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2.3.21

ESPIRITISMO, MISTICISMO, SENTIMENTO RELIGIOSO E POSITIVISMO: UMA RESPOSTA DE LÉON DENIS

 


Acabo de ler um artigo de Léon Denis, publicado na revista Le Spiritisme, de junho de 1889, no qual ele comenta a proposta do Sr. Marius George de criar em meio ao espiritismo um grupo positivista, que se apoiasse exclusivamente nos fatos e abandonasse tudo o que pudesse pertencer "ao domínio da hipótese".

Denis estava participando da organização de um congresso organizado pela União Espírita Francesa, e confirma ao seu correspondente que "sua forma de ver será acolhida não só pelo congresso, mas de forma permanente por todos os seus irmãos, com o respeito que é devido às convicções sinceras e esclarecidas" (p. 81)

A seguir, Marius afirma que a obra de Allan Kardec "está manchada com dogmatismo e misticismo" e que por isso guardaria pouca relação com "os gostos e aspirações" da época em que eles viviam.

Denis argumenta que Kardec agrupou e coordenou o ensino dos espíritos, de forma a lhe dar um "corpo" de doutrina. Ele afirma que isso levou o espiritismo à "idade adulta". Ele afirma que todos os que fugiram desse método, com teorias pessoais, edificaram obras efêmeras. Ele se refere a Roustaing, como exemplo, dizendo que ele merece o epíteto de místico com mais justiça.

Analisando Kardec ele cita o combate, com rigor, dos dogmas católicos em O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno e A gênese. Mostra a diferença do conceito de Deus entre os católicos, e penso que também entre os deístas como Voltaire, porque fala do Deus-relojoeiro, e faz uma imagem muito interessante, que já havia percebido na leitura de O céu e o inferno, a substituição de um Deus visto como imperador do universo (cercado por seus anjos-cavaleiros), por uma "imensa república de mundos governada por leis imutáveis, acima dos quais paira a Razão, Razão consciente, que conhece a si mesma e que é dona de si, que é Deus." (p. 82)

Surpreendendo seu interlocutor, Denis afirma que a noção de Deus nos escapa (ele está discutindo com Marius George o misticismo da concepção de Deus) assim como as noções positivistas de infinito e eternidade. Em outras palavras, ele aponta uma contradição interna do positivismo: conceitos que não surgem da observação de fatos, mas da razão.

O autor espírita francês continua dizendo que Kardec entende "o sentimento religioso como uma força" que pode ser utilizada para o bem da humanidade. Ele afirma que a humanidade não tem menos necessidade do ideal que do real. 

Para ele, "o ideal é essa intuição do melhor que nos eleva acima do visível, do conhecido, do realizado, em direção de concepções e de formas mais perfeitas." (p. 82) Nessa frase, Denis mostra a seu interlocutor que uma visão exclusivamente positivista seria reducionista, defendendo certo idealismo (escola filosófica).

Outra colocação genial de Denis foi reconhecer que o sentimento religioso foi explorado por uma casta sacerdotal que produziu abusos em seu nome, mas que "fortificado pela ciência e pela Razão ele se tornará motivo de aperfeiçoamento individual e de transformação social". (p. 82)

O espírita de Tours faz um análise das religiões e mostra que sua parte exclusivamente humana e material é a "das definições, dos dogmas e de todo o aparato dos cultos e dos mistérios", da mesma forma que Kardec havia discutido em seu artigo de 1868.

Ele afirma que as experiências espíritas dão uma base sólida à crença na vida futura, retirando-a do domínio das hipóteses e situando-a no domínio dos fatos (ele estaria se referindo a uma teoria baseada em evidências, como se diz hoje?). Também afirma que "seria uma grande falta, deixar às igrejas o monopólio da ideia de Deus". 

Com uma frase contundente, Denis reafirma a insuficiência do positivismo e o valor do sentimento religioso, quando escreve: "A missão do espiritismo não é excluir o sentimento religioso do coração humano e a noção de Deus, mas sim secularizá-los, para para purificar, para elevá-los, para apoiá-los na razão, a fim de torná-lo o motivo de melhoria." (p. 83) 

O mais interessante do artigo é ver que mesmo se opondo claramente à tese da redução do espiritismo aos limites traçados pelo positivismo, Denis respeita seu interlocutor. Ele conclui seu artigo dizendo:

"Mas qualquer que seja sua opinião sobre este assunto, creia, meu amigo e irmão, que estamos de acordo em pontos suficientes para que certas diferenças de opinião não nos possam separar e que você vai me encontrar sempre disposto a caminhar de mãos dadas na conquista de destinos melhores para nós e para a humanidade." (p. 83)

Um texto muito importante para refletirmos no meio espírita, nos dias de hoje.

14 comentários:

  1. Denis, como sempre, genial, surpreendente!

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  2. Caro Jader, esse texto de Léon Denis que cita está disponível na internet? Se positivo, não seria interessante vc colocar o link?

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  3. Paulo, está em francês e é enorme (mais de 100 megas para baixar), por isso não inseri links. Basta digitar Encyclopédie Spirite no Google. Você vai então abrir esse site: https://sites.google.com/spiritisme.net/encyclopedie-spirite Vai escolher o link Revues Spirites (Revistas Espíritas) e escolher a Revue Le Spiritisme (Revista O Espiritismo). O texto está no ano de 1889, que fica lá em baixo na página que abre. Procure o primeiro artigo do mês de junho: Positivisme et Idealisme.

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  4. https://sites.google.com/spiritisme.net/encyclopedie-spirite/revues-spirites/revue-le-spiritisme

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  5. Sensacional a "sacada" do Dennis; secularização da noção de Deus! Penso que não se deve dar tanto poder às instituições religiosas a de ser portadora da visão divina. E de quem não comunga com essa visão, ser "excomungado". Deus é muito mais amplo que qualquer conceito humano e deveria ser entendido, individualmente, tanto no âmbito da observação objetiva quanto na percepção introspectiva.

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  6. Esse Denis cada vez mais me encanta. Um argumento justo sem retirar o valor do questionamento, além de mostrar o valor do sentimento, trazendo ao coração aquele que, mesmo pensando diferente, é-lhe bem quisto como amigo e irmão. Belo artigo meu caro Jáder.

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  7. Denis é o poeta da filosofia espírita...

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  8. Jesus Histórico também tinha esta visão ""o ideal é essa intuição do melhor que nos eleva acima do visível, do conhecido, do realizado, em direção de concepções e de formas mais perfeitas."

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  9. Parabéns Jader por nos trazer esse texto bastante reflexivo de Denis. Este espírita de escol merece de
    todos nós tempo e dedicação.

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  10. A influência positivista ocorre na metodologia, na abordagem de maneira inédita de fatos milenares, no esforço para consolidar o que ele mesmo chamou de "ciência positiva". Mas, é evidente que Kardec transcendeu e ultrapassou o positivismo quando ousou tirar dos fenômenos uma filosofia. Se Descartes teve que separar a ciência da religião para que aquela pudesse crescer sem as peias ideológicas desta, Kardec as reuniu, ou resgatou as união, sob a proteção da razão e dos fatos.

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  11. Donha, boa tarde! Positivo está para positivismo assim como fato está para uma ciência natural. Um conhecimento que é construído com o auxílio de fatos não é necessariamente positivista. Por isso um francês do século 19 examina Kardec e não o considera positivista, propõe a construção de um espiritismo positivista. Quem mais se aproximou disso foi Camille Flammarion, que varreu o espiritismo de quase toda a sua construção baseada na afirmação dos espíritas em busca de fatos incontestes para construção de um pensamento exclusivamente baseado em fatos.

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  12. Em tempo: construção teórica baseada na afirmação dos Espíritos.

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