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27.4.20

JAPHET, ROUSTAING E KARDEC



A atriz Julia Konrad caracterizada como Madame Japhet


Recebi um comentário imensamente interessante, que possibilita muitas análises, feito pelo leitor Paulo Sérgio Fonseca Antunes. Ele se refere à publicação “Curiosidades: Allan Kardec e Madame Japhet”. https://espiritismocomentado.blogspot.com/2019/05/curiosidades-allan-kardec-e-madame.html

É o que está abaixo:

Fala-se que o nome Allan Kardec foi revelado ao Professor Rivail pelo espírito Zéfiro (Zephir), em reunião mediúnica na residência das irmãs Baudin, utilizando-se para isto a cesta com um lápis (roque). Na ocasião, o Professor tomou conhecimento de que Allan Kardec foi o nome dele em uma milenar reencarnação entre os druidas. Sabe-se que a primeira edição de O livro dos Espíritos continha pouco mais de 400 perguntas, e que na segunda edição passou a ter mais de 1000 perguntas, e que, a família Baudin saiu de Paris ainda no segundo semestre de 1857, o que, provavelmente, deixou a outra médium (sonâmbula profissional) sobrecarregada. Médiuns profissionais existem até nos dias de hoje. Enquanto a codificação do Espiritismo ainda não havia acontecido, quem fazia ideia de que isto seria utilizar erradamente este dom? Ao que parece, a Mademoiselle Ruth Celline Japhet colaborou gratuitamente sim no trabalho de Allan Kardec, mas, é possível que desejasse ter seu nome divulgado no livro para fazer um marketing pessoal. Fala-se que após o desencarne do Mestre de Lyon (1869), Jean Baptiste Roustaing em conluio ganancioso com Pierre Gaetan Leymarie destruíram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, criada por Allan Kardec em janeiro de 1858. Sendo assim, não é de se estranhar que a médium Ruth Celline Japhet, com quem Roustaing operava profissionalmente a mediunidade há mais de dez anos, tivesse atitudes mais nobres. Fala-se que Chico Xavier foi reencarnação de Ruth Celine Japhet, a qual, teria desencarnado nos anos 1880. Considero pouco provável essa afirmação, pois, acho que um espírito não mudaria tanto sua maneira de ser, tendo menos de 30 anos apenas entre duas reencarnações.

Vou discorrer sobre as muitas questões em forma de itens:

1. “Fala-se...” Essa foi a primeira observação que fiz. Para se fazer história, ou mesmo apenas memória, é preciso conhecer a fonte, de preferência a fonte primária. Isso porque cada autor conta a história de um jeito, e tem uma lógica e um conjunto de fontes como base para construção do seu discurso. Tudo o que o Paulo falou, é mais ou menos verdade, mas foi tirado de autores muito diferentes, então ficou uma espécie de “samba do crioulo doido” (perdoem a expressão, não sei se ainda é politicamente correta, mas não tem nenhuma intenção racista ao ser usada).

2. Eu citei como fonte no artigo que originou as dúvidas, um jornal inglês e um texto atribuído a Alexander Aksakof. Todos sabemos que Aksakof não é nenhum especialista em Allan Kardec, e que os lamentos da Madame Japhet criaram uma espécie de “resistência” ou “preconceito” dele com relação ao fundador do espiritismo. Coisas de ser humano!

3. O nome de Allan Kardec foi revelado pelo espírito Zéfiro na casa das Baudin, usando um lápis (roque).

Eu procurei em Obras Póstumas e não encontrei essas informações, embora lá Kardec fale das Baudin e de Zéfiro.

Quem atribui o nome de Roc (e não roque) ao “lápis de pedra com que os espíritos rabiscavam em uma ardósia comum” (p. 98-99) foi Canuto Abreu, no livro “O livro dos espíritos e sua tradição histórica e literária”. Como o título já o disse, o livro não é exclusivamente histórico e Canuto escreveu do que ouviu falar, sem os rigores da metodologia da história oral, ou seja, ele aceita que algumas coisas são imaginárias, lendas, que passaram a ser contadas e recontadas no meio espírita francês, que ele conheceu no início do século 20. Não dá para citar como se fosse uma fonte histórica, portanto. Nesse livro também não encontrei menção à origem do nome de Kardec, apenas uma menção à sua reencarnação no meio dos druidas (p. 99).
Consultei, então um belo trabalho de Eugênio Lara (https://questaoespirita.blogspot.com/2013/08/sobre-o-pseudonimo-de-denizard-rivail.html ) que mostra diversas fontes, mas admitindo a tradição oral e a falta de documentação clara do próprio Kardec. Quem sabe a publicação das cartas de Kardec esclareça essa questão.


Primeira edição de "O livro dos espíritos"

4. A primeira edição de “O Livro dos Espíritos” tinha 400 perguntas e a segunda tinha “mais de mil perguntas”.

Tenho duas traduções da primeira edição de O Livro dos Espíritos. A de Canuto Abreu e a de Evandro Noleto Bezerra. Ambas têm 501 perguntas, fora os elementos pré-textuais e o epílogo.

A edição atualmente publicada de “O livro dos espíritos” tem 1019 perguntas, os elementos pré-textuais e uma conclusão (Não mais epílogo). Consultei duas traduções atuais, a de Evandro Noleto Bezerra (Kindle) e a comemorativa de Guillon Ribeiro.

Sobre as mudanças realizadas por Allan Kardec em “O Livro dos espíritos”, enquanto estava encarnado se pode ler o “O livro dos espíritos: uma análise comparativa entre a 1ª., a 2ª e até a 16ª edições”, de Luis Jorge Lira Neto, no livro “O espiritismo da França ao Brasil: estudos escolhidos.”, publicado pela USE-SP e pela LIHPE.

5. "a família Baudin saiu de Paris ainda no segundo semestre de 1857, o que, provavelmente, deixou a outra médium (sonâmbula profissional) sobrecarregada”

Essa é a menos provável de todas as afirmações até agora. Kardec fala em Obras Póstumas que as duas Baudin se casaram no fim do ano após a publicação de “O Livro dos Espíritos” e que “a família se dispersou” (p. 271). 

Quem auxiliou bastante na revisão de “O Livro dos Espíritos” foi a Mme. Japhet, como publiquei no texto do EC em questão https://espiritismocomentado.blogspot.com/2019/05/curiosidades-allan-kardec-e-madame.html segundo o próprio Allan Kardec. Japhet era sonâmbula profissional, mas trabalhou voluntariamente no livro, e nunca lhe faltaram médiuns. Na página 270 de “Obras póstumas”, 17ª edição, AK fala no concurso de “mais de dez médiuns” no trabalho. Na fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Kardec cita Ermance Dufaux como médium principal (Obras Póstumas, página 295) e uma frequência no local de “15 a 20 pessoas”, ocasionalmente de até 30 pessoas.

6. "Médiuns profissionais existem até nos dias de hoje. Enquanto a codificação do Espiritismo ainda não havia acontecido, quem fazia ideia de que isto seria utilizar erradamente este dom?"

 Com base nas fontes citadas, cabem dois comentários. Primeiro, já citado, que Kardec agradeceu a colaboração voluntária de Mme. Japhet. Outro estudo, que foge ao escopo desse comentário é distinguir e comparar o sonambulismo, em prática em Paris antes do espiritismo, fruto do movimento que o magnetismo animal de Mesmer provocou, da prática mediúnica, talvez existente em Paris sob a influência dos trabalhos de Emmanuel Swedenborg.

7.       Ao que parece, a Mademoiselle Ruth Celline Japhet colaborou gratuitamente sim no trabalho de Allan Kardec, mas, é possível que desejasse ter seu nome divulgado no livro para fazer um marketing pessoal.

Concordo. Acho bem possível.

Rue de Valois, local da primeira sede da SPEE

8.       Fala-se que após o desencarne do Mestre de Lyon (1869), Jean Baptiste Roustaing em conluio ganancioso com Pierre Gaetan Leymarie destruíram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, criada por Allan Kardec em janeiro de 1858.

Dois autores recentes têm promovido uma releitura da história e da imagem que tínhamos de Pierre-Gaetan Leymarie: Simoni Privato e Adriano Calsone. Eles publicaram respectivamente “O legado de Allan Kardec” e “Em nome de Kardec”.

A ideia de um conluio entre Roustaing e Leymarie não tem base historiográfica. Após a saída da prisão Leymarie se aproximou de diversas instituições não-espíritas: a sociedade teosófica (Privato, p. 223, Calsone p. 55), da pneumatologia universal (Privato, p. 224) e do roustainguismo através de Jean Guérin, divulgador de Roustaing, que ofereceu dinheiro para que a “Sociedade Científica de Estudos Psicológicos”, dirigida por Leymarie instituísse um concurso literário espiritualista (Privato, p. 239). Havia, da parte de Guérin, o interesse de divulgar o roustainguismo, e Leymarie administrava uma empresa em situação econômica frágil.

Não vejo Leymarie, nem como o herói, construído a partir de sua possivelmente injusta prisão em nome do espiritismo, nem como um vilão, que sempre desejou enriquecer a partir do espiritismo, mas como homem frágil, com bons e maus momentos, que tornou-se administrador da Sociedade Anônima, continuadora da obra de Kardec, em 1871. (Privato, cap. 10 e 11). Percebo Leymarie como um sucessor da obra de Kardec sem a formação do mestre, sem conhecimento científico e filosófico. Incapaz de perceber a superioridade da ontologia, da ética e da epistemologia kardequianas, ele foi se encantando com outras doutrinas que surgiam posteriormente, tinham apelo espiritualista e se consideravam superiores. Ele foi permitindo uma espécie de “canto de sereia”, em que era cooptado com o oferecimento de honrarias, cargos e posições institucionais. E foi acreditando que as novas contribuições que chegavam deveriam ser incluídas na Livraria e na Revista Espírita, e que dariam um novo fôlego aos negócios e um avanço à doutrina espírita, o que, na verdade, era retrocesso, porque ela perderia seu caráter racional e empírico, tornando-se um movimento cada vez mais místico e ocultista. A reação às suas decisões infelizes se deu através de espíritas conhecedores de Kardec e capazes de valorizar o caráter filosófico e científico do espiritismo, dentre os quais se destacam Léon Denis e Gabriel Dellane.

Quanto à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o que foi relatado também não é justo. Ela foi transformada em Sociedade Anônima da Caixa Geral do Espiritismo, dando prosseguimento ao Projeto de Allan Kardec de 1868, na casa de Amelie, sua viúva. Esta sociedade foi constituída para dar continuidade à Revista Espírita e “publicar os livros de Allan Kardec e outras obras sobre espiritismo” (Privato, p. 132-133), com administradores remunerados (Privato, p. 138). Cabe informar que Leymarie não era membro das diretorias, nem do conselho supervisor, não tendo sido liderança na mudança da feição da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. De instituição associativa, ela foi transformada em instituição associativa e comercial para que os livros e revistas espíritas pudessem ser editados e comercializados e render recursos para a mesma, dispensando-se a intermediação das editoras até então parceiras.

9.       Sendo assim, não é de se estranhar que a médium Ruth Celline Japhet, com quem Roustaing operava profissionalmente a mediunidade há mais de dez anos, tivesse atitudes mais nobres.

Aqui há um grande equívoco. Japhet não tinha qualquer ligação com J.B.Roustaing. Era uma sonâmbula levada ao transe pelo magnetizador Roustan. Os nomes se parecem, mas são pessoas totalmente distintas, que viviam em lugares distintos.

Arnaldo Rocha


10 "Fala-se que Chico Xavier foi reencarnação de Ruth Celine Japhet, a qual, teria desencarnado nos anos 1880. Considero pouco provável essa afirmação, pois, acho que um espírito não mudaria tanto sua maneira de ser, tendo menos de 30 anos apenas entre duas reencarnações."


Quem afirma que Chico foi a reencarnação de Japhet foi Arnaldo Rocha, viúvo de Meimei (Irma de Castro Rocha) e amigo próximo de Chico Xavier por décadas. A avaliação de Japhet pelo autor foi apressada, em função da confusão Roustan-Roustaing e da questão financeira indevidamente analisada na história. Embora a afirmação de vidas passadas demande sempre evidências sólidas para que não seja mera especulação, fica aberta a possibilidade das duas pessoas serem o mesmo espírito.

Concluindo:

Achei muito corajoso e interessante o Paulo Sérgio compartilhar conosco o que ouviu falar e o que concluiu a partir disso. Todavia, na minha opinião, a questão da história do espiritismo precisa ser discutida a partir da análise de fontes e de autores, o risco de se ficar construindo hipóteses em cima de “ouvir falar” é criar versões sem sustentação e totalmente afastadas do que já se conhece.

Não tenho a pretensão de ter uma “versão verdadeira” da história, mas apenas uma análise fundamentada, que para ser alterada (e somos todos falíveis) precisa ser contraposta com novas fontes primárias, novos autores, ou pelo menos um conhecimento produzido com os cuidados que a história oral propõe.

Não tive fôlego para citar os trabalhos que o Carlos Seth e outros estudiosos estão publicando atualmente, com base em análise de periódicos franceses e livros da época, coisa que ficou mais fácil com a digitalização e a internet.

7.1.20

ESPIRITISMO E TOTALITARISMO: HISTÓRIA DO ESPIRITISMO NA HUNGRIA


Júlia Gyimesi, psicóloga húngara

Recentemente a psicóloga Júlia Gyimesi publicou um artigo em língua inglesa no qual faz uma síntese de seus estudos de história da psicologia e do espiritismo em seu país: a Hungria.

Pode parecer preciosismo estudar a história do espiritismo na Hungria, mas a trajetória que a autora nos apresenta tem muitas similaridades com a do espiritismo no Brasil, e põe em questão algumas afirmações que autores da antropologia francesa atribuem ao espiritismo com relação à cultura brasileira.

O espiritismo na Hungria

Gyimesi nos mostra que o espiritismo chegou à Hungria na década de 1860. Ele teve por iniciadores, o médico János Gárdos, o médico Adolph Grünhut e a baronesa Adelma Vay.

Adelma era católica, avessa ao espiritismo por questões religiosas, mas desenvolveu uma enxaqueca e procurou o Dr. Grünhut, que sugeriu que ela desenvolvesse a escrita automática. Adelma começou a psicografar o espírito Tamás, que promete deixa-la livre de sintomas. Ela desenvolve a faculdade, e Julia narra um caso em que ela diagnostica e prescreve tratamento correto para um paciente de seu médico. Rompendo com a igreja católica, que não aceita uma médium entre seus adeptos, em 1869 ela publica o livro “Espírito, Poder e Matéria”.


Adelma Vay

Grünhut irá ser um dos fundadores da Associação dos Investigadores Espíritas de Budapeste, com o seguinte objetivo:

“Pesquisar os fenômenos das revelações espirituais e examiná-las à luz das ciências éticas, históricas, psicológicas e físicas. Seu propósito é examinar a doutrina do espiritismo e provar a ressurreição pessoal da psique humana /espírito/ após a morte do corpo; seu objetivo indicado é a perfeição moral dos seres humanos”. (p. 7)

A principal influência teórica desse grupo é a obra de Allan Kardec. Júlia explica que o espiritismo húngaro acabou tendo uma grande influência religiosa e moral, mais que científica. A associação fala em “espiritismo evangélico” e considera seu objetivo primário “o autodesenvolvimento em uma fé cristã unificada, seguindo os ensinamentos do Cristo”. (p. 8)

As duas primeiras revistas da associação foram publicadas em alemão. A primeira se chamava “Reflexões sobre o mundo espiritual” (1873-1876) e a tradução da segunda parece ser “Folha da reforma” (1878-1880). O conteúdo desses periódicos era composto principalmente de comentários de passagens evangélicas, pelos espíritos dos evangelistas e de Paulo de Tarso, se entendi bem o texto.

A década de 1880 trouxe estudos experimentais com Adelma Vay, feitas pelo Barão Von Hellenbach.
Na década de 1890, a Associação publicou a primeira revista em húngaro, cuja tradução do título seria “Luz Celestial”. O jornalista responsável era Titusz Tóvölgyi, a revista foi publicada entre 1898 e 1944 e seu conteúdo era composto de mensagens mediúnicas e artigos teóricos.

Com o fim da segunda guerra mundial e a influência soviética na Hungria, os espíritas, que lutavam com diferenças internas no grupo, começaram a sofrer restrições do regime comunista e, em 1949, tiveram sua sede desapropriada pelo Ministério do Interior (ou de Assuntos Internos) húngaro.

O espiritismo entre o Brasil, a Península Ibérica, a França e a Hungria

Ao acompanhar a linha histórica entre a Hungria e o Brasil, a primeira semelhança que encontramos é a influência do pensamento de Allan Kardec nos primeiros grupos. O mesmo aconteceu na França e na Península Ibérica.

Ao contrário do que afirmam alguns autores da antropologia francesa e brasileira, a influência do cristianismo estudado pelo espiritismo, está em todos esses lugares. Como vimos na biografia de Allan Kardec, a moral cristã, independente da leitura católica ou protestante, era vista como a referência ética de todas essas sociedades. A ética cristã era estudada na França como a referência ética da formação dos cidadãos, mesmo após a revolução francesa. “O evangelho segundo o espiritismo” possivelmente influenciou todos os espíritas que estudaram os livros de Allan Kardec.
Esse texto nos traz novas luzes sobre o desenvolvimento do espiritismo na Europa. A Hungria também sofreu influência do período experimental, e possivelmente dos estudos ingleses e franceses das décadas de 1880-1890. Esta influência, contudo, se justapôs a um movimento já existente, com influência doutrinária kardequiana, o que significa um interesse pelo estudo dos evangelhos. 

Possivelmente houve algum estranhamento interno dos interesses, mas não algo que justificasse uma autofagia do movimento espírita europeu.

A outra questão que o texto nos traz é a relação do espiritismo com os regimes totalitários. Na península ibérica, a história do espiritismo começa em franco conflito com a influência da igreja na política. A queima de livros espíritas em Barcelona, sob as ordens de um bispo, é apenas um dos incidentes do movimento com o governo espanhol. A desapropriação de imóveis aconteceu em Portugal e na Espanha, e agora vemos o regime comunista húngaro proceder da mesma forma. Externas ao movimento espírita, surgiram pressões de governos, especialmente no campo ideológico.

O pensamento espírita, ao não se alinhar com o fascismo nem com o comunismo, em regimes de exceção, tornou-se um incômodo relativamente fácil de ser eliminado. Toma-se o patrimônio e, no caso Ibérico, proíbem-se as reuniões. Júlia Gyimesi não se aprofunda nas relações entre o governo e os espírita húngaros, mas seria bem útil à compreensão da história do movimento espírita europeu.
No caso francês, temos três eventos importantes. O ruidoso caso do “processo dos espíritas”, que foi além da punição de um suposto médium que possivelmente produzia fraudes, a rejeição sumária do meio acadêmico ao pensamento e evidências espíritas, e, por fim falta ainda entender melhor o papel da ocupação nazista durante a segunda guerra mundial no movimento espírita. Houve retirada de documentos, como dizem de oitiva os amigos de Canuto Abreu? 

Quanto às semelhanças, temos o catolicismo em todos esses países, o que deve ter facilitado a aceitação de trabalhos como “O evangelho segundo o espiritismo” e a consequente valorização do estudo dos textos evangélicos. Temos também um periódico húngaro com a ideia de reforma, em seu título, assim como o Reformador, da Federação Espírita Brasileira, não sei se com o mesmo intuito (o das reformas do homem e da sociedade?).

O aspecto religioso e cristão do espiritismo não é uma invenção brasileira. O espiritismo nasceu cristão na obra kardequiana, e se não se manteve assim na Europa, além dos conflitos internos do movimento espírita, há um fator ligado à política europeia e aos conflitos ideológicos que ainda não se encontra devidamente esclarecido.

Fonte Bibliogáfica

GYIMESI, Júlia. Between religion and science: spiritualism, science and early psychology in Hungary. International psychology, practice and research. 2014, v. 5, p. 1-23.


18.2.18

TRAJETÓRIA DA "SOCIEDADE ANÔNIMA" SEGUNDO SIMONI PRIVATO - SÉC. XIX




Estou concluindo a leitura do livro "El Legado de Kardec" da brasileira Simoni Privato Goidanich, que será objeto de um seminário em São Paulo organizado pela USE-SP e parceiros, com o lançamento do livro em português.

Confesso que me interessei mais com as descrições dos acontecimentos pós desencarnação de Allan Kardec ocorridos no movimento espírita francês, que pela discussão sobre quem fez as alterações da quinta edição de "A Gênese".

As leituras que Simoni fez da Revue Spirite pós 1869 (desencarnação de Kardec) e da revista "Le Spiritisme", nos deu mais informações sobre as tensões que existiram entre a Sociedade Anônima, presidida por Pierre Gaëtan Leymarie, que se entendia "progressista" e tinha os direitos autorais de publicação da Revue Spirite, e o grupo que se formou em torno dos Delanne e que veio a criar a revista Le Spiritisme e a União Espírita Francesa, em 1882, que pode ser chamado de "Kardecista" ou "conservador".

Por "progressista" se entende que Leymarie usava a posição de Kardec que disse claramente que "o espiritismo acompanha o progresso das ciências" para justificar a aproximação com a teosofia, que ele considerava ser uma ciência, mas que se tratava de uma síntese pessoal de doutrinas orientais. Ele também permitiu uma associação da Sociedade Anônima com J. Guérin, que podemos considerar como divulgador das obras de Roustaing, e que se serviu de uma espécie de parceria com a sociedade para seu objetivo.

Para entender a Sociedade Anônima, temos que considerar as seguintes datas:

3 jul 1869 - É formada a "Sociedade Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo" (p. 130)

Simoni percebeu bem, que o nome Sociedade Anônima está associado à criação de uma instituição comercial, que possibilitava obtenção de lucro e remuneração de seus diretores, e isso foi uma espécie de "ponto fraco" que influenciou futuras decisões, pelo menos polêmicas.

1 jun 1878 - A sede da Sociedade Anônima se muda para uma área nobre de Paris (Palais Royal), junto com a livraria, oficina e fundando uma sala de leitura, biblioteca e salão de recepção. Com a mudança, a livraria perdeu o nome espírita e se tornou "Livraria de Ciências Psicológicas" (p. 198)

1878 - Criação da Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, vinculada à Sociedade Anônima.(Isso merece ser analisado em comparação com o que aconteceu no futuro, quando Jean Meyer funda, em paralelo, a "Casa dos Espíritas" e o "Instituto Metapsíquico Internacional") (p. 198)

5 de março de 1878 - Leymarie envia uma carta ao capitão Mendy na qual considera Roustaing, Madame Collignon e todos os que admiram os mesmos como frutos secos. (Evidência de que Leymarie não era roustanista) (p. 232)

1879 - Desencarnação de Roustaing, que deixou um legado de 40 mil francos para Jean Guérin traduzir e imprimir sua obra (p. 233)

Abril de 1879 - Guérin se aproximou da Sociedade Anônima e tornou-se um de seus acionistas

1879 - Guérin doou, com o apoio da Revue Spirite, um exemplar da obra de Roustaing para cada grupo espírita francês ou do exterior, interessado nela. (p. 234)

1882 - Guérin, que tinha 21 ações da Sociedade Anônima, propõe transferi-la para a propriedade  de um imóvel em Bordeaux de 2500 metros quadrados, mas pede em troca 216 ações. A proposta é aprovada em assembléia em 24 de julho de 1882. O capital social aumenta e é dividido em 300 partes (não sei dizer quantas ações) (p. 235)

Esta aproximação da Sociedade Anônima com Jean Guérin não foi bem vista por um grande número de espíritas franceses. Um movimento de oposição à Sociedade Anônima começou a se esboçar.

Amélie Boudet foi procurada pelos Delanne e consultada para presidir a nova organização, mas recusou (p. 256) 

4 set. 1882 - Fez-se uma reunião na sede da Sociedade Anônima para fundar a União Espírita Francesa. (p. 256)

18 nov, 1882 - Uma assembleia com 150 pessoas aprovou por unanimidade o projeto de estatutos da USF, apresentada por uma comissão, mas os presentes (e Delanne entre eles) julgaram que a assembleia não era representativa dos espíritas franceses. (p. 257)

(??) Vautier proíbe que os formadores da nova sociedade se reúnam na Sociedade Anônima. Ele e Leymarie se opõem à fundação da USF (p. 258)

24 dez 1882 - Uma assembleia de 400 pessoas no grande salão de La Redoute, sala Jean-Jacques Rousseau, fundaram a União Espírita Francesa (USF, sigla em francês) e a revista "O espiritismo". Denis participou desta assembleia e discursou em favor da criação da USF. (p. 259 e seguintes)

A direção da USF era voluntária (não remunerada) ou ad honorem (p. 262) Os membros pagavam seis francos anuais e quatro francos anuais para assinar O Espiritismo, que era um valor menor que a Revue Spirite. A prestação de contas era anual e publicada na revista. (p. 265)

1888 - A Sociedade Anônima muda seu nome para "Sociedade da Livraria Espírita fundada por Allan Kardec" (p. 413)

1893 - A corte de Bordeaux condena a Socidade Anônima a restituir aos filhos de Jean Guérin a totalidade dos 220 mil francos que ele havia deixado para essa organização . (p. 412)

Os conflitos a entre a Sociedade Anônima e a União Espírita Francesa tiveram impacto aqui no Brasil. A tentativa de se fundar órgãos centrais para o espiritismo no Brasil são de época semelhante (segundo Canuto Abreu) e são citadas pelos tradutores de A Gênese da Sociedade Acadêmica "Deus, Cristo e Caridade", em 1882, que como já mostramos antes, apoiou a ideia de uma União Espírita Universal.

Espero ter fôlego para fazer um paralelo entre o movimento francês desta época e o movimento brasileiro.

Postscriptum: Há alguns dias, um grupo de espíritas publicou um manifesto intitulando-se progressistas. Escrevo este para deixar claro que ao usar o termo neste texto, para descrever a posição de Leymarie, não fiz qualquer referência ou associação ao manifesto ou abaixo-assinado. 

8.3.17

UMA HISTÓRIA DE AMÉLIE GABRIELLE BOUDET




Ao contrário do livro "Em nome de Kardec", fui obrigado a ler "Madame Kardec: a história que o tempo quase apagou" em migalhas. O texto de Adriano continua leve de se ler e agradável. Ele transforma a narrativa em uma espécie de seriado de suspense, no qual cada capítulo é uma história.

Conhecemos mais de Allan Kardec que de sua esposa, em função, talvez, do livro "Obras Póstumas" e pelo acesso à Revista Espírita. Obviamente a visibilidade do escritor é muito maior que a de seu editor ou revisor, o que é uma das primeiras surpresas do livro. Amélie participou ativamente de toda a obra kardequiana, revendo e relendo para o marido.

Sua história como mulher francesa no século XIX mostra que ela foi muito além do esperado pelas convenções sociais da época. Após a desencarnação de Rivail, ela se tornou (se é que já não era) administradora dos bens do casal, que não eram desprezíveis, em função de heranças recebidas das famílias.

Seu compromisso com o trabalho do marido e seu tirocínio quanto às decisões que os homens das instituições criadas para dar continuidade ao trabalho de Kardec são pacientemente recuperados por Calsone. Uma das principais fontes usadas são os escritos de Berthe Fropo, amiga de Amélia. Ela coloca no papel sua visão sobre as decisões da Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, que, salvo engano, foi fruto de uma transformação da Sociedade para a continuação das obras de Allan Kardec.

Do ponto de vista da história, Calsone tenta mostrar, sempre que possível, a visão dos dois lados, mas não esconde sua simpatia por Berthe e Amélie. Sei por experiência própria que quando há conflito, as posições se polarizam, e mesmo quem tem razão, costuma exorbitar em algumas situações.

Calsone faz uma releitura do episódio do Processo dos Espíritas, e atribui aos interesses comerciais de Leymarie, sua associação inadvertida com o "médium" farsante, que produzia fotografias espíritas. Na medida em que se vai lendo, vê-se que Leymarie não tinha a formação necessária para entender o alcance do trabalho de Kardec. Entendendo o espiritismo mais como movimento a ser tornado público que como doutrina filosófica, sem o mínimo conhecimento das ciências, ele vai fazendo associações com Roustainguistas (Guérin), Teosofistas (Blavastsky) e outros espiritualismos, não importa seu método de desenvolvimento da teoria, nem suas contradições com o exposto por Kardec em seu trabalho. Não sei se exagero, mas Calsone parece perceber o efeito dos títulos que vão sendo concedidos a Leymarie, e de sua indiferença ante a adoção de adornos, como bandeiras cheias de imagens com significados simbólicos de Guérin. 

Tudo isso não passou despercebido aos espíritas com melhor formação, como Delanne e Denis, que se dispuseram à criação do órgão "Le Espiritisme" e da "União Espírita Francesa". Calsone mostra com perfeição que a criação de uma nova instituição espírita não foi bem vista pelos membros da Sociedade, muito menos a comercialização de um novo órgão de divulgação, visto como concorrente à Revue.

Na leitura do livro, entendi melhor o significado do apoio que a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, aqui do Brasil, deu à "União Espírita Universal" (elemento pré-textual de A Gênese, traduzida em 1882), bem como dos conflitos e divisões que foram descritos por Canuto Abreu no movimento espírita do Rio de Janeiro no seu livro "Bezerra de Menezes: subsídios para a história do espiritismo no Brasil até o ano de 1895". 

Não vou falar sobre os pais e a infância de Amélie, o processo de herança, sobre as acusações de destruição de documentos, nem sobre a sucessão de Leymarie e os processos judiciários que afetaram o movimento espírita profundamente. Isso fica para o leitor interessado, já que não quero ser acusado de fazer "spoiler"...

Livro: Madame Kardec: a história que o tempo quase apagou
Autor: Adriano Calsone
Editora: Vivaluz
282 páginas

13.5.16

COMO SE DEU A APROXIMAÇÃO, NA FRANÇA, ENTRE ESPÍRITAS E TEOSOFISTAS?



Acabo de ler "de um só fôlego" o livro acima escrito por Adriano Calsone. Conheci o autor no último encontro da Liga de Pesquisadores do Espiritismo, quando ele foi convidado a lançar seu trabalho e apresentá-lo rapidamente para nós.

Adriano é formado em Comunicação Social, com pós graduação em mídias digitais, o que, de certa forma, explica o texto. É uma narrativa que flui aos nossos olhos, fácil de ler, com letras grandes, como convém às pessoas que como eu, já precisam do auxílio de óculos para ler. O projeto gráfico é agradável e criativo. As citações aparecem com letras diferenciadas, mas dão continuidade ao texto, fluem, em vez de apenas servirem como uma espécie de prova do que foi afirmado antes. Infelizmente, Calsone não faz as citações completas, para a tristeza dos estudiosos do espiritismo, que gostam de rever as fontes. Eles terão mais trabalho...

O livro assusta a um leitor espírita, conhecedor de Kardec, porque trata da Teosofia de Mme. Blavatsky, Coronel Olcott e Annie Besant, mas, curiosamente, como ela ganhou as colunas da Revue Spirite no século XIX, após a desencarnação de Allan Kardec. É, portanto, uma recuperação histórica, sob a ótica do autor do livro, de uma época do movimento espírita, pouco conhecida por nós, espíritas brasileiros, seja pela dificuldade de acesso à Revista Espírita em língua portuguesa após 1869 (ano em que desencarnou Kardec), seja pela escassez de trabalhos históricos desta época.

O texto faz uma retrospectiva da história controversa de Mme. Blavatsky, embora não mencione a pesquisa sobre sua mediunidade feita pelos estudiosos da American Society for Psychical Research, que tanta reação causaram aos adeptos da Teosofia.

O que se vê no livro foi uma aproximação de Pierre-Gaëtan Leymarie aos fundadores da doutrina teosófica à época em Blavatsky vivia na França. Ele parece tê-la percebido como médium e ter-se deixado levar pelas semelhanças de suas ideias com as propostas pela Doutrina Espírita, sem atentar muito para as diferenças. Talvez ele tenha se inspirado em uma prática de Kardec na Revue, que dá notícias de semelhanças e diferenças de outras formas de pensamento que fazem alguma fronteira com o espiritismo, como o fez com o druidismo, o islamismo e similares.

Calsone recuperou e deixou uma lista ao final do livro dos 50 artigos publicados pela Revista Espírita que tratam da Teosofia, seja de divulgação da mesma por seus profitentes, seja de crítica dos espíritas franceses que aos poucos vão se apercebendo das diferenças.

Blavatsky chega a tentar modificar a linha editoral da Revista, criticando que ela seja um veículo de discussão e informação do espiritismo, para tornar-se uma espécie de revista de variedades sobre doutrinas espiritualistas, ou seja, que permita ser usada para a divulgação da teosofia, vista por sua fundadora como um avanço do pensamento espírita. Os franceses, contudo, perceberam as diferenças metodológicas entre o trabalho originado na obra de Kardec para a construção do pensamento espírita e o da teosofia, que se fiava apenas na seriedade dos seus médiuns, na milenaridade do pensamento oriental e na autoridade de Helena como leitora, ou melhor, releitora e autora de uma nova contribuição ao espiritualismo.

Creio que Calsone tenta escrever um texto que prenda espíritas e teosofistas, e faz um esforço hercúleo para "afastar-se de seu objeto de estudo" e relatar os eventos como aconteceram, interferindo o mínimo possível com seu juízo de valor. Isso causou-me a impressão de que o texto flutua entre a teosofia e o espiritismo, sem deixar clara qual é a filiação do autor. Calsone é um egresso da teosofia que voltou-se ao movimento espírita ou um espírita que fez um esforço de apreensão da teosofia para relatar um pedaço da história do nosso movimento na Europa? Creio que este mistério só ele mesmo pode resolver.

Título: Em nome de Kardec
Autor: Adriano Calsone
Editora: Vivaluz Editora
282 páginas
2015 - 1a. edição

Post Scriptum

Tive a satisfação de receber o texto abaixo do autor do livro, que explicou a questão que levantei.

"Jáder, amigo. Agradeço a iniciativa da resenha literária, atitude importante à cultura espírita. Infelizmente, a crítica contemporânea como análise conscienciosa é ação cada vez menos praticada em nosso meio literário espírita. Obrigado!

Sobre a minha filiação, ao contrário da curiosa trajetória do professor Herculano Pires, que jovem passou pela Teosofia para depois tornar-se espiritista, conheci o Espiritismo na adolescência por meio dos cursos da Federação Espírita do Estado de São Paulo e, desde então, permaneço espírita sem mistério. Portanto, não sou egresso do Teosofismo. Na introdução de nosso livro, faço lembrar que “antes de começarmos a escrever esta obra, mal sabíamos o que era a Teosofia, embora ainda não saibamos exatamente o que ela possa significar, já que nos pareceu ser mesmo uma doutrina secreta – fechada e reservada a poucos”. O que me desagradou ao estudar esta doutrina secreta do século 19 foi, justamente, o seu caráter secreto por estatuto e o seu processo seletivo por aptidão mediúnica, condições que acenderam uma aura de doutrina seleta, reservada para poucos.

De fato, o nosso estudo “flutua entre a teosofia e o espiritismo”. Isso aconteceu naturalmente, em virtude do enorme interesse que temos pelo entendimento das relações interpessoais no pós-Kardec francês. E em nosso próximo trabalho, a biografia da Madame Kardec, não será diferente: também flutuaremos para as relações interpessoais... Por conta disso, descemos até o chão das “fábricas” (Teosofismo e Espiritismo) para conhecer a vida e os costumes de seus “funcionários”, o que pode justificar este afastamento do objeto de estudo, mas sem relação alguma com questões de filiação.

Nas edições da Revista Espírita observamos que Allan Kardec, como de hábito, estudou e publicou opiniões sobre as diversas crenças ou escolas espiritualistas de sua época. Na Revue de outubro de 1868, por exemplo, há um artigo elogioso sobre a “Doutrina de Lau-Tse”, em que o mestre fala nas últimas linhas do “traço de união para a aliança fraterna das crenças”, “resultado que o Espiritismo deve chegar”. Esse objetivo fraternal das crenças unidas, embora utópico, esteve para o mestre sempre pautado na necessidade do estudo e do respeito. Foi o que almejamos em nossas pesquisas publicadas no Em nome de Kardec: estudo e respeito à contribuição do próximo.

Pelo pouco que estudamos sobre a Teosofia no Espiritismo, tivemos a oportunidade de conhecer e estimar as iniciativas de seus fundadores (Blavatsky e Olcott) e de seus continuadores (Besant, Steiner e Leadbeater, dentre outros). No caso particular da teósofa Anne Besant, que dedicamos um capítulo no livro, é inegável a importância de seu legado espiritualista, especialmente o seu trabalho intelectual e humanitário em prol da sociedade indiana. Neste aspecto, flanamos para ressaltar a contribuição social da Teosofia (também como doutrina que negou o materialismo), que pode, obviamente, servir como exemplo salutar à nossa militância espírita." 

Adriano Calsone

28.1.14

UM GRUPO ESPÍRITA EM OURO PRETO NO FINAL DO SÉCULO XIX

Rua da Escadinha - Ouro Preto-MG. Ao fundo a Basílica do Pilar.

Recebi do Chrystiann Lavarini alguns números interessantes, acessáveis no site do Arquivo Público Mineiro, de um periódico espírita denominado A Caridade. Trata-se de um tabloide publicado pelo Grupo Spirita Antonio de Padua, que funcionava na casa quatro da rua da escadinha, em Ouro Preto-MG.

Os temas tratados são diversos, mas a questão da relação com a Igreja Católica, base da cultura dominante, é marcada. Os autores discorrem sobre a reencarnação, sobre o pensamento de Kardec, sobre mediunidade de curas e traduzem trechos da Revista Espírita (a francesa, publicada inicialmente por Kardec), entre outros assuntos, inclusive não ligados ao espiritismo. 

Chamou-me a atenção ser um periódico de 1898, período em que a capital do estado estava se mudando para Belo Horizonte, que foi oficialmente inaugurada em dezembro de 1897. Eu desconhecia grupos espíritas oficiais nesta época, na região da capital, embora no início da próxima década (1902), houvesse a fundação da União Espírita de Belo Horizonte, que se tornou Federação Espírita Mineira em 1908.

Apesar de histórico, o movimento espírita de Ouro Preto estagnar-se-ia e a nova capital mineira continuaria a ser terra fértil para a criação de novos grupos e sociedades espíritas. Ignoro números oficiais mas conheço pessoalmente apenas um grupo espírita na cidade, contra centenas em BH, passado pouco mais de um século.

Felipe Vieira Batista Silva escreveu para a ANPUH, um artigo analisando um dos quatro números disponíveis do jornal A Caridade. http://www.encontro2012.mg.anpuh.org/resources/anais/24/1340733225_ARQUIVO_AMPUH2012-Felipe.pdf 

Influenciado pelas ideias de Bourdieu, Felipe se detém na análise das relações de poder entre o espiritismo nascente e o catolicismo majoritário. Seus olhos se detém no texto que transcrevo abaixo, que percebe como um pedido real de intervenção do clero e da polícia a práticas supersticiosas toleradas pela igreja, mas vejo de forma diferente.

À época, com a publicação do novo código civil, "o espiritismo, a magia e seus sortilégios, o uso de talismãs e cartomancias...." foi criminalizado. O autor de "A Caridade", possivelmente se ressente de denúncias do clero, quando escreve:

"Entretanto os padres, que tanto mal dizem do Spiritismo, admittem e toleram semelhantes praticas abusivas, que são exercidas por mulheres, que vão todos os dias ao confissionario. E’ necessário, pois, que a sociedade se acautele e promova os meios afim de exterminar do seio mais esse cancro do fanatismo. Será melhor que os confessores pela influencia que exercem sobra as suas confessadas, as aconselhem, prohibindo mesmo a pratica desses responsos e sortilégios, tão condemnados pelo Divino Mestre. 

Tambem poderá vir em nosso auxilio a policia, syndicando desses factos que tantos males já tem causado a sociedade. 

Por nossa parte havemos de combater essas supertiçoes e sortilégios: e se não tiverem um paradeiro voltaremos mais circumnstanciadamente ao caso (A CARIDADE, 1898, n.  p.4). 

Felipe entende que é uma luta de poder entre religiões, uma tentando deslegitimar a outra, e não uma "discussão defensiva dos princípios que regem as práticas católicas e/ou espíritas". Não me parece que isto está acontecendo neste trecho, que apresenta uma ironia. O autor do artigo em A Caridade denuncia de forma sutil as incoerências e abusos do uso da lei do código civil, que deve ter sido utilizada pelas autoridades eclesiásticas, junto à polícia, para a repressão da prática espírita na época. Infelizmente, são necessárias novas fontes para o devido embasamento desta suposição, mas a recuperação do documento pelo Arquivo Público Mineiro e sua disponibilização em meio digital nos traz mais conhecimento da história do espiritismo nas Minas Gerais

Quem quiser ler A Caridade tem acesso direto pelos links abaixo:

http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/jornaisdocs/viewcat.php?cid=20722 
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/jornaisdocs/viewcat.php?cid=20726  
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/jornaisdocs/viewcat.php?cid=20720

2.11.08

4o. ENLIHPE (continuação)


Foto 1: Jáder Sampaio
O primeiro trabalho do ENLIHPE foi intitulado "As Muitas Faces da Intolerância contra o Espiritismo". Sampaio iniciou seu trabalho com a história do Cemitério Espírita de Inhambupe, BA, que foi construído antes do centro espírita da localidade, porque o vigário proibía se enterrassem espíritas no cemitério municipal.

Ele relata as perseguições na França, detalhando o conhecido Processo dos Espíritas, que culminou na prisão de Leymarie, com base na confissão forçada de Buguet sobre fraudes nas fotografias espíritas.
O trabalho vai à Inglaterra e apresenta o processo contra Slade e a criação de um fundo dos espiritualistas ingleses para a defesa de médiuns.
Jáder apresenta os relatos de prisões, perseguições e confiscos nas ditaduras Salazarista e Franquista, em Portugal e Espanha, respectivamente.
O totalitarismo na Europa gerou perseguições a instituições espíritas e espiritualistas, e as teses são documentadas, suas razões especuladas.
No Brasil foram diversas as frentes contra o estabelecimento do Espiritismo. Ainda no Brasil império, Machado de Assis ataca as instituições espíritas através de sua pena. Legisladores tentam proibir o funcionamento dos centros espíritas, depois, no Brasil-República, tenta-se enquadrar os médiuns curadores na categoria de charlatães, proíbe-se o funcionamento de centros espíritas, ficham-se espíritas na ditadura vargas, proíbe-se a prática de receituário mediúnico.
O trabalho mostra a resistência que as federativas espíritas ofereceram ao estado, seja na imprensa, seja respondendo os ataques com livros, seja orientando os centros espíritas, seja cobrando uma posição legal das autoridades, seja no judiciário, fazendo a defesa de médiuns e perseguidos pelas autoridades policiais.
O trabalho aponta que a legitimação do Espiritismo no Brasil não foi pacífica, que a desconstrução do movimento espírita na Europa não foi um fenômeno meramente cultural, mas político, que os órgãos federativos tiveram uma posição fundamental para a sobrevivência do Espiritismo brasileiro e discute duas teses antropológicas: à luz da História, o Espiritismo não é uma doutrina itinerante (Aubrée e Laplantine) e Chico Xavier não teria catolicizado o Espiritismo (Lewgoy), mas o contrário, se considerarmos as fontes espíritas brasileiras anteriores ao médium de Pedro Leopoldo.

Foto 2: Profa. Miriam Hermeto de Sá Motta

No segundo trabalho a Profa. e Doutoranda Míriam Hermeto propõe como preservar a memória espírita através de fontes documentais.

Doutoranda em História pela UFMG, ela inicia seu trabalho distinguindo memória e História e definindo sua disciplina como o "estudo do homem no tempo", alinhada às idéias de Marc Bloch.

Ela discute o papel das fotos, dos documentos primários e de outras fontes que estão nos centros espíritas e não são identificadas como tal por seus membros.

Exemplificando, ela mostra uma foto da fundação do Cenáculo Espírita Thiago Maior, em Belo Horizonte. Ela mostra que a maioria dos fundadores eram homens e brancos (tipo europeu), havia apenas uma mulher e um pardo. Era, portanto, um movimento de elites mineiras, até mesmo pela localização e presença de autoridades no centro nascedouro.

Ela analisa o folheto do lançamento, para o qual foi trazido Chico Xavier. Na capa, encontra-se escrito "Comemoração do Dia dos Mortos" e dentro dele, uma mensagem de Emmanuel convidando os espíritas a evitar este tipo de comemoração, muito comum à época na capital mineira, em decorrência da coerência com os princípios espíritas.

Míriam convidou os membros dos centros espíritas a terem atenção com os documentos que descartam e propôs metodologias de catalogação e identificação de peças que auxiliarão na preservação da memória espírita.

15.6.08

História do Espiritismo é Capa da Revista de História


A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou dois excelentes artigos sobre a história do Espiritismo no Brasil.
O primeiro artigo é de um antropólogo namorador de história, já conhecido e reconhecido pelos seus estudos sobre o Espiritismo, Emerson Giumbelli. Ele ganhou em 97 o segundo lugar nacional do prêmio "Arquivo Nacional de Pesquisa" pelo seu trabalho "O Cuidado dos Mortos".
Giumbelli apresenta no seu artigo o surgimento do Espiritismo no Brasil e suas conexões com a mediunidade receitista. Ele valoriza o papel da assistência social através da mediunidade receitista no Brasil, que se tornou o primeiro grande elo entre os espíritas da elite e o povo (tese que desenvolve a partir do pensamento de Sylvia Damázio). Não sei se esta maxivalorização da mediunidade receitista reflete bem a época, se olharmos o movimento intramuros. Talvez tenha sido um dos eventos que maior visibilidade deu ao Espiritismo Brasileiro na imprensa leiga.
O autor apresenta um velho objeto de seus trabalhos, os episódios dos conflitos entre a sociedade brasileira e o movimento espírita devido ao código penal de 1890.
Depois trata de outros assuntos interessantes: O crescimento das adesões à FEB nas décadas de 20 a 40 e o papel de Chico Xavier na consolidação do Espiritismo no Brasil.
Ele propõe uma conexão temporal entre o lançamento do conhecido "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", a escolha de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a inauguração da estátua do Cristo Redentor e a constituição da Umbanda como movimento e primeira religião genuinamente brasileira. Seriam o médium de Pedro Leopoldo e o autor espiritual influenciados por um espírito de época no qual se tentava não apenas na esfera religiosa, mas também na política e cultural, uma reconstrução da identidade nacional?
Outra contribuição original do autor é a passagem que ele faz da mediunidade receitista no movimento espírita pela desobsessão e tratamento através de passes. É uma questão instigante, mal desenvolvida, mas que me parece ter outros contornos, inclusive o próprio surgimento da Umbanda e os conflitos internos do movimento devido às influências orientalistas. Cabe lembrar que a desobsessão é prática desde os tempos de Kardec.
O segundo artigo é um retrato vivo da reação dos médicos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ao movimento espírita. O Espiritismo é tomado como uma questão de saúde pública (pasmem!) e uma das teses aprovadas defende que ele deve ser combatido da mesma forma que se fazia "à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes, à tuberculos, à lepra e às verminoses". A influência naturalista de Haeckel e dos Higienistas.
Juliano Moreira outro autor influente nesta escola, com formação alemã, propôs a criação de "semanas antiespíritas" que mobilizassem a sociedade contra o "mal".
Um resgate importante do segundo artigo de Arthur Isaia nesta revista é a tese (recusada) do desconhecido (por nós, espíritas) Brasílio Marcondes Machado. Considerada corajosa, ele se opôs ao pensamento do establisment da FMRJ, e defende posições espíritas com base no pensamento de Bezerra de Menezes, e voltando-se contra Franco da Rocha, que pensava poder conseguir explicar os fenômenos espíritas com a Psicanálise Freudiana, reduzindo-os ao inconsciente. Machado usa Flammarion para opor-se a Grasset, e acrescenta a noção de "superconsciente", que posteriormente será endossada por André Luiz em sua obra. Possivelmente Machado teria sido influenciado pela obra de Gustave Geley, que, anteriormente a ele, já defendia a existência de uma "subconsciência superior".
As matérias estão ilustradas com fotos muito significativas, são uma bela contribuição ao pensamento espírita e à sociedade brasileira.

11.3.08

QUAIS FORAM AS CONCLUSÕES DO CONGRESSO DE MOCIDADES ESPÍRITAS DE 1948?

Foto 1: Plenária do 1o. Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil realizado no Rio de Janeiro em 1948. Lins de Vasconcellos encontra-se de pé, ao microfone. Fonte: Anuário Histórico Espírita. Eduardo Carvalho Monteiro, Editora Madras/USE-SP, 2003. p. 25.


Muitos jovens no Brasil sabem que foi realizado o Congresso de Mocidades Espíritas em 1948, organizado por Leopoldo Machado. Sabe-se também que houve a participação de jovens de todo o Brasil. Clóvis Ramos estima que havia mais de 200 mocidades espíritas atuantes no Brasil àquela época. Hoje, a grande maioria dos Centros Espíritas se preocupa em manter um grupo de jovens.
Quais foram, contudo, as decisões desse congresso? Que ações ele desencadeou no movimento espírita brasileiro?

1. Criou um conselho consultivo para as mocidades no Brasil, composto de 15 membros entre jovens e adultos, que foram eleitos no congresso.
2. Adotou um programa padrão para as Mocidades, proposto por Leopoldo Machado, a ser adotado pelas Mocidades que não tinham programação de estudos.
3. Recomendou não utilizar o nome juventude, e sim, mocidade, para que não houvesse confusão com os movimentos político-partidários da época.
4. Incentivou os jovens a engajarem-se em campanha nos centros espíritas para que os espíritas encaminhassem seus filhos à evangelização infantil (então chamada de aulas de moral cristã na infância).
5. Recomendou o uso de uniformes ou distintivos a serem usados nas reuniões solenes e festivas.
6. Para que a mocidade pudesse realizar eventos e trazer expositores, além dos gastos usuais, recomendou a criação de um quadro de sócios e realização de festivais de arte espiritualista com venda de ingressos para a formação de uma espécie de fundo.
7. As mocidades deveriam apoiar o Esperanto, ministrando cursos em suas sedes para os interessados.
8. Recomendou a fundação de um Diário Informativo, com seções de cunho moral e propaganda do Espiritismo sob o seu tríplice aspecto. Este órgão seria de âmbito nacional.
9. Sugeriu-se a criação de colônias de férias, preferencialmente junto aos lugares de assistência social, para recreio dos confrades, com renda revertida para as atividades assistenciais.
10. Adotou a Canção da Alegria Cristã (Leopoldo Machado e Oli de Castro) como hino da mocidade espírita do Brasil.
11. Recomendou a realização de música, teatro, declamação e canto em reuniões e festas sociais (e não nas reuniões de estudo), sempre com finalidade educativo-doutrinárias.
12. Recomendou o tratamento menos cerimonioso e mais íntimo nas conferências e programas festivos em geral (o que na época era entendido como evitar Excelentíssimo Senhor, Vossa Excelência e Vossa Senhoria, por exemplo).

Clóvis Ramos explica que o conselho teve vida efêmera e com a Unificação (Pacto Áureo) adotou-se o termo Departamento das Juventudes da Federação Espírita...

1.3.08

Bezerra de Menezes escreve no Reformador em 1895


Canuto Abreu transcreveu e comentou o editorial do Reformador escrito por Bezerra em 1895, período em que os espíritas se dividiam por questões de interpretação do caráter do Espiritismo. O tema dá o que pensar nos dias de hoje, por esta razão, passo a transcrever o editorial do então Presidente da FEB.

"É para lastimar que, tendo-se difundido admiravelmente no Brasil as idéias espíritas de modo a não haver ninguém que não as aceite, seja a sua propaganda feita sem ordem nem sistema.

Nos Estados há grupos dispersos... Na Capital as associações estão desligadas... Empregam-se, nos Estados principalmente, métodos inconvenientes, tudo à falta de unidade de vistas... Cada grupo tem sua orientação...

Tudo progride e parece-nos que já é tempo de entrar o Espiritismo, entre nós, em nova fase analítica de que deverá subir à sintética, que unificará o Espiritismo no Brasil com o de todo o mundo.

Para passarmos do estado de confusão, em que nos achamos, ao de ordem bem regulada, para chegarmos ao de sistema que será o último trabalho humano, faz-se mister uma séria e bem compreendida organização.

Sem harmonia de ação, sem o concurso harmônico dos grupos entre si, o Espiritismo não fará mais progresso no Brasil, não passará de uma crença sem base, variante de indivíduo a indivíduo.

A união faz a força. Organização e organização, é a palavra que parte de todos os lábios, é a idéia que paira em todos os pensamentos, porque é chegada a hora de passarmos da fase sincrética à fase analítica, como acima indicamos.

Aceitamos, pois, de boa vontade, como nos cumpre, as inspirações que nos dão os prepostos do Senhor, incumbidos de desenvolver o Espiritismo no Brasil. Organizemos.

Para organizarmos é preciso, primo, ligar em uma grande falange os trabalhadores: segundo, regularizar metodicamente o seu trabalho. No próximo número daremos o plano de organização."

(Extraído do livro Bezerra de Menezes: Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil até o ano de 1895. Escrito por Silvino Canuto Abreu. Edições FEESP)