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29.6.20

UM DIÁLOGO SOBRE CIÊNCIA E ESPIRITISMO





Quatro professores universitários com formações diferentes tratam da questão científica do espiritismo. Afinal, o que era considerado ciência na época de Kardec?  O espiritismo pode ser considerado ciência? Qual era a influência do positivismo na época de Allan Kardec? Por que Allan Kardec afirmou que o espiritismo e a ciência caminham lado a lado? Existem pesquisas sobre temas espíritas em curso?


Um diálogo entre Sílvio Chibeni, Marco Milani, Alexandre Fontes da Fonseca e Jáder Sampaio a partir de um convite da União das Sociedades Espíritas de São Paulo - Regional Campinas.


A partir dessas questões e das posições dos convidados, inicia-se um diálogo com os participantes do evento, que lançam luz em diversos pontos de ligação da ciência e das ciências com o espiritismo. 

Confiram!

27.4.20

JAPHET, ROUSTAING E KARDEC



A atriz Julia Konrad caracterizada como Madame Japhet


Recebi um comentário imensamente interessante, que possibilita muitas análises, feito pelo leitor Paulo Sérgio Fonseca Antunes. Ele se refere à publicação “Curiosidades: Allan Kardec e Madame Japhet”. https://espiritismocomentado.blogspot.com/2019/05/curiosidades-allan-kardec-e-madame.html

É o que está abaixo:

Fala-se que o nome Allan Kardec foi revelado ao Professor Rivail pelo espírito Zéfiro (Zephir), em reunião mediúnica na residência das irmãs Baudin, utilizando-se para isto a cesta com um lápis (roque). Na ocasião, o Professor tomou conhecimento de que Allan Kardec foi o nome dele em uma milenar reencarnação entre os druidas. Sabe-se que a primeira edição de O livro dos Espíritos continha pouco mais de 400 perguntas, e que na segunda edição passou a ter mais de 1000 perguntas, e que, a família Baudin saiu de Paris ainda no segundo semestre de 1857, o que, provavelmente, deixou a outra médium (sonâmbula profissional) sobrecarregada. Médiuns profissionais existem até nos dias de hoje. Enquanto a codificação do Espiritismo ainda não havia acontecido, quem fazia ideia de que isto seria utilizar erradamente este dom? Ao que parece, a Mademoiselle Ruth Celline Japhet colaborou gratuitamente sim no trabalho de Allan Kardec, mas, é possível que desejasse ter seu nome divulgado no livro para fazer um marketing pessoal. Fala-se que após o desencarne do Mestre de Lyon (1869), Jean Baptiste Roustaing em conluio ganancioso com Pierre Gaetan Leymarie destruíram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, criada por Allan Kardec em janeiro de 1858. Sendo assim, não é de se estranhar que a médium Ruth Celline Japhet, com quem Roustaing operava profissionalmente a mediunidade há mais de dez anos, tivesse atitudes mais nobres. Fala-se que Chico Xavier foi reencarnação de Ruth Celine Japhet, a qual, teria desencarnado nos anos 1880. Considero pouco provável essa afirmação, pois, acho que um espírito não mudaria tanto sua maneira de ser, tendo menos de 30 anos apenas entre duas reencarnações.

Vou discorrer sobre as muitas questões em forma de itens:

1. “Fala-se...” Essa foi a primeira observação que fiz. Para se fazer história, ou mesmo apenas memória, é preciso conhecer a fonte, de preferência a fonte primária. Isso porque cada autor conta a história de um jeito, e tem uma lógica e um conjunto de fontes como base para construção do seu discurso. Tudo o que o Paulo falou, é mais ou menos verdade, mas foi tirado de autores muito diferentes, então ficou uma espécie de “samba do crioulo doido” (perdoem a expressão, não sei se ainda é politicamente correta, mas não tem nenhuma intenção racista ao ser usada).

2. Eu citei como fonte no artigo que originou as dúvidas, um jornal inglês e um texto atribuído a Alexander Aksakof. Todos sabemos que Aksakof não é nenhum especialista em Allan Kardec, e que os lamentos da Madame Japhet criaram uma espécie de “resistência” ou “preconceito” dele com relação ao fundador do espiritismo. Coisas de ser humano!

3. O nome de Allan Kardec foi revelado pelo espírito Zéfiro na casa das Baudin, usando um lápis (roque).

Eu procurei em Obras Póstumas e não encontrei essas informações, embora lá Kardec fale das Baudin e de Zéfiro.

Quem atribui o nome de Roc (e não roque) ao “lápis de pedra com que os espíritos rabiscavam em uma ardósia comum” (p. 98-99) foi Canuto Abreu, no livro “O livro dos espíritos e sua tradição histórica e literária”. Como o título já o disse, o livro não é exclusivamente histórico e Canuto escreveu do que ouviu falar, sem os rigores da metodologia da história oral, ou seja, ele aceita que algumas coisas são imaginárias, lendas, que passaram a ser contadas e recontadas no meio espírita francês, que ele conheceu no início do século 20. Não dá para citar como se fosse uma fonte histórica, portanto. Nesse livro também não encontrei menção à origem do nome de Kardec, apenas uma menção à sua reencarnação no meio dos druidas (p. 99).
Consultei, então um belo trabalho de Eugênio Lara (https://questaoespirita.blogspot.com/2013/08/sobre-o-pseudonimo-de-denizard-rivail.html ) que mostra diversas fontes, mas admitindo a tradição oral e a falta de documentação clara do próprio Kardec. Quem sabe a publicação das cartas de Kardec esclareça essa questão.


Primeira edição de "O livro dos espíritos"

4. A primeira edição de “O Livro dos Espíritos” tinha 400 perguntas e a segunda tinha “mais de mil perguntas”.

Tenho duas traduções da primeira edição de O Livro dos Espíritos. A de Canuto Abreu e a de Evandro Noleto Bezerra. Ambas têm 501 perguntas, fora os elementos pré-textuais e o epílogo.

A edição atualmente publicada de “O livro dos espíritos” tem 1019 perguntas, os elementos pré-textuais e uma conclusão (Não mais epílogo). Consultei duas traduções atuais, a de Evandro Noleto Bezerra (Kindle) e a comemorativa de Guillon Ribeiro.

Sobre as mudanças realizadas por Allan Kardec em “O Livro dos espíritos”, enquanto estava encarnado se pode ler o “O livro dos espíritos: uma análise comparativa entre a 1ª., a 2ª e até a 16ª edições”, de Luis Jorge Lira Neto, no livro “O espiritismo da França ao Brasil: estudos escolhidos.”, publicado pela USE-SP e pela LIHPE.

5. "a família Baudin saiu de Paris ainda no segundo semestre de 1857, o que, provavelmente, deixou a outra médium (sonâmbula profissional) sobrecarregada”

Essa é a menos provável de todas as afirmações até agora. Kardec fala em Obras Póstumas que as duas Baudin se casaram no fim do ano após a publicação de “O Livro dos Espíritos” e que “a família se dispersou” (p. 271). 

Quem auxiliou bastante na revisão de “O Livro dos Espíritos” foi a Mme. Japhet, como publiquei no texto do EC em questão https://espiritismocomentado.blogspot.com/2019/05/curiosidades-allan-kardec-e-madame.html segundo o próprio Allan Kardec. Japhet era sonâmbula profissional, mas trabalhou voluntariamente no livro, e nunca lhe faltaram médiuns. Na página 270 de “Obras póstumas”, 17ª edição, AK fala no concurso de “mais de dez médiuns” no trabalho. Na fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Kardec cita Ermance Dufaux como médium principal (Obras Póstumas, página 295) e uma frequência no local de “15 a 20 pessoas”, ocasionalmente de até 30 pessoas.

6. "Médiuns profissionais existem até nos dias de hoje. Enquanto a codificação do Espiritismo ainda não havia acontecido, quem fazia ideia de que isto seria utilizar erradamente este dom?"

 Com base nas fontes citadas, cabem dois comentários. Primeiro, já citado, que Kardec agradeceu a colaboração voluntária de Mme. Japhet. Outro estudo, que foge ao escopo desse comentário é distinguir e comparar o sonambulismo, em prática em Paris antes do espiritismo, fruto do movimento que o magnetismo animal de Mesmer provocou, da prática mediúnica, talvez existente em Paris sob a influência dos trabalhos de Emmanuel Swedenborg.

7.       Ao que parece, a Mademoiselle Ruth Celline Japhet colaborou gratuitamente sim no trabalho de Allan Kardec, mas, é possível que desejasse ter seu nome divulgado no livro para fazer um marketing pessoal.

Concordo. Acho bem possível.

Rue de Valois, local da primeira sede da SPEE

8.       Fala-se que após o desencarne do Mestre de Lyon (1869), Jean Baptiste Roustaing em conluio ganancioso com Pierre Gaetan Leymarie destruíram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, criada por Allan Kardec em janeiro de 1858.

Dois autores recentes têm promovido uma releitura da história e da imagem que tínhamos de Pierre-Gaetan Leymarie: Simoni Privato e Adriano Calsone. Eles publicaram respectivamente “O legado de Allan Kardec” e “Em nome de Kardec”.

A ideia de um conluio entre Roustaing e Leymarie não tem base historiográfica. Após a saída da prisão Leymarie se aproximou de diversas instituições não-espíritas: a sociedade teosófica (Privato, p. 223, Calsone p. 55), da pneumatologia universal (Privato, p. 224) e do roustainguismo através de Jean Guérin, divulgador de Roustaing, que ofereceu dinheiro para que a “Sociedade Científica de Estudos Psicológicos”, dirigida por Leymarie instituísse um concurso literário espiritualista (Privato, p. 239). Havia, da parte de Guérin, o interesse de divulgar o roustainguismo, e Leymarie administrava uma empresa em situação econômica frágil.

Não vejo Leymarie, nem como o herói, construído a partir de sua possivelmente injusta prisão em nome do espiritismo, nem como um vilão, que sempre desejou enriquecer a partir do espiritismo, mas como homem frágil, com bons e maus momentos, que tornou-se administrador da Sociedade Anônima, continuadora da obra de Kardec, em 1871. (Privato, cap. 10 e 11). Percebo Leymarie como um sucessor da obra de Kardec sem a formação do mestre, sem conhecimento científico e filosófico. Incapaz de perceber a superioridade da ontologia, da ética e da epistemologia kardequianas, ele foi se encantando com outras doutrinas que surgiam posteriormente, tinham apelo espiritualista e se consideravam superiores. Ele foi permitindo uma espécie de “canto de sereia”, em que era cooptado com o oferecimento de honrarias, cargos e posições institucionais. E foi acreditando que as novas contribuições que chegavam deveriam ser incluídas na Livraria e na Revista Espírita, e que dariam um novo fôlego aos negócios e um avanço à doutrina espírita, o que, na verdade, era retrocesso, porque ela perderia seu caráter racional e empírico, tornando-se um movimento cada vez mais místico e ocultista. A reação às suas decisões infelizes se deu através de espíritas conhecedores de Kardec e capazes de valorizar o caráter filosófico e científico do espiritismo, dentre os quais se destacam Léon Denis e Gabriel Dellane.

Quanto à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o que foi relatado também não é justo. Ela foi transformada em Sociedade Anônima da Caixa Geral do Espiritismo, dando prosseguimento ao Projeto de Allan Kardec de 1868, na casa de Amelie, sua viúva. Esta sociedade foi constituída para dar continuidade à Revista Espírita e “publicar os livros de Allan Kardec e outras obras sobre espiritismo” (Privato, p. 132-133), com administradores remunerados (Privato, p. 138). Cabe informar que Leymarie não era membro das diretorias, nem do conselho supervisor, não tendo sido liderança na mudança da feição da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. De instituição associativa, ela foi transformada em instituição associativa e comercial para que os livros e revistas espíritas pudessem ser editados e comercializados e render recursos para a mesma, dispensando-se a intermediação das editoras até então parceiras.

9.       Sendo assim, não é de se estranhar que a médium Ruth Celline Japhet, com quem Roustaing operava profissionalmente a mediunidade há mais de dez anos, tivesse atitudes mais nobres.

Aqui há um grande equívoco. Japhet não tinha qualquer ligação com J.B.Roustaing. Era uma sonâmbula levada ao transe pelo magnetizador Roustan. Os nomes se parecem, mas são pessoas totalmente distintas, que viviam em lugares distintos.

Arnaldo Rocha


10 "Fala-se que Chico Xavier foi reencarnação de Ruth Celine Japhet, a qual, teria desencarnado nos anos 1880. Considero pouco provável essa afirmação, pois, acho que um espírito não mudaria tanto sua maneira de ser, tendo menos de 30 anos apenas entre duas reencarnações."


Quem afirma que Chico foi a reencarnação de Japhet foi Arnaldo Rocha, viúvo de Meimei (Irma de Castro Rocha) e amigo próximo de Chico Xavier por décadas. A avaliação de Japhet pelo autor foi apressada, em função da confusão Roustan-Roustaing e da questão financeira indevidamente analisada na história. Embora a afirmação de vidas passadas demande sempre evidências sólidas para que não seja mera especulação, fica aberta a possibilidade das duas pessoas serem o mesmo espírito.

Concluindo:

Achei muito corajoso e interessante o Paulo Sérgio compartilhar conosco o que ouviu falar e o que concluiu a partir disso. Todavia, na minha opinião, a questão da história do espiritismo precisa ser discutida a partir da análise de fontes e de autores, o risco de se ficar construindo hipóteses em cima de “ouvir falar” é criar versões sem sustentação e totalmente afastadas do que já se conhece.

Não tenho a pretensão de ter uma “versão verdadeira” da história, mas apenas uma análise fundamentada, que para ser alterada (e somos todos falíveis) precisa ser contraposta com novas fontes primárias, novos autores, ou pelo menos um conhecimento produzido com os cuidados que a história oral propõe.

Não tive fôlego para citar os trabalhos que o Carlos Seth e outros estudiosos estão publicando atualmente, com base em análise de periódicos franceses e livros da época, coisa que ficou mais fácil com a digitalização e a internet.

18.4.20

O ESPIRITISMO É A VERDADE ABSOLUTA?




Jáder Sampaio

Ainda jovem eu assistia a uma palestra de um espírita famoso na capital mineira, cujo nome omitirei, e me recordo de uma afirmação forte que ele fez, e que arrancou interjeições e outras reações emocionais da plateia:

- Eu não vou dizer que o espiritismo é uma verdade! (Silêncio retórico) O espiritismo é A Verdade!

Aquilo ficou na minha mente. Enquanto as pessoas acolhiam com entusiasmo a frase de efeito, eu fiquei em silêncio com o meu mineirês interno, perguntando:

- Uai! será?

Hoje penso que o fundador do espiritismo não faria esse tipo de observação. Quando Kardec começou a estudar os fenômenos espirituais e se propôs a desenvolver um corpo de doutrina baseado nos diálogos com os espíritos, ele definiu o espiritismo da seguinte forma:

“O Espiritismo é uma Ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corpóreo.”[1]  

Isso significa que ele delimitou um objeto de estudo do espiritismo. Por mais ampla que possa ser a abrangência deste objeto, Kardec não “invade” as outras áreas de competência das demais ciências.

Nós, espíritas, continuamos valorizando o saber médico e o psicológico para o tratamento do câncer, por exemplo, embora saibamos a partir da própria medicina que a espiritualidade pode auxiliar a terapêutica médico-psicológica. O espiritismo não invade, ou pelo menos não deveria invadir o domínio da física, embora físicos já tenham estudado temas mediúnicos e formulado hipóteses para a explicação de fenômenos espirituais de efeitos físicos. Chamá-lo de "A Verdade" significa excluir da condição de conhecimento tudo o que não é espiritismo. Em termos lógicos:

O espiritismo é a verdade. (premissa maior)
Medicina (ou astronomia, ou química...) não é o espiritismo. (premissa menor)
Logo: medicina (ou astronomia, ou química...) não é a verdade. (conclusão)

De volta ao argumento inicial, o espiritismo não pode ser verdade absoluta, porque há uma realidade a ser estudada muito mais ampla que a “realidade espiritual”. Ainda que exista uma conexão entre a “realidade espiritual” e a natureza ou “realidade material”, escapa ao espiritismo o conhecimento da natureza em-si. Todos sabemos que ao estudar mais profundamente a matéria, sem hipóteses explicativas transcendentais, o conhecimento aumentou, o que significa dizer que se conhece muito mais sobre a natureza hoje, que há cem ou duzentos anos. A natureza em-si é do domínio de outras áreas do conhecimento, algumas delas muito complexas, ao ponto de demandarem anos e anos de estudo para se poder falar com alguma autoridade sobre algum de seus pontos.

Outro ponto, é que, como ciência, o espiritismo seria um conhecimento progressivo[2]. Como parte das ciências se baseia em teorias construídas a partir de fatos e de fenômenos[3], o surgimento de novos fatos ou fenômenos, ou o conhecimento mais profundo de fatos, fenômenos e teorias já conhecidos, pode propiciar a revisão ou o avanço das teorias. Então não há como se falar em verdades absolutas, porque o que é considerado verdadeiro no tempo X, pode ser revisto no tempo X + Y, com o aumento do conhecimento sobre os fenômenos compreendidos no objeto de estudos da respectiva área de conhecimento.

O que não modificaria no espiritismo? Para Allan Kardec, qualquer afirmação que compõe o corpo de doutrina poderia ser modificada[4]. O que tem acontecido, com o passar dos anos, é que os princípios fundamentais do espiritismo continuam válidos, embora na própria obra de Kardec tenhamos percebido que houve evolução na compreensão de algumas teorias secundárias, como já foi apresentado por Pimentel[5], em seu trabalho sobre a metodologia do espiritismo.

Não vejo demérito à doutrina espírita em concebê-la como um conhecimento sobre os Espíritos e o mundo espiritual, baseado em observação e nas informações obtidas a partir da mediunidade, com o emprego da razão e dos métodos experimentais.

Quando se insiste que a doutrina é “a verdade”, nós a transformamos em uma espécie de teologia revelada por um ser absoluto (Deus), ou por seres muito superiores a nós, que não nos cabe questionar, e perdemos o caráter de conhecimento construído a partir da razão e da observação e experimentação de fenômenos, que todos sabemos ser falível. Do ponto de vista gnosiológico, reduzimos o espiritismo em um tipo de conhecimento como o catolicismo, o judaísmo, o islamismo ou o budismo. Com isso, perdemos o seu caráter científico e filosófico, tão caro a Allan Kardec.

Finalizando, o espiritismo não é a verdade, mas a busca criteriosa da verdade em assuntos relacionados aos Espíritos e à vida espiritual.



[1] Kardec, Allan. O que é o espiritismo. 5 ed francesa e posteriores. Preâmbulo.
[2] Kardec, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. 4ª ou 5ª ed. francesas, cap. 1, §55.
[3] Fatos seriam eventos da natureza percebidas pelos sentidos humanos, principalmente pela observação, ampliados ou não por instrumentos. Fenômenos, a partir de Kant, são intuições das pessoas “captadas segundo a intuição e das categorias inatas do intelecto”.
[4] Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Kardec, Allan. Caráter da revelação espírita. In: A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. (4ª ou 5ª edições francesas), cap. 1, item 55.
[5] Pimentel, Marcelo Gulão. O método de Allan Kardec para investigação dos fenômenos mediúnicos (1854-1869). Dissertação de mestrado. UFJF. Juiz de Fora, Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira, 2014.

11.3.20

ESPÍRITOS SUGEREM A KARDEC COMO REVISAR "A GÊNESE"



Recebi do Adair a publicação de uma carta psicografada para Allan Kardec por espíritos que sugerem que mudanças deveriam ser feitas em A gênese, os  milagres e as predições segundo o espiritismo.

Há sugestão de revisões "de comparações nos primeiros capítulos", possivelmente ambíguas, para "condensação das ideias" que já foram tratadas em outros lugares e de "adição de elementos novos, mas urgentes".

O autor espiritual sugere também deixar intactas  "todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público". Ele não fala em princípios ou princípios doutrinários, como comentou um dos leitores do EC.

No texto se lê também que os espíritos falam da revisão como algo em curso, recomendam que Kardec "não espere muito para realizá-la", mas que não se apressasse.

Há uma curiosidade que merece destaque: Kardec se refere à terceira e quarta edições, como se estivessem sendo feitas simultaneamente e decorrentes da venda rápida das primeira e segunda edições. O espírito considera que os exemplares continuarão sendo bem vendidos, como aconteceu com as primeiras edições.

A mensagem é de 22 de fevereiro de 1868. A Gênese foi publicada em 06 de janeiro de 1868 e, portanto, um mês após a publicação Kardec já está conversando com os espíritos sobre sua revisão e sobre a terceira e quarta edições. Outro detalhe importante: o médium é Armand Desliens, que sucederá Kardec após sua desencarnação sendo membro da diretoria das sociedades fundadas para dar continuidade ao trabalho do fundador do espiritismo.

Veja abaixo o link para ler a mensagem, sua transcrição e sua tradução na página do Facebook AllanKardec.online.

3.3.20

A EDIÇÃO DE 1869 DE A GÊNESE É CLANDESTINA?




Desde quando Carlos Seth Bastos publicou a descoberta de um exemplar de A Gênese publicado em 1869, e Samuel Magalhães publicou imagens de propaganda do mesmo em um exemplar de O Livro dos Médiuns, do mesmo ano, surgiu uma acusação feita pelo estudioso Paulo Henrique de Figueiredo, que denominou a edição de clandestina. Diversos leitores do EC me enviaram o texto desse autor. Carlos já fez comentários ao texto, estou publicando minhas observações. 

Como se pode ver, a ideia de uma edição clandestina é especulativa, inconsistente com as informações publicadas na capa e atingiriam não apenas os diretores da Sociedade Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo, como a própria Amélie Boudet, que era dona dos direitos autorais do livro e participou da fundação da Sociedade e a partir de julho de 1869 como membro do Conselho Supervisor. 

Segue abaixo o texto de Paulo Henrique e meus comentários em cor vermelha.

Agradeço aos colegas que me auxiliaram com o texto. 

Jáder Sampaio, 03 de março de 2020

SOBRE A 5ª EDIÇÃO CLANDESTINA DE A GÊNESE DE 1869

Esclarecimentos do Pesquisador e Historiador Espírita
Paulo Henrique de Figueiredo

Foi encontrado um exemplar da 5ª edição de La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme, que possui em sua capa o ano de 1869. Uma relevante descoberta, que está relacionada com a questão da adulteração da obra em 1872. (A ideia da adulteração de A Gênese é especulativa).
Já sabíamos da existência dessa edição desde o ano passado e passamos a estudar profundamente o contexto desse fato novo.

Todavia, seria impossível para a Simoni Privato Goidanich citar essa edição em sua obra O Legado de Allan Kardec, (Se ela tivesse encontrado, a citaria e possivelmente reinterpretaria o material de estudo) quando pesquisou os documentos na França, pois ela é não só uma adulteração, mas também clandestina! (Afirmação especulativa; se fosse levada a sério, deveríamos considerar clandestinas outras edições de livros de Kardec, conforme aponta a pesquisa do Carlos Seth) Vamos demonstrar.

Compare a 4ª edição e a 5ª edição de A Gênese, ambas de 1869. Simplesmente analisando os detalhes das duas capas, já se pode deduzir informações importantes.

O pedido de impressão da 4ª edição foi feito em 4 de fevereiro de 1869. Allan Kardec pediu que fizessem 2.000 exemplares. Todavia, por desencarnar em 31 de março, no mês seguinte, não pode anunciar essa reimpressão na Revista Espírita. Ele morreu antes (um dia antes) do estabelecimento da Livraria Espírita, em seu novo endereço. Por isso, indica na capa, como em todas as suas edições: “bureau de la Revue Spirite, 59, rue et passage Ste-Anne”.

Veja agora a 5ª edição de 1869 agora encontrada, na capa: “Librairie Spirite et des Sciences Psychologiques”, em “7, rue de Lille”. Isso registra que essa edição foi publicada pelos continuadores responsáveis pela livraria após a morte de Kardec, ou seja, em data posterior à sua morte. (Possivelmente) Assim sendo, não foi publicada por Allan Kardec! (Possivelmente)

E quanto aos documentos legais desta 5ª edição que confirmariam oficialmente todas as informações sobre ela, existem? Não existem. (Especulativo, pois os documentos levantados comportam mais de uma interpretação) Simplesmente, após uma pesquisa minuciosa tanto na Biblioteca Nacional quanto nos Arquivos Nacionais da França, empreendidos por mais de uma vez este ano, por pessoas diferentes, confirmam que NÃO existe (não encontraram) nem pedido de impressão nem depósito legal. (Carlos Seth Bastos mostra que isso aconteceu em outra oportunidade na qual Kardec estava vivo. O Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas, nova edição aumentada, de 1865, não consta no registro dos depósitos legais.) 

Como se trata de conteúdo novo em relação à edição original, seria obrigação legal fazer tanto o pedido ao Ministério do Interior como depositar um exemplar na Biblioteca. (Na Biblioteca, não, na Prefeitura de Polícia) Temerariamente, nada disso foi feito! (Especulação) Trata-se de uma edição clandestina! (Uma edição cujos registros não foram encontrados até o momento) Poderíamos até dizer, criminosa. (Segundo a lei vigente à época, não há crime, deixar de registrar é contravenção. Só há crime se houver a intenção de atacar a França ou o Imperador)

Nada foi noticiado na Revista Espírita sobre essa nova edição revista, corrigida e aumentada. Nem uma nota. Quando seria fundamental avisar aos espíritas sobre isso! (Houve diversos pedidos de publicação de novos livros em 1869, além dos problemas da constituição da nova Sociedade) Kardec não o fez, pois foi posterior à sua morte. Os responsáveis pela livraria não o fizeram, pois se tratava de uma edição adulterada e clandestina. (Mega-especulação. A gráfica que trabalhou anos a fio com Kardec colocou seu nome em uma obra clandestina, correndo o risco de incorrer no artigo 41 da lei de Napoleão I, e de ser acionada judicialmente pela livraria? Como diz Carlos Seth Bastos, foram feitas quase 400 mudanças no período entre 31 de março e junho de 1869, mudados os clichês, impresso, em um período no qual se estava praticamente fundando a Sociedade  Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo?)

Há uma menção a essa edição clandestina de A Gênese de 1869. E é a única. Está na referência das obras de Allan Kardec em Le Livre des Médiums, edição 11ª. na contracapa foi grafado: “ La Genèse, les miracles et les prédictions selon le Spiritisme, 1 vol., in-12, 5e édition”. (Então ou houve um erro do tipógrafo, ou a Livraria é responsável pela edição)

Temos a declaração do impressor e depósito legal dessa edição de O Livro dos Médiuns: Declaração de impressor em 09/07/1869 e depósito legal em 16/07/1869. Ou seja, a única menção sobre essa quinta edição clandestina de A Gênese de 1869 foi feita somente em julho (feita em julho, mas referente a junho, segundo a Revista Espírita) de 1869, quatro meses após a morte do professor Rivail. Pelos mesmos responsáveis por essa edição clandestina de A Gênese! (Diretoria aclamada em abril: Levent, Canguier, Ravan, Desliens, Delanne, Tailleur e Mallet – este último presidente. Diretoria eleita em julho de 1869 na residência de Amelie Boudet: Desliens, Tailleur, Monvoisin, Guilbert, Bittard e Joly, sendo que Amélie Boudet e Guilbet eram membros do Conselho Supervisor)
Como essa edição de A Gênese de 1869 foi, além de adulterada (especulação), também clandestina (especulação), o que fez Leymarie quando precisava publicar uma edição nova da obra em 1872? Ele sabia que a 5ª de 1869 era falsa (especulação), pois, tratando-se de um conteúdo novo, teve que fazer um depósito legal em 23/12/1872. Deveria ter declarado tratar-se de uma sexta edição. Revela sua culpa, ao repetir a numeração, omitir o ano na capa e publicar essa nova como sendo novamente 5a edição! (No registro, consta 5ª edição e 2ª edição, segundo Simone Privato. O que entendo é que foi registrado que era uma reimpressão (ou segunda impressão) da quinta edição. A explicação de Simone não faz sentido. Ela diz que é quinta edição porque veio após a quarta e que é segunda porque foi a primeira a conter alterações. Pág. 164-166 do livro O Legado de Allan Kardec)

A garantia da autenticidade da obra e de que seu conteúdo de fato espelha a vontade do autor repousa sobre o preenchimento dos requisitos formais de autorização de impressão e do depósito legal. (Sem o depósito legal, não há como provar que a obra foi publicada na data do registro, e se cria a possibilidade de alguém registrar a obra em seu nome. Não é o caso.) Sem isso, seu conteúdo é falso, apócrifo, (Mais uma dedução incorreta, sem isso fica mais complicado provar a autoria) segundo a legislação da época. (Não está escrito isso na lei) Alguém imagina, por absurdo, que o professor Rivail, tão cuidadoso com todos os seus documentos e sem nunca ter incorrido em qualquer ilegalidade em suas publicações, faria uma edição sem registro oficial? (Quem fez a edição foi A Livraria Espírita, em um período de extrema influência de Mme Kardec.)

Portanto ilegal, clandestina e toda modificada? (Frase de efeito, vimos que não há como provar isso. Atribuir crime à Livraria Espírita, sem provas, é calúnia) Sem avisar ninguém pela Revista Espírita? Está claro que Kardec pretendia fazer modificações nesse livro segundo os seus manuscritos, mas não o fez até a sua morte. (A FEAL tem os manuscritos, mas não deu ainda acesso às pessoas. Sem uma análise desses documentos, é também uma especulação) Nem foram certamente essas falsas que encontramos nas edições adulteradas. (Outra especulação)

Conclusão: tudo o que a Simoni Privato Goidanich afirmou em sua obra está vigente e intocável. (O trabalho dela é muito bom, especialmente a recuperação de informações e documentos. As conclusões e análises que ela faz se baseiam neles. Quando surgem novos documentos, há que se rever as análises. Não há nada de errado nisso, e nenhum demérito para ela.)  Apenas se acrescenta que a conspiração para adulterar a obra de Allan Kardec já se iniciou logo após a sua morte, (uma metaespeculação: especulação fundamentada em especulações)  alguns meses depois, por aqueles, como Desliens, que passariam o bastão do desvio (um ataque sem provas, que atinge a esposa de Kardec, que era membro do Conselho Supervisor, como nos mostra Privato) para Leymarie desde 1871.

Temos muitas outras informações e documentos sobre o caso. (Que não estão públicas, por isso, não se constituem como documentos a serem verificados. Nós temos que confiar que o argumentador tem acesso privilegiado e que por isso está interpretando corretamente os documentos a que teve acesso, ainda que Carlos Seth também tenha acesso aos mesmos documentos e tenha chegado a diferente conclusão) Mas uma investigação adequada deve ser divulgada publicamente somente quando todos os fatos e detalhes estão apurados e esclarecidos ao máximo. (Então poderemos rever nossas posições) Uma conclusão precipitada serve apenas para causar dúvidas, polêmica e divisão. (É o que está acontecendo, e esse seu texto se presta a isso, ao fazer acusações sem provas documentais) Nada disso interessa à divulgação do Espiritismo. (Concordamos) Portanto, vamos voltar ao assunto somente daqui a algumas semanas, quando vamos apresentar trabalho completo, como já havíamos planejado anteriormente. (Aguardamos)

Esperamos, assim, contribuir com os estudos desta Doutrina libertadora que não nos pertence, mas sim aos Espíritos Superiores que deram seus ensinamentos. Nós, espíritas, somos todos estudantes, e devemos divulgar e restabelecer a teoria original de Allan Kardec, com o objetivo de colaborar com a Regeneração da Humanidade. Os tempos estão chegados!

Paulo Henrique de Figueiredo, 2 de março de 2020.

SOBRE A LEI DE PUBLICAÇÃO NA FRANÇA DE ALLAN KARDEC



Napoleão I decretou uma lei em 05 de fevereiro de 1810, que é considerada uma “lei de censura” em nossos dias. Ela pode ser vista em https://archive.org/details/dcretimprialcont00fran_1/mode/2up

Nessa lei, os impressores e as livrarias ficavam sob o controle de um diretor geral, ligado ao Ministro do Interior francês. A lei designa seis auditores sob o controle do diretor geral. No ano seguinte à publicação da lei, Napoleão reduziu o número de impressores para sessenta, possibilitando que cada auditor cuidasse das publicações de dez impressores.

O artigo 10 considera crime “imprimir qualquer coisa que possa afetar os deveres do sujeito com relação ao soberano”, ou seja, um Estado sem liberdade de imprensa.

O controle da imprensa se faria com um livro, rubricado pelo prefeito da região, no qual se registra por ordem de data, cada livro que se deseja imprimir e o nome do autor. (art. 11) As livrarias seriam “juramentadas e licenciadas”. Essas licenças seriam aprovadas pelo Ministro do Interior! (art.29) Para ser licenciados, os livreiros teriam que demonstrar “sua boa vida e seu apego à pátria e ao soberano”. (art. 33)

A lei controla a entrada de livros do exterior e estabelece um imposto “não inferior a cinquenta por cento do valor das obras”. (art. 35). Napoleão assinou um decreto imperial que estabelece como cobrar os impostos de livros importados em 14 de dezembro de 1810. 

A lei estabelece confisco e multa se o livro sair sem o nome do autor e da gráfica, se “o autor ou o impressor não tiver efetuado o registro e a declaração do artigo 11”, se a obra for pedida para exame e a impressão não tiver sido suspensa enquanto se faz, se a obra for publicada sem a autorização do ministro da polícia geral, se for uma falsificação ou se for impressa “sem o consentimento e em detrimento do direito do autor ou do editor."

O artigo 39 assegura o direito de propriedade ao autor e à sua viúva, e aos filhos por vinte anos.

Por fim, no artigo 48, se decide sobre a guarda dos livros impressos: 

“Cada impressor deverá depositar na prefeitura da polícia cinco cópias de cada obra, a saber: duas para a biblioteca imperial, uma para o Ministro do Interior, uma para a biblioteca de nosso Conselho de Estado, uma para a diretor administrativo das obras de impressão.”

Após ler a lei como um todo, o que podemos concluir? Que a lei foi criada para evitar que ideias em conflito com o regime fossem veiculadas sem controle do Estado. Escrever era considerado “caso de polícia” na França, e a maior preocupação da lei não é com a preservação dos direitos de autor e editores, mas com o uso da imprensa contra o Estado estabelecido e o imperador.

O registro cuidadoso visava evitar a veiculação de ideias contra o regime político vigente (principalmente o imperador), e até as livrarias seriam objeto de licença especial do Estado para funcionamento. 

Esta legislação estava em vigor no período de 1857 a 1869, enquanto Allan Kardec estava encarnado e publicando sua obra espírita.

Uma lei baseada na liberdade de imprensa, que garante a livre circulação dos jornais, sem regulamentação governamental foi aprovada em 1881 e está em vigor até hoje.

14.1.20

O LIVRO DOS MÉDIUNS: ESSE DESCONHECIDO



Uma instituição espírita regional fez uma pesquisa com 264 participantes de reuniões mediúnicas, cujo tema central era “O Livro dos Médiuns”.

O subtítulo do livro é “Guia dos médiuns e dos evocadores”, e foi escrito por Allan Kardec porque muitas pessoas o procuraram após a publicação de “O Livro dos Espíritos”, perguntando sobre a parte prática, sobre o exercício da mediunidade. Kardec, então, publicou um primeiro livro chamado “Instruções práticas sobre as manifestações espíritas” (1858), cujo desenvolvimento gerou “O Livro dos Médiuns” (1861).

O Livro dos Médiuns está para a prática da mediunidade assim como as leis de Newton estão para a física. Ninguém pode dizer-se físico ou estudante de física e ignorar essa formulação do pesquisador inglês, publicada em 1687. Mesmo com todo o desenvolvimento e pesquisa investidos nessa disciplina, o conhecimento considerado básico é fundamental para que se possa ser capaz de entender seus avanços.

O resultado da pesquisa foi que 67% dos membros de reuniões mediúnicas responderam ter lido todo o livro. Quando se perguntava se o livro foi estudado em grupo, o número cai para 28%. Na terceira pergunta, ou seja, se o livro foi estudado mais de uma vez em grupo, o número cai para 7%. 

Não se trata de frequentadores de centros espíritas em geral, mas membros de reuniões mediúnicas, que, segundo Kardec, deveriam se instruir antes de procurar a prática.

Essa pesquisa merece ser ampliada. Se você participa de um grupo de prática mediúnica, levante os números. Se eles forem como os da pesquisa, está na hora de estudar “O Livro dos Médiuns”.

28.11.19

INTERRUPÇÃO TEMPORÁRIA DA MEDIUNIDADE




Uma companheira de trabalhos de Minas Gerais me escreveu explicando que é médium psicofônica, mas que as manifestações diminuíram bastante, chegando a ficar diversas reuniões seguidas sem obter comunicação. Ela questiona se isso é um problema.

Allan Kardec trata dessa questão em um capítulo no qual trata da perda e suspensão da mediunidade, em O livro dos médiuns. Está no capítulo 17, Da formação dos médiuns. A primeira coisa que fiz foi reler o capítulo e dá para perceber como ele é rico em informações.

A primeira coisa que nos deparamos ao ler, é que há diversas possíveis causas para a perda ou suspensão da mediunidade, mas a primeira coisa que os espíritos informam a Kardec é que muitas vezes se verifica uma “interrupção passageira”.

Recordei de Yvonne A. Pereira, que na introdução do livro Memórias de um suicida, informa que ficou quatro anos sem praticar a mediunidade, de forma involuntária. Uma mediunidade ostensiva como a de Yvonne, nos faz pensar que a faculdade mediúnica não funciona como os órgãos dos sentidos, sendo passível de descontinuidade no tempo.

Lembrei também dos comentários de alguns colegas de reunião, que viajam de férias, por exemplo, e faltam uma ou mais semanas à reunião. Ao voltar, comentam ao final de reunião uma dificuldade maior no exercício da mediunidade, o que volta com a regularidade da frequência das sessões.

No texto de Kardec, os espíritos levantam diversas possibilidades:
  1.  Não entendem que a perda esteja associada ao esgotamento do fluido. A essa questão respondem acentuando o desejo ou possibilidade de comunicação pelos espíritos.
  2.  Uso frívolo ou ambicioso das faculdades afasta os espíritos sérios.
  3.  Ao afastar-se, um espírito bom pode privar o médium da sua faculdade, para que entenda que não é algo que depende apenas dele.
  4.  Essa suspensão pode ser realizada pelo espírito como uma promoção de repouso necessário ao médium, e uma proteção para que espíritos inferiores não utilizem sua faculdade.
  5.  Alguns médiuns passam por um período de interrupção mesmo sem necessidade de repouso, trata-se de uma prova de sua perseverança.
  6.  A interrupção da faculdade mediúnica não significa necessariamente uma censura espiritual

Conclui-se, portanto, que se deve lidar com a mediunidade sem expectativa de comunicação contínua, em todas as reuniões, sendo normal e possível variações nos desempenhos de médiuns. Devemos evitar a expectativa de desempenho, que pode gerar algum constrangimento ou desejo de obter comunicação para atender ao grupo, acabando por incentivar fenômenos anímicos, ou seja, produções da própria mente do médium sem influência espiritual.

12.11.19

ORIGEM DA RESTRIÇÃO ÀS EVOCAÇÕES DE ESPÍRITOS NO BRASIL



Foto de Frederico Júnior, médium do Grupo Ismael


É sabido que Kardec usava as evocações como uma forma de obter informações sobre casos específicos que lhe chegavam às mãos. Contudo, ele não as recomendava como técnica universal e infalível na prática mediúnica.

As evocações nominais, segundo Kardec, demandam médiuns especiais, identificados por ele como flexíveis e positivos. [1] Os médiuns positivos, apresentados no capítulo 16 de O Livro dos Médiuns, segundo o próprio Kardec, são muito raros. Os médiuns flexíveis, que Kardec menciona apenas no capítulo 16, item 191, parecem ser o mesmo que os maleáveis, definidos acima. São capazes de dar comunicações de “diversos gêneros”, e ditadas por “quase todos os espíritos”.

Atento para com suas limitações ele advertia os espíritas para o risco de fraude por parte dos espíritos: “evoca um rochedo e ela te responderá. Há sempre uma multidão de espíritos prontos a tomar a palavra sob qualquer pretexto”[2].

Alguns autores atribuem a censura da prática das evocações a Chico Xavier. Eles geralmente se lembram da frase: o telefone toca de lá para cá. Honestamente, acredito que não seja verdade. Chico participava de reuniões onde ocorriam evocações mentais, nas quais parentes de pessoas desencarnadas pediam à espiritualidade a sua comunicação. Havia apelos mentais[3]. Tantos, que no livro Missionários da Luz, os espíritos em uma sessão de materialização recomendam que as pessoas cantem, para que se desligassem do petitório mental (p. 118). Isso significa que mentalmente se solicitava da espiritualidade a presença dos familiares, entre outros desejos, embora não se pudesse assegurar que eles estariam em condições de se comunicar, como vemos no capítulo 25 de O Livro dos Médiuns na pena de Allan Kardec: há diversos motivos para que os espíritos evocados não possam se manifestar. A explicação do Chico aos familiares, referindo-se ao telefone, é mais um eufemismo, visando preservá-los da dor da perda, mais uma vez revivida.

Estudando as informações publicadas sobre o Grupo Ismael, do Rio de Janeiro, encontrei algumas orientações dadas pelo “espírito guia” do grupo pela mediunidade de Frederico Júnior. Ele dizia:

“Não se ofereçam para evocações. Quando um centro não lhes parecer homogêneo, neguem-se ao trabalho, porque assim pouparão elementos do seu cérebro e não darão ocasião a divertimentos, a que muitos estão acostumados.
A sua linguagem deve ser esta:
Eu só trabalho quando meu guia esteja a meu lado, e desde que meus companheiros não me proporcionem a satisfação desta vontade, eu não trabalho: porque serei uma máquina sem maquinista, serei uma bússola sem agulha, serei um navio sem leme, e o meu estado é perigoso.” – Ismael via Frederico Júnior[4]

Creio que a orientação de Ismael se deve à época e aos conhecimentos do grupo. No Brasil ainda era muito comum a prática da mediunidade (e a de efeitos físicos também) para atrair adeptos. O grupo de Ismael era um dos primeiros a se dedicar ao exercício sistemático da mediunidade.

Se o público participante, que ignorava o espiritismo e os cuidados com a mediunidade, fosse incentivado a ir, movido exclusivamente pela curiosidade, os médiuns ficariam expostos a vexames públicos, às reações psicológicas dos assistentes da reunião e de outras consequências desagradáveis, diante da prática pública e oral de evocações. A prática mediúnica se tornaria uma espécie de espetáculo, onde as pessoas iriam querer que seus desejos e exigências pessoais fossem atendidos pelo médium. Muito diferente do ambiente de estudo criado por Allan Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em Paris. Talvez por isso tenhamos a orientação restritiva do espírito que se identificava como Ismael.

O cuidado intransigente da presença do "guia" sugere fragilidade da direção encarnada da reunião mediúnica. O médium se orienta preferencialmente através do espírito que reconhece como guia. Sabemos que é uma atitude arriscada, porque nem sempre o médium é capaz de identificar esse espírito e outro espírito pode se passar por ele. Seria um cuidado próprio para a época e específico para o Grupo Ismael? Penso que sim.

Não há como afirmar sem dúvida que essa é a origem da restrição às evocações verbais nas reuniões mediúnicas brasileiras, mas é o que encontrei de mais antigo, e Chico Xavier ainda usava calças curtas.




[1]KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 40 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. [Segunda parte - Das manifestações espíritas. Capítulo 25 - Das evocações » Considerações gerais, item 269]
[2] KARDEC, Allan. Evocações dos animais in: O Livro dos Médiuns. 40 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. [Segunda parte Segunda parte - Das manifestações espíritas - Das evocações. Capítulo 25 - questão 283 - 36ª.]
[3] LUIZ, André. Materialização. in: Missionários da Luz. 13 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.  p. 117-118
[4] RICHARD, Pedro. Frederico Pereira da Silva Júnior, Reformador, Rio de Janeiro, ano 32, n. 18, 16 set. 1914,  p. 319