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21.4.21

O CHICO DOS POBRES

 

Chico Xavier à sombra do Abacateiro: repare no público ao seu redor


Terminamos no último domingo a Semana de Chico Xavier, na TV Célia. Convidar pessoas próximas ao Chico nos trouxe uma nova luz sobre o que ele fazia. Uma coisa que percebemos dos expositores é o que podemos chamar de “o Chico dos pobres”.

Na minha juventude ouvi os militantes políticos na universidade criticarem a distribuição de bens, como cestas básicas, para os pobres. Eles chamavam essa prática de “amansar o cordeiro”, porque não resolvia o problema de sua exclusão social. Era um discurso raso, que não ia além da afirmação aparentemente óbvia.

Na nossa casa, por exemplo, a distribuição de cestas básicas tinha uma finalidade promocional. Ajudava famílias que haviam migrado da roça para a periferia de Belo Horizonte a se estabelecer. Muitas dessas famílias chegavam na esperança de um novo futuro, mas sem emprego nem bens. Algumas delas entravam em um ciclo negativo, cujas perdas contínuas e a fome levavam o pai ao alcoolismo, à depressão e ao afastamento do núcleo familiar. Uma cesta de alimentos nem de longe atendia as necessidades desses núcleos, mas combatia a fome e as reuniões mensais que fazíamos davam algum alento. Mantido o núcleo familiar, aumentavam as chances de adaptação à cidade grande.

No caso do Chico, o significado do que ele fazia era completamente diferente. Ele se dedicou à humanização dos miseráveis, ao estabelecimento de laços de afeto com eles. Parece bobagem aos olhos de um intelectual que deseja, justificadamente, a inclusão social do excluído, a existência de direitos mínimos, como o trabalho, a renda, a moradia, a saúde e a alimentação. Mas não é.

Roberto e Marival contaram-nos de uma tarefa na qual o Chico visitava as periferias de Uberaba. Lugares sem luz nem água encanada. Lampião na mão, lá ia um grupo de voluntários, visitar as periferias.  Marival surpreendia-se com a capacidade do Chico guardar os nomes das pessoas. E o Chico lhe explicava que quem ama, lembra. Esse é um primeiro ponto a se observar. Os pobres não eram “pessoas pobres” para o Chico. Eram o seu Antônio, a dona Maria de João, a Celestina, filha de Dica. Ele visitava a casa, e era uma visita tão ilustre, que o filho de uma família fez poesia para o Chico. A tarefa não era a distribuição do que quer que levassem. A tarefa era a convivência. Acho que ninguém entendeu direito o Chico.

Depois Juselma nos explicou a questão da moedinha. Uma garrafa de água de dois litros, acho, cheia de moedinhas de dez centavos, depois de vinte e cinco centavos, e vai subindo o valor na medida em que o tempo e a inflação corroíam a capacidade de compra do nosso dinheiro. Por que isso? Qual o sentido? Perguntava-se a professora Juselma, perspicaz. As moedas de pequeno valor de compra dificilmente fariam a diferença na vida das pessoas, embora quem ganhe muito pouco dinheiro tenha uma visão diferente de uma moeda de um real, por exemplo.

Mas não tinha nada a ver com distribuição de renda. Tinha a ver com proximidade psicológica. Com o aumento da fama do Chico, ele atraía espíritas e interessados de todas as classes sociais. Seguramente, os das classes superiores se insinuavam, se achavam no direito de serem recebidos, e se aproximavam, às vezes de forma importuna e inoportuna, o que também nos foi narrado. A moedinha era uma espécie de reserva de tempo para que o pobre também pudesse se aproximar do Chico. Ele se sentia no direito de pegar uma moedinha e de agradecer ao Chico. Juselma nos disse que era um pequeno momento, o pobre beijava a mão do Chico e o Chico beijava a mão do pobre, em retribuição. Nesse pequeno instante, uma palavra, um pedido, uma fala rápida. Tudo à sombra do abacateiro, para receber até quem tivesse alguma resistência com o espiritismo e os centros espíritas. Qualquer um poderia se aproximar nessas horas e os pobres não ficavam “no fundo do templo”, como percebia outro Francisco, o de Assis. O Chico não cobrava a conversão dos pobres, que eles se tornassem espíritas. Isso também nos foi contado pelo Marcel. A mulher que elogiou abertamente o marido, mas se queixava dele não ser espírita. O Chico teria dito:

- Se ele é tão bom assim, não mexe em nada não. Deixa ele ser quem é.

Outra percepção do Marcel, a do Chico diante da dor da perda. A mulher chegou desesperada com a morte do filho. Chorando, perdida. Um terremoto abalou seu mundo. E o que o Chico fez: abraçou-a e chorou com ela. Nem uma frase pronta, nem uma percepção sobrenatural, nenhuma esperança, nenhum “sermão espírita”, do tipo espírita não age assim, ou “a vida não termina com a morte”; apenas uma alma que sente a dor que sente a outra.

Por fim, um tema polêmico, o dos aparelhos de ar condicionado, um dos motivos do afastamento do Chico do Centro que ele fundou em Uberaba. Essa história se espalhou no meio espírita, e há até quem advogue que não se pode colocar ar condicionado na casa espírita, porque “Chico dixit”.

Lembrei de uma fala do Chico, antiga, replicada pelos que o conheceram. “O Centro Espírita tem que ser um lugar simples o suficiente, de tal forma que um pobre possa cuspir no chão se assim o quiser.”

O que entendi é que o problema não é o ar condicionado, ou o chão de terra batida do centro, mas o propósito de Chico Xavier, um propósito claramente franciscano, de conviver com os pobres. Há de se ter um lugar que os pobres possam frequentar sem se sentir “estrangeiros” ou constrangidos. Que possam se sentir em casa, acolhidos, um lugar que sintam que lhes pertence, sem qualquer constrangimento de serem pobres. Esse era o trabalho dele, como lemos na narrativa escrita por ele da rainha católica portuguesa que pede a ele que cuide dos “filhos peninsulares” dela. Era o trabalho do Chico, o que ele se propôs a fazer.

O grupo que o Chico frequenta precisa ser simples o suficiente para que ele possa continuar fazendo seu trabalho com os pobres: o de trocar uma palavra, ouvir uma aflição, cumprimentar pelo nome, perguntar pelo filho... Em outras palavras, humanizar a convivência e fazê-lo perceber que é tão pessoa como um rico, ou como um poderoso, ou como uma pessoa formada em nível superior.

Essa é apenas uma das conclusões das palestras dessa semana. Foi uma experiência muito rica e diferente do cotidiano. Espero que possamos, no futuro, fazer novos recortes da vida e da produção do Chico, como nos mostrou o Marcel Souto Maior.

6.4.21

SEMANA DE CHICO XAVIER NA AECX

 


No mês de abril o movimento espirita costuma se organizar para lembrar de Chico Xavier e falar de sua obra. No dia 02 de abril de 1910 ele reencarnava na então cidadezinha de Pedro Leopoldo, parada de trem próxima a Belo Horizonte, típica cidade do interior. O pai de Chico constituiu uma família extensa com dois casamentos: Maria João de Deus e Cidália Batista. 

Fico pensando se espíritos como Chico Xavier, que vêm com uma missão, escolheriam a pobreza e as experiências infantis de falta, como o período em que ele ficou sem família, com os irmãos sendo criados em casas distintas e ele próprio com uma madrinha que ficou marcada em sua memória por não lhe ter amor nem carinho, para que esse tipo de experiência fique escrito "a fogo" em sua alma, motivando ações no futuro. Tentar auxiliar a pobreza e valorizar a família, dedicar-se aos irmãos, primeiro os de casa, depois dos irmãos em Deus, foi um imperativo na vida desse médium.

Quando a casa de Célia Xavier nos convidou para integrar um grupo que organizasse uma semana em favor da memória de Chico, fiquei pensando como constitui-la. Trocando ideias com os colegas, acabamos aceitando a ideia de compor a semana com pessoas que conviveram com o médium de Pedro Leopoldo e de Uberaba e, se possível, que escreveram sobre ele. 

Resolvemos fazer na segunda semana, porque, seguramente, muitos centros e associações espíritas iriam homenageá-lo na primeira, escasseando os expositores. Apesar do pouco tempo que tínhamos, conseguimos um time de primeira divisão:

Jhon Harley tem dois livros (quase três) sobre Chico Xavier, no qual se lê seu entusiasmo e capacidade de pesquisa do médium.




Roberto e Marival Veloso são dois irmãos que conviveram com Chico Xavier quando moravam no triângulo mineiro. Eles são fontes orais da vida de Chico Xavier. Marival organizou o livro "Chico no Monte Carmelo" que foi publicado pela editora União Espírita Mineira. 



Juselma Coelho é ao mesmo tempo "prata da casa", dirigente da Sociedade Espírita Maria Nunes, presidente do Conselho de Administração do Hospital Espírita André Luiz e trabalhadora incansável. Ela conviveu com o Chico no período em que ele residia em Uberaba. 

Suely Caldas Schubert dispensa apresentação. Autora do livro Testemunho de Chico Xavier, fez uma análise extensa da correspondência de Chico com a Federação Espírita Brasileira, respondendo algumas questões e fazendo com que o leitor elabore outras novas.


Alexandre Caroli Rocha é acadêmico e se debruçou sobre dois aspectos da produção mediúnica de Chico Xavier. Na dissertação "A poesia transcendente de Parnaso de Além Túmulo", ele trata dos poetas e da poesia que ganhou as páginas psicografadas a lápis pelo médium de Pedro Leopoldo e em "O caso Humberto de Campos: autoria literária e mediunidade", trata do escritor maranhense, analisando sua produção antes e depois da morte, o que possibilitou à Unicamp dar ao Alexandre o título de doutor em teoria e história literária, em 2008. Seguem os links:

http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/269864

http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/270002

A tese, dissertação e dois artigos de Alexandre Caroli podem ser encontradas no portal Espiritualidade e Sociedade, que divulgou os links das bibliotecas digitais oficiais:

http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/R_autores/ROCHA_Alexandre_Caroli_tit_Poesia_transcendente_de_Parnaso_de_Alem_Tumulo-A.htm

Um trabalho dele sobre as citações de Humberto de Campos em sua obra mediúnica se tornou um dos capítulos do livro "A temática espírita na pesquisa contemporânea", organizado pela Liga de Pesquisadores do Espiritismo e publicado pelo Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo - Eduardo Carvalho Monteiro.


Nosso último convidado é o jornalista, escritor e roteirista, Marcel Souto Maior. Seu livro "As vidas de Chico Xavier" tornou-se best seller e foi adaptado para o cinema, pela Sony Pictures, Globo Filmes e outros, que nos entregou o filme "Chico Xavier", dirigido por Daniel Filho. Marcel entrevistou Chico Xavier em Uberaba e colheu um volume significativo de informações com pessoas ligadas a ele. Empregando suas habilidades profissionais, escreveu uma biografia que "fisga" o leitor desde o início, levando-a a uma viagem ao longo da vida do médium.


O Marcel tem três entrevistas interessantes sobre o universo de Chico Xavier na sua página, que pode ser acessada via google digitando @marcelsoutomaior. Uma com a TV O Dia, outra com o jornalista e espírita André Trigueiro e a última com o psicólogo Rossandro Klingey.


Outro espaço interessante é o Marcel no Instagram. Ele está divulgando estórias e frases de Chico Xavier, além de outros projetos como o Calma e o Histórias para Contar. 

Com este time de convidados, acreditamos que as conversas contribuirão para a bagagem do participante e permitirão uma melhor compreensão da pessoa e produção mediúnica de Chico Xavier.

3.4.21

ESQUINA DO CÉLIA, COM DIREITO A PÁGINA NO ESPIRITISMO COMENTADO


Um dos slides de divulgação do programa


Esquina do Célia é um programa realizado normalmente nos segundos sábados de cada mês, no qual fazemos entrevistas com convidados que escrevem livros, divulgam o espiritismo, dirigem reuniões e mantém editoras espíritas. O entrevistador pergunta como um jovem de mocidade depois da reunião, ainda na calçada, na porta do centro espírita, querendo entender, saber um pouco mais.

Ele já é feito há oito meses, com uma entrevista por mês.

Os leitores ficavam me pedindo para acessar, pedindo o endereço dos programas, mas eles ficavam perdidos, isolados uns dos outros, dentro da TV Célia Xavier. Era necessário entrar no YouTube, clicar na TV Célia e depois escrever Esquina do Célia no instrumento de busca para acessar todos os programas agrupados.

Tentando facilitar a vida do interessado, criamos uma nova página dentro do Espiritismo Comentado para quem quer assistir o Esquina do Célia. Basta olhar logo abaixo da logomarca do blog e clicar na "orelha" da página, inscrita com o nome do programa: Esquina do Célia. 

Logo abaixo a descrição do programa, podemos ver a lista de entrevistados com os respectivos links, basta clicar neles e começar a assistir.