida da autora-médium. Pesquisa aqui e ali,  tivemos a satisfação de encontrar uma autobiografia nas páginas do Reformador de janeiro e fevereiro de 1982.

Yvonne fez apenas o ensino primário, que era equivalente à primeira metade do ensino fundamental dos dias de hoje. Ela, contudo, nunca deixou de ler e escrever, o que fez com que muitos de seus leitores perguntassem-lhe se era professora. Sempre me surpreendi favoravelmente com os detalhes dos romances que ela psicografou, acho que já tive a oportunidade de comentar anteriormente.

O capítulo 2 do “Devassando” é sobre as roupas dos espíritos. Talvez Yvonne tenha sido questionada sobre suas descrições detalhadas da aparência dos espíritos que percebia e aproveitasse a oportunidade para discutir a questão.

A médium de Tolstoi começa argumentando em Allan Kardec, e faz uma análise detida de dois capítulos importantes das obras dele: o capítulo 14 de A Gênese (que trata dos fluidos) e “O laboratório do mundo invisível”, de O Livro dos Médiuns. Vê-se que ela se baseia na teoria espírita para discutir a questão proposta. Depois Yvonne mostra seu conhecimento dos clássicos, citando Denis e Bozzano, com a finalidade não apenas de mostrar a posição dos autores, mas de resgatar em outras fontes descrições detalhadas das roupas dos espíritos percebidas por médiuns outros, que não ela, e distantes do seu meio de relações.

Observei que Yvonne não ficou fazendo comparações de trechos isolados dos autores, mas construiu um texto argumentativo que expõe claramente a literatura que dispunha em sua época.

Ao fim da leitura do capítulo do livro, pudemos concluir que não há nada de estranho nos espíritos apresentarem-se vestidos. As roupas são elementos identitários, possibilitam que médiuns e outros espíritos sejam capazes de reconhecê-los, além de expressarem sua psique, que funciona como instrumento de ação nos fluidos espirituais e no períspirito. Como a autora tem um pé na literatura, ela ilustra sua tese com a forte frase de Joana D’Arc, respondendo ao inquisidor que lhe pergunta se São Miguel lhe aparecia desnudo: “Pensas que Deus não tenha com que vesti-lo?”



O trabalho de Yvonne merece ser lido e relido por nossa geração. Fui aos poucos identificando um capítulo que tinha revisão teórica, problema de pesquisa, relatos de percepções mediúnicas oriundas de médiuns diversos, argumentação e conclusão. Como se vê, não é a escolaridade, isoladamente, que ensina as pessoas a pensar.


Ainda em tempo, a Federação Espírita Brasileira publicou um livro com o título “À Luz do Consolador”, no qual agrupou muitas das publicações de Yvonne na revista Reformador ao longo dos anos. Ele não pode passar despercebido a quem se interessa pelo estudo do espiritismo.

11.10.14

IMPRESSÕES DO SIMPÓSIO FRANCÊS DE ESPIRITISMO


Alcione Reis de Albuquerque



Obra de Augustin Lesage


Voltando do Symposium de Villeneuve D’ascq, em Lille, França, promovido pelo CSF (Conselho Espírita Frances) ocorrido nos dias 27 e 28 de setembro de 2014, com as melhores impressões dos trabalhadores espíritas neste país.

O tema central para este ano foi: “O trabalho nos centros, elemento importante para o despertar das consciências”. (‘Le travail dans les centres, element important pour l’eveil des consciences’)



Público presente

O que ressalta aos olhos é uma forte acentuação no estudo doutrinário, seguidos pela sua prática, mantendo, no todo, uma proposta séria em compreender e seguir os conceitos de Kardec, sem concessões a personalismos.

Ao lado desta postura percebe-se da parte da Federação Espírita da França, em especial na pessoa de seu presidente atual Richard Buono, uma abertura para acolher e ouvir variadas expressões do trabalho prático, tais como se vê no programa que foi levado a público.

Os aspectos históricos, filosóficos, científicos, assim como os aspectos da prática social, que denominamos caridade, são contemplados em todo território. Evidentemente não cobrem o território francês, mas encontram-se mais disseminados do que havíamos imaginado, para nossa alegria intima.




Cláudia Bonmartin no centro e Alcione à direita


Alegrias também sentimos em observar as confreiras brasileiras levando projetos de vulto a frente, tais como Cláudia Bonmartin em Paris e Cláudia Werdine em Madrid. Há um projeto de Evangelização da criança, do adolescente e das famílias já em vias de implantação em seis países, projeto denominado Sementes para o futuro (‘Semences de L’avenir’).



Cláudia Werdine


A “Banca de Livros” estava repleta das obras básicas de Allan Kardec, seguidas por muitos  títulos psicografados por Chico Xavier, além dos clássicos tais como Léon Denis, Flammarion , Bozzano, entre outros.



Livros espíritas em francês

Próximo encontro agora será em Lyon, berço do Codificador, para o 7º Congresso Francofônico de Medicina e Espiritualidade nos dias 18 e 19 de outubro. Este encontro será presidido por Marlene Nobre, SP. Br. e contara com a presença de alguns expositores brasileiros.

Agradecemos pela oportunidade de nos fazermos presentes no Simpósio de Lille, e aguardamos as tarefas que virão no mesmo ambiente de simplicidade, fraternidade e reforma intima.



(Alcione Albuquerque é brasileira, residente na França)

9.10.14

PESQUISADOR BRASILEIRO NOMEADO COORDENADOR DE ÁREA NA ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE PSIQUIATRIA




Não se trata de uma notícia espírita, mas gostaria de compartilhar com os leitores do Espiritismo Comentado a divulgação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que informa a escolha do Dr. Alexander Moreira-Almeida como coordenador da seção de "Espiritualidade, Religiosidade e Psiquiatria" da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA - World Psyquiatric Association).

Moreira-Almeida tem realizado e realizado muitas pesquisas envolvendo médiuns e religiosidade, uma área que tem avançado na psiquiatria mundial. Desejamos muitas realizações nos próximo três anos para ele.

As diversas publicações já feitas sobre o trabalho do professor em nosso blog pode ser lido em: http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/search?q=Alexander+Moreira-Almeida

7.10.14

UM NOVO LIVRO SOBRE HERCULANO PIRES FOI LANÇADO PELO CORREIO FRATERNO.




Herculano Pires foi um filósofo e jornalista paulista, espírita, que escreveu até o momento mais de 80 livros sobre áreas diversas do pensamento espirita. Sua influência no movimento espírita durante décadas, valorizando o pensamento de Allan Kardec, criticando análises apressadas, defendendo o movimento espírita através de um inovador Clube de Jornalistas Espíritas, escrevendo como Irmão Saulo em jornais de grande circulação, entre muitas outras ações, estende-se pelos anos e chega até muitas lideranças espíritas dos dias de hoje.



Em 2014 comemoramos seu centenário de nascimento, com diversos eventos. A editora Correio Fraterno lançou o livro "O Pensamento de Herculano Pires", do conhecido jornalista espírita Raymundo Espelho. Raymundo pinça conceitos importantes ao longo da extensa obra de Herculano, dando-nos uma visão introdutória da obra do filósofo espírita.



No verbete Cristianismo lê-se:



"Não há nenhuma possibilidade de se reajustar o cristianismo oficializado pelo Império Romano, ao cristianismo espiritual de Jesus. A gigantesca estrutura da Igreja é o último resíduo do império dos Césares. Só nos resta devolver a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." (Revisão do cristianismo)



Assim, gota a gota, o leitor passa pelos muitos temas que Herculano tratou, pelos muitos títulos que escreveu, por momentos importantes da formulação de sua filosofia e do seu texto jornalístico. Ele desperta o interesse na leitura e releitura de livros importantes para a consolidação do entendimento do espiritismo por seus adeptos.

2.10.14

OS INIMIGOS INVISÍVEIS DO VOLUNTÁRIO ESPÍRITA





Tenho ouvido muitas pessoas dizerem que com a modernidade acabou com o tempo para o voluntariado espírita. Permitam-me discordar desta explicação, porque o voluntariado nunca esteve tão em moda. A Copa do Mundo e as Olimpíadas do Rio de Janeiro atrairão milhares de voluntários, mesmo que todos saibam o quanto estes eventos arrecadam com publicidade. Quando motivados pela aprendizagem, muitos alunos não se importam em fazer estágios voluntários, certos da importância da experiência que irão adquirir em sua formação.

Outra contradição está dentro do próprio movimento espírita: somos todos voluntários. Dirigimos as casas voluntariamente, dirigimos reuniões voluntariamente, participamos de eventos para arrecadação de fundos voluntariamente (na verdade, até pagamos para participar), aplicamos passes voluntariamente, organizamos cursos e seminários voluntariamente... Nossa história na casa espírita é voluntária, ou seja, fazemos porque temos vontade.

Quando pensamos nos esvaziamentos de diversas atividades das casas, fico pensando qual é a sua razão. Nem sempre as pessoas têm coragem de dizer verdadeiramente por que se afastam de uma atividade voluntária. Evitando conflitos, dão respostas socialmente aceitas, como a famosa “estou sem tempo”. Ouvindo esta frase, o coordenador da equipe a repassa ao dirigente e este começa a teorizar: as pessoas estão sem tempo.

Acho que o voluntariado tem outros inimigos invisíveis, menos discutidos. Um deles é o desencanto. Uma pessoa procura uma atividade imaginando que será o que ela não é. Quantas pessoas pensam que trabalhar com crianças é apenas a alegria de brincar? Quando se apercebem que pode envolver cuidados, lidar com problemas, responsabilidades, exigências... perdem o entusiasmo.

E a rotina? Os grupos vão se preocupando apenas com as tarefas e se esquecem de outras coisas como o encontro, o relacionamento, as comemorações das realizações, a amizade. O voluntário sente-se como um mero trabalhador, com os ônus do trabalho, sem os bônus do encontro.

Outra coisa esquecida é o desenvolvimento do voluntariado, geralmente associado com a rotina. As pessoas não aprendem nada depois de algum tempo. Não conversam sobre o trabalho que fazem e alternativas para aperfeiçoamento. Não participam de cursos, de seminários. Não visitam outros trabalhos semelhantes para ver como realizar melhor. Não são incentivados a apresentar seu trabalho em espaços onde ele seria valorizado e discutido.

Em meio a tanto incentivo à disciplina (necessária, claro), às vezes se esquece do desejo. O que faz as pessoas felizes? Eu preciso ir a uma atividade porque me constranjo a tal ou há algo parecido como a hora de sair com o namorado (a) no trabalho voluntário que faço? Existe alegria no trabalho?

Como se dão as relações no trabalho voluntário? Elas são sempre marcadas pela crítica, muitas vezes imaturas e mal fundamentadas, calcada em estereótipos, ou são relações ricas de afeição e respeito?

Os colegas e coordenadores valorizam o trabalho realizado? Mostram os resultados do que se faz? Partilham as informações e percepções que mostram casos reais de crescimento das pessoas que são auxiliadas pelo trabalho?

Nas dificuldades há apoio? O voluntário tem a quem recorrer, às vezes apenas para desabafar, outras para ouvir quem já passou pelo problema que hora enfrenta? Alguém está disponível nas horas de dificuldades, ou o atendimento fraterno é apenas para o público externo que procura o centro espírita?

E você, que me lê, como voluntário? Como trata seus colegas, coordenadores e público? Que ambiente você cria com suas ações? O que pode melhorar?


Antes de pensar nestas e em outras questões que nos ocorrerão, é difícil aceitar a ideia que a pressa dos tempos modernos faz com que não seja possível contar com voluntários para o que quer que seja. É sempre possível aperfeiçoar o que se faz.