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12.12.19

O NATAL DE 2019



Vem chegando o Natal e a cidade muda seu ritmo. Trânsito ativo, vai e vem de pessoas e, na nossa cidade, dezembro traz consigo suas chuvas, que não  impedem ninguém de ir às ruas comprar coisas para a ceia e a troca de presentes.

Nossa casa espírita se prepara para celebrar o natal, à moda antiga. Preparamos cestas de alimentos para presentear pessoas pobres. É assistencialismo, mas é festa ao mesmo tempo. As muitas reuniões públicas, de estudo, mediúnicas, se cotizam para adquirir os gêneros que compõem a “cesta de natal”, também chamada, pelos que nos antecederam na tarefa, de farnel.

Nas muitas festas de confraternização, em que nos encontramos, a jovem lamentava:

- Esse ano vou ao Canadá. Pela primeira vez não poderei participar da confecção das cestas de natal! Ela sabia que perderia aqueles momentos de alacridade e companheirismo.

A quebra da rotina marca o nosso natal sem neve, mas com a presença dos símbolos da cultura europeia que nos alimentou. Por todos os lados se vê um Papai Noel, uma árvore de natal, os enfeites, uma rena voadora ou qualquer um dos simpáticos ícones que têm mais a ver com o antigo culto dos deuses que com a história de Jesus.

Na mediúnica de sábado, estamos estudando o livro “Memórias de um suicida”. A leitura é sempre interessante e a riqueza dos detalhes do texto produzido por Yvonne-Camilo provoca nossa curiosidade e nosso desejo de aprender mais.

Na parte mediúnica, silêncio. Muitos médiuns relatam ter ficado entre o estado de consciência e o de transe. Um espírito comunica-se por Jeziel. 

Ao mesmo tempo, a médium Ana começa a falar e Débora vai atender. É um daqueles raros momentos em que um espírito que já se comunicou há semanas por um médium, volta a falar por outro. 

A mulher vinha nos comunicar que iria reencarnar. Ela identifica sua história, que Ana não conhecia. Na “terceira parte”, Alex iria dizer que ela havia se comunicado há algumas semanas através dele.
Ela agradece. Agradece o carinho do grupo, o acolhimento, a dedicação. Ela nos diz que fala em nome de muitos espíritos que lá estavam presentes, que também foram beneficiados pelos nossos trabalhos. Ainda pela voz da mulher, antes identificada como prostituta, vem o recado de um de nossos dirigentes espirituais, ainda anônimo, mesmo após tantos anos de trabalho.

Acompanha uma sensação de estar fazendo a coisa certa, uma alegria com a gratidão! Quão poucos se dedicam a ajudar o próximo sem nunca receber um muito obrigado! Dos dez leprosos, ensina o Novo Testamento, apenas um voltou para agradecer.

Lembrei imediatamente do Natal. Não foi Jesus quem escolheu a "apóstola dos apóstolos", talvez injustamente considerada como prostituta por uma autoridade eclesiástica medieval, para dar a notícia aos apóstolos que ele continuava vivo após a morte do corpo? Não foi Maria, a de Magdala, a mulher corajosa cujas histórias foram contadas pelos evangelistas? Não foi ela a companheira da outra Maria, no sombrio momento do Gólgota, que enfrentou sem medo a soldadesca romana com sua presença claramente favorável ao Rabi Galileu?

E eis que do plano espiritual veio uma voz de mulher que nos agradeceu e comunicou que voltaria à vida, no mês em que lembramos que Jesus também reencarnou para nos instruir e ensinar o amor.

Feliz Natal a todos os que acompanham o Espiritismo Comentado! Possa a paz do aniversariante e a alegria dos pais invadir todas as casas nas celebrações da vida, da fé e da família.



11.4.19

ENCONTRANDO JESUS A PARTIR DA ANÁLISE DOS EVANGELHOS





Ante a sugestão do Marcelo Bernardo, tenho lido nas horas vagas os livros de Bart Ehrman, um historiador e teólogo norte-americano, agora agnóstico, especializado no Novo Testamento e no cristianismo primitivo.

Ehrman tem um livro sobre a existência de Jesus (o Jesus humano e histórico). Há alguns autores defendendo a ideia de que Jesus seria um mito, oriundo de outros mitos divinos, sobre o qual os cristãos contaram histórias entre si e “inventaram” o cristianismo.

Um texto como costumo publicar no Espiritismo Comentado não tem tamanho suficiente (e se tivesse, não teria leitores...) para apresentar toda a discussão da questão, que envolve um grande número de argumentos, e, portanto, um debate significativo.

Uma das evidências que Ehrman usa para defender a existência de Jesus é a análise do texto evangelhos. Todos sabemos que os evangelhos foram escritos em grego. Como os escritores eram “bons de escrita”, possivelmente eruditos, os historiadores entendem que não devem ter sido os apóstolos, que eram possivelmente iletrados e que falavam aramaico (exceto Paulo e Lucas, que não conviveram com Jesus). Eles teriam dificuldade para aprender, falar e escrever corretamente o grego. Esse assunto também é polêmico, mas para entender Ehrman, vamos prosseguir desse ponto.

Um dos argumentos dele é a existência de palavras em aramaico no meio da narrativa grega. Dificilmente um escritor grego conheceria qualquer coisa de aramaico. Os evangelhos trazem, no entanto, palavras como rabi, talita cumi, messias, Cefas (o nome que Jesus deu a Pedro), entre outras. Não bastasse a existência das palavras, muitas vezes os escritores dos evangelhos a traduzem para o leitor, certos de que ele não entenderia seu significado.

Esta é uma das dezenas de evidências que as narrativas em torno de Jesus, surgiram na Palestina e eram faladas em aramaico, e que posteriormente os autores dos evangelhos ouviram e recontaram em grego. Se Jesus e os apóstolos fossem um mito, uma história baseada em histórias de deuses, considerando a amplitude das comunidades cristãs no século I, cada uma teria criado histórias próprias, sem um núcleo comum, totalmente diferentes umas das outras, o que não acontece nem mesmo nos evangelhos considerados apócrifos, que trazem em si muito dos textos dos outros evangelhos (como O evangelho de Tomé).

As palavras em aramaico, e os textos comuns, levam necessariamente o início do cristianismo para a região da Judeia, Galileia, Samaria, em torno dos anos 30 (outro ponto a ser sustentado, com as cartas de Paulo), por pessoas que originalmente falavam o aramaico e que depois se espalharam por cidades ao redor do mediterrâneo e dos países vizinhos aos antigos reinos de Israel e Judá.

Como disse acima, o livro é repleto de debates com os miticistas (pessoas que defendem que Jesus era um mito) e tem argumentação bem fundamentada. Quem se interessar pelo assunto leia:




Ehrman, Bart. Jesus existiu ou não? Rio de Janeiro: Agir, 2014. [Tradução da editora Nova Fronteira, feita por Anthony Cleaver]


11.4.18

JESUS EXISTIU? É IMPORTANTE PARA O ESPIRITISMO?



Manuscritos de Nag Hammadi


Com o passar do tempo e o desenrolar da história, a época em que viveu Jesus vai ficando cada vez mais distante de nós, o que leva algumas pessoas a questionarem se ele realmente viveu ou se não seria uma lenda, criada com alguma finalidade de controle social.

Para o pensamento espírita, Jesus não apenas viveu como pode ser considerado guia e modelo para os homens, como se lê em O Livro dos Espíritos. Após discutir filosofia com os Espíritos e escrever sobre a prática da mediunidade, divulgando sua experiência na França e no exterior, Allan Kardec dedicou-se ao estudo e comentário dos evangelhos, dando um grande destaque, inicialmente à questão moral, com a publicação de “O evangelho segundo o espiritismo” e posteriormente sobre outras questões ligadas aos evangelhos, como os milagres e as predições do Cristo, que se encontram analisados em “A Gênese”. Kardec e os Espíritos entendem que os ensinamentos cristãos são uma base importante para o desenvolvimento de uma ética para a humanidade, mesmo havendo mudanças muito intensas na sociedade, nas formas e relações de produção e na interação entre os homens.

Se considerarmos as evidências históricas e arqueológicas da vida de Jesus de Nazaré, podemos observar o seguinte:

1.       Entre as evidências documentais da existência de Jesus, temos, além dos evangelhos, as cartas de Paulo e as dezenas de escritos dos cristãos dos primeiros séculos, que temos até os dias de hoje.

2.       Historiadores judeus como Flávio Josefo e historiadores romanos como Plínio e Tácito, que não foram cristãos, escreveram sobre Jesus.

3.       Não se questiona a existência de Jesus na literatura antiga.

4.       Há diversas evidências arqueológicas como:

a.       os manuscritos do Mar Morto (descobertos em 1947, em uma localidade chamada Qmram, na Cisjordânia, que contém documentos escritos entre o século II aC. ao ano 70 dC, contendo textos do antigo e do novo testamentos, além de documentos apócrifos)
b.      os manuscritos de Nag Hammadi (descobertos no Egito em 1945, possivelmente do século II, escritos em cóptico e contendo textos gnósticos, que fazem referência a Jesus, embora sejam considerados apócrifos)
c.       Os papiros de Oxirinco (descoberto no Egito, contendo documentos que vão do século I ao VI, são uma espécie de biblioteca que tem textos clássicos, manuscritos teológicos e apócrifos, além de documentos do cristianismo primitivo).

O pensamento de Jesus é um dos pilares éticos da obra de Allan Kardec, em função de sua ética da solidariedade e da sua consideração dos seres humanos como pessoas, independente do lugar que ocupam na sociedade.

21.4.16

DOCUMENTÁRIO ESPÍRITA SOBRE JESUS NO CINEMA



Segunda-feira passada foi a oportunidade de assistir "Nos passos do mestre", um documentário com orientação espírita sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. Regina já me havia avisado que ele é rico de imagens das terras onde Jesus e seus discípulos viveram, que hoje estão em Israel e na Turquia. Elas são belíssimas, ainda hoje. Não sei se nos acostumamos a pensar na terra de Jesus focalizados em desertos e cidades poeirentas, mercê, talvez, dos filmes de Hollywood. Vale a pena prestar bastante atenção nas imagens do lago de Genesaré e na rica vegetação da região, que fez com que o mestre falasse em semeadores, figueiras, trigo, joio e tantas outras analogias envolvendo plantio e colheita.

O filme se parece com os documentários da History Channel ou da Discovery Channel, com episódios representados, filmagens de locações atuais e entrevistas com dois estudiosos espíritas do cristianismo: Severino Celestino e Adão Nonato. As análises e comentários deles são muito interessantes e alguns deles novos, como a proposta de tradução do Pai Nosso explicada por Celestino.

Confesso que não entendi algumas partes, como a passagem de Jesus com Pedro, em Cafarnaum, após sua morte, na qual se narra: - Pedro, filho de Simão, tu me amas? Nas diversas traduções que tenho acesso se escreve: "- Simão, filho de Jonas (ou João), tu me amas?" Seria uma alternativa de tradução 

Um ponto que despertou meu interesse foram as interpretações originais de Celestino sobre a questão da reencarnação na Bíblia. Ele já havia tratado do tema no seu livro "Analisando as traduções bíblicas", que pretendo ler assim que puder.

Para os espíritas que se interessam pelos evangelhos, o documentário flui rapidamente e faz pensar. Foi uma tarde muito agradável. Pena que em Belo Horizonte o documentário esteja sendo exibido apenas em uma sala do BH Shopping, e hoje apenas no horário das 16:15 horas, dificultando o acesso do público. Se você se interessou, não deixe de conferir.

13.11.14

DA MANJEDOURA A EMAÚS



Na introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec orientou seu leitor a conhecer o “estado dos costumes e da sociedade judia daquela época”. Ele destaca este trabalho para que se possa conhecer o sentido das palavras empregadas, das histórias contadas por Jesus, dos diálogos e das narrativas quem compõem o Novo Testamento. Seu trabalho na introdução foi modesto, resumindo-se à definição de alguns dos grupos sociais que compunham a sociedade judaica e das sinagogas.

No corpo do texto de O evangelho segundo o espiritismo encontram-se respingos, aqui e e ali, de outras informações que são úteis para uma explicação dos evangelhos, mais racional que espiritual.

Wesley Caldeira, após um longo período de elaboração, está publicando o livro “Da manjedoura a Emaús”, pela editora da Federação Espírita Brasileira. Ele colocou os manuscritos do livro nas mãos de muitos leitores, estudiosos dos evangelhos e do espiritismo, para ouvir suas análises, como o sugeriu o espírito Sorella a Léon Denis.

A leitura é deliciosa. As paisagens, costumes e pessoas que compõem o universo da Galileia e da Judeia à época de Jesus vão sendo descritos em um texto cativante, que rapidamente prende a atenção do leitor, apesar de não ser um romance. As impressões do senso comum que temos dos personagens evangélicos vão sendo desconstruídos suavemente. Descobre-se, por exemplo, que ao contrário da divisão de trabalho manual e trabalho intelectual que herdamos dos gregos e romanos, preocupados com a política e as armas, a carpintaria era uma profissão de prestígio na sociedade judaica. Uma nova visão da terra que acolheu Jesus se abre aos nossos olhos.

Wesley lança mão de autores de prestígio e influência à época de Allan Kardec, como Ernest Renan, clássicos como Suetônio e Flávio Josefo, contemporâneos, como Ariès, espíritas, como o próprio Kardec e os espíritos que ditaram obras a Chico Xavier e Divaldo Franco, Hermínio Miranda. Seu trabalho concilia um estudo cuidadoso da vida de Jesus sob a ótica espírita, sem perder-se em revelações místicas, nem em reinvenções radicais do Cristo, como têm feito alguns intelectuais, mais interessados no impacto das suas ideias que na reconstrução histórica do Rabi de Nazaré.


O natal se aproxima, e com ele, os símbolos do comércio, como o papai noel vermelho e gordo. A criançada se entusiasma com os presentes, os familiares se mobilizam para estar juntos e comemorar. Que tal trazermos também um pouco do aniversariante para nossos lares?

27.12.07

Mensagem Natalina


Gostaria de compartilhar com os leitores do blog uma mensagem ditada pela via da psicografia intuitiva ao autor do blog em dezembro de 1999, na Associação Espírita Célia Xavier. O autor espiritual adotou o nome de "Companheiro de Trabalhos".



Figura 1: Natividade de Gustave Doré

“Entrando onde ela estava disse-lhe:
‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo! (...)
Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho,
e tu o chamarás com o nome de Jesus’.”
(Lucas 1: 28 e 31)
A humanidade comemora dois mil anos de uma mensagem: nasceu Jesus, Jesus de Nazaré, criança humilde, filho de pessoas simples do povo. Ele não tem poderes, não tem riquezas, não tem nobreza no sangue, apenas uma referência distante a Davi.

Nasceu Jesus, Jesus de Nazaré. Não é romano, não é patrício, é filho de um povo escravo, os judeus, que lutam e sonham com liberdade política e aguardam um enviado de Iavé cuja mão forte dirigir-lhes-á os exércitos.

Nasceu Jesus, Jesus de Nazaré, não em Jerusalém... Nasceu no interior, foi criado em cidade pequena, aprendeu a ser carpinteiro, e não rei; conviveu com pescadores, mais que com sacerdotes. Nasceu pequeno entre os pequenos.

Nasceu Jesus, Jesus de Nazaré. Tornar-se-á homem, varão do povo de Israel, mas não terá duas túnicas, nem uma pedra onde descansar sua cabeça, viajará a pé, conversará com todos, escolhidos e apartados, patrícios e plebeus, ricos e pobres.

Nasceu Jesus, de Nazaré, com uma missão: transmitir uma mensagem. Alguns se recordam de feitos milagrosos, outros dos sinais dos céus, outros das vozes de outro mundo, mas esse homem tem por legado apenas palavras.

Nasceu Jesus, de Nazaré. Considerado malfeitor pelos seus compatriotas, esquecido pelos representantes da justiça romana, condenado à pena máxima.

Foi-se Jesus, de Nazaré, mas suas palavras, seus atos, continuam em meio a nós. Não foi rei, mas seus feitos dividiram a História. Não foi guerreiro, mas conduziu-nos à luta interior. Não foi homem de letras, mas originou as páginas mais lidas pelos seus semelhantes. Não construiu monumentos, mas sua lembrança resiste ao tempo. E depois dele, sob sua palavra, os homens ficam diferentes.

Companheiros de trabalho, nós lhes desejamos um feliz natal, pleno da presença da mensagem do homenageado."

11.12.07

A Tentação do Deserto e o Mandamento Divino

Alice perguntou: Gostaria que você me enviasse, se possível, alguma explicação a respeito da máxima de Jesus, referente ao capítulo XI do Evangelho Segundo o Espiritismo : " Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de de todo o entendimento e com toda a força". Queria compreender o significado das expressões sublinhadas e o que elas têm a ver com a tentação do deserto.

Jesus está fazendo uma citação do Deuteronômio, capítulo 6, versículo 5. Trata-se do primeiro mandamento de Iahweh, possivelmente escrito por Moisés, aos Israelitas.

Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Kardec se detém no segundo mandamento de Jesus, por esta razão não tece comentários sobre o já conhecido preceito do Antigo Testamento.

Seguindo a proposta Kardequiana, ao contextualizar a frase, retornamos ao Egito, de onde Moisés acabara de libertar o povo de Israel. Como todos sabemos, no Egito Antigo fazia-se o culto de diversos deuses, e após anos de escravidão muitos dos israelitas absorveram práticas religiosas egípcias. O monoteísmo pregado por Moisés era estranho àquele povo. Além dos deuses egípcios, os Israelitas seriam expostos aos cultos das divindades dos povos que se tornariam seus vizinhos na futura Palestina. Os Filisteus, os povos do mar, os cananeus e muitos outros cultuavam divindades estranhas a Iahweh.



Figura 1: A Criação de Adão, de Michelângelo

O sentido da frase nos parece claro: Iahweh manda que o povo de Israel obedeça apenas a seus princípios e leis, não rendendo culto a outros deuses. Não poderia haver lugar na alma ou no coração dos Israelitas para outra divindade. Se necessário, Iahweh exige que os Israelitas defendam sua crença com toda a sua força. (ou poder, como foi traduzido na tradução de Ferreira de Almeida). Uma evidência deste sentido é a própria continuidade do texto do Deuteronômio que deixa explícito no versículo 14: "Não seguireis outros deuses, qualquer um dos deuses dos povos que estão ao vosso redor, pois Iahweh teu Deus é um Deus ciumento, que habita em teu meio."

Vê-se que Moisés tinha suas razões para encabeçar com este mandamento a lista dos demais, posto que enquanto ele os recebia no monte, tendo demorado alguns dias, os Israelitas se esqueceram-se de Iahweh e fundiram o bezerro de ouro para culto.



Figura 2: Moisés, de Michelângelo

Mateus não faz referência a "poder" ou "força" em seu evangelho. Ele adiciona a palavra "entendimento" (Tradução da Bíblia de Jerusalém) ou "pensamento" (Tradução de Ferreira de Almeida). No Evangelho de Marcos (12:30) e no de Lucas (10:27) se encontram as quatro expressões: coração, alma, entendimento e força.

Na narrativa de Marcos há outra evidência de que Jesus se referia à crença em um único Deus. O escriba, com quem Jesus conversava, afirma "Muito bem, Mestre, tens razão em dizer que ele é o único e não existe outro além dele, e amá-lo de todo o coração, de toda a inteligência e com toda a força (...) é mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios. Jesus vendo que ele respondera com inteligência, disse-lhe: "Tu não estás longe do Reino de Deus".

Nesta passagem o evangelista introduz a questão da interioridade da crença em Deus. Amar com coração, alma e entendimento é amar internamente a Deus; render-lhe sacrifícios e oferendas é fazer com que a sociedade saiba que se diz amá-lo ou temê-lo. Esta já é uma contribuição de Jesus à concepção de Deus de sua época. Há uma outra passagem em que ele diz que Deus não deve ser adorado em templos, mas "em espírito e verdade". Jesus sempre foi crítico dos que dizem amar a Deus exteriormente e que na intimidade desrespeitam seus princípios. Ele é crítico contumaz da hipocrisia de fariseus em diversas passagens dos evangelhos. Mais que uma crença exterior, social, amar a Deus com o coração, com a alma e com o entendimento é ser consistente com sua proposta de vida. Esta é uma das chaves para se compreender o que Jesus considera ser o Reino.

Para se fazer a distinção das palavra alma e coração, uma análise correta (segundo a hermenêutica) demandaria a identificação do seu equivalente em hebraico e uma análise da mesma palavra em outras passagens do pentateuco, ou pelo menos uma consulta a exegetas consagrados, o que está além da minha capacidade atual, portanto, prefiro não emitir opinião.


Figura 3: Tentação do Deserto de Gustave Doré

Quanto à tentação do deserto, em Mateus 4: 8-10, o diabo (adversário de Iahweh, outra divindade na concepção histórico filosófica, portanto) propõe que Jesus se lhe prostre e o adore, oferecendo-lhe para tanto todos os reinos do mundo. Jesus recorda-lhe uma outra passagem do Deuteronômio e o manda embora dizendo: "Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto". Fica óbvia a associação entre as passagens.