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29.1.13

DÉJÀ VU: O INCÊNDIO EM SANTA MARIA-RS.



Foto de Santa Maria - RS

Uma casa de eventos cheia, na noite, com um espetáculo. A banda solta fogos no espaço fechado, para criar um visual inesquecível. Os fogos incendiaram o isolamento acústico e se espalharam rapidamente. Correria. Uma única saída. Os funcionários do estabelecimento não permitem a saída dos jovens, que se amontoavam, temendo a falta de pagamento. Fumaça, pânico, pessoas caídas e pisoteadas pela multidão. Sete mortos e trezentos feridos. Sete mortos?

Sim, não estou falando do incêndio na casa de shows em Santa Maria-RS, mas em um acidente semelhante acontecido em novembro de 2001, na capital mineira. O estabelecimento se chamava Canecão Mineiro, estava sem alvará de funcionamento, permitiu o uso de fogos inapropriados para o uso indoor, e passados onze anos, o STF estabeleceu responsabilidade da Prefeitura, há responsáveis pelo evento, mas o mais importante não aconteceu. Apesar da dor e do sofrimento dos envolvidos, o Estado não deu a devida atenção ao evento funesto, e ele se repetiu de forma quase igual, no sul do país.

Recordei-me imediatamente de uma matéria antiga que publicamos no EC, sobre o terremoto no Haiti, comparado ao do Chile. (http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/2010/03/entre-o-chile-e-o-haiti.html Os espíritos, na metade do século XVIII, disseram:

"...Muitos flagelos resultam da imprevidência do homem. À medida que adquire conhecimentos e experiência, ele os pode afastar, isto é, preveni-los, se souber pesquisar suas causas" (questão 741)

Bem, então, mais importante que encontrar os culpados e puni-los, é aprender  com o ocorrido e tomar medidas concretas para que ele não aconteça mais.  As investigações não estão concluídas, mas parece evidente que nossas normas e ações ainda não foram suficientes para evitar um incêndio  tão funesto. Infelizmente, fomos todos incompetentes em nosso país para aprender com o Canecão Mineiro. Por isso paira na alma mineira essa trágica sensação de déjà-vu.

Obs: Déjà-vu, expressão francesa que pode ser traduzida como o "já visto". O Dicionário Houaiss o define como "forma de ilusão da memória que leva o indivíduo a crer já ter visto (e, por ext., já ter vivido) alguma coisa ou situação de fato desconhecida ou nova para si". 

10.7.11

A QUESTÃO DE DEUS: KARDEC, TOMÁS DE AQUINO E JOHN DUNS SCOTUS

Figura 1: John Duns Scotus

Uma das questões que sempre me intrigou em "O Livro dos Espíritos" é a de número três: pode-se dizer que Deus é o infinito?

Homem do século XX, infinito é um termo que sempre vi associado à matemática e às ciências naturais, nas infindáveis tentativas dos físicos mensurarem o tamanho do universo.

Com esta concepção estreita que tenho, a pergunta não fazia sentido, parecia-me própria do panteísmo, que Kardec distingue tão claramente da concepção espírita de Deus.

Ao ler História da Filosofia, especialmente os autores da patrística e da escolástica, esbarrei em um pensador cristão interessante: John Duns Scotus ou Scot (1266-1308).

Nos dilemas entre a fé e a razão, o conceito de ente infinito ocupa um papel importante no pensamento de Scotus. Reale e Antiseri (2011) apresentam a questão a partir dos sentidos e do intelecto. Se é mais ou menos fácil identificar a finalidade dos sentidos do homem, qual é a finalidade do intelecto. Scot afirma que a finalidade do intelecto, essencialmente humano (ente unívoco), tem por finalidade o conhecimento.

Afirma Valverde (1987) que Scotus se opõe ao raciocínio de São Tomás de Aquino, que tenta demonstrar a existência de Deus a partir dos dados dos sentidos e que, por isso, tem uma concepção limitada dele.

"Desse modo, Deus ficaria reduzido à mera causa primeira do mundo físico". (pág. 179)

Scotus, portanto, segue outra trajetória dedutiva, a de considerar o ser a partir de suas propriedades intrínsecas, sem recorrer aos sentidos. Ele estabelece pares de "modos de ser" que Valverde cita: finito e infinito, possível e necessário, entre outros. Não é difícil para Scotus mostrar que o homem é um ente finito (unívoco, pelo que pude entender), que, portanto, dispensa a demonstração da existência. A questão se torna demonstar a existência do ente infinito.

Scotus parte da premissa de que as coisas possivelmente existem (embora não seja necessário que existam). É contudo necessário que existam, partindo do fato que existem. Então, ensina Reale que Scotus pergunta qual é a causa ou fundamento da existência, e mostra que não pode ser o nada, porque o nada não é causa. Também não são as coisas, porque elas não podem dar a existência a si mesmas (Lembremos que nessa época ninguém cogitava da teoria da evolução de Darwin e Wallace). Então é necessário por a razão desta possibilidade em um ser diferente, que transcende a esfera do produtível e das coisas possíveis.

Reale e Antiseri continuam sua explicação mostrando que se as coisas são possíveis, o ente primeiro também é possível. E se ele é possível, ele existe em ato, já que nenhum outro o produziria. Por consequência, uma vez que nenhum outro o produziria, ele é real

Scotus supera Tomás de Aquino ao afirmar que este ente que é causa primeira, tem por característica interna ser infinito "porque é supremo e ilimitado". A consequencia deste raciocínio é que "o ser infinito é o Ser, ..., porque é o fundamento de todos os entes e, antes ainda, de sua possibilidade." (Reale e Antiseri)

Mesmo utilizando o conceito de ente infinito para demonstrar a existência de Deus, Scotus admite que o conceito é "em si mesmo pobre e insuficiente, porque não consegue nos introduzir na riqueza misteriosa de Deus".

As questões iniciais de "O Livro dos Espíritos" apontam, portanto, para as discussões da filosofia escolástica e situam-se no conflito entre fé, razão e empirismo, o que sugere a participação de espíritos que dão prova de um conhecimento cada vez mais limitado a um grupo menor de pessoas, com o avanço da centralidade das ciências empíricas em nossa cultura.

14.3.10

KARDEC: ENTRE O CHILE E O HAITI

Foto 1: Construções no Chile após o terremoto - não se tornaram túmulos. Fonte: Time.

Os Flagelos em O Livro dos Espíritos

Kardec escreveu sobre flagelos que acontecem na humanidade, especialmente em sua Lei de Destruição, na parte terceira de "O Livro dos Espíritos". A teologia de sua época depositava na vontade de Deus estas ocorrências, mas o mestre francês interroga aos espíritos quais seriam as intenções da divindade ao permitir este tipo de evento no mundo.
Os espíritos dão duas respostas muito originais ao problema. A primeira é uma mudança de perspectiva ante a morte: "Se considerásseis a vida qual ela é, e como é insignificante em relação ao infinito, não lhe daríeis tanta importância. Em outra existência, essas vítimas encontrarão larga compensação aos seus sofrimentos, se souberem suportá-lo sem murmurar" (questão 738b)
Os materialistas de plantão certamente criticariam o Espiritismo, classificando-o como uma "ideologia da acomodação", se houvessem lido apenas esta passagem. Não foi esta, contudo a intenção do codificador.
O que cabe então ao homem fazer: apenar resignar-se, como o diriam alguns religiosos medievais? Não, e esta é uma das diferenças do pensamento espírita.
As mentes por detrás de "O Livro dos Espíritos" destacam o papel do homem no mundo, transformando-o para enfrentar melhor os problemas a que está submetido. "...Muitos flagelos resultam da imprevidência do homem. À medida que adquire conhecimentos e experiência, ele os pode afastar, isto é, preveni-los, se souber pesquisar suas causas" (questão 741)

Os Terremotos do Chile e do Haiti
Um exemplo ilustrador da sabedoria dos espíritos foram os dois terremotos que abalaram o Haiti e o Chile. Segundo a revista Time, o terremoto no Chile foi 500 vezes mais violento que o do Haiti, apesar da distância de seu epicentro e da menor profunidade do tremor de terras caribenho. Contudo, no Haiti houve 220 mil mortes, enquanto no Chile houve 770 mortes.
A diferença principal foi a rigorosa lei de construção civil aprovada e defendida pelas autoridades chilenas, fruto de dois terremotos acontecidos nas décadas de 60 e 80, que minimizou os danos. No Haiti apenas dois prédios foram construídos com esta finalidade, e eles não caíram.
Outra questão levantada pela Time aponta para a diferença de corrupção entre governo Chileno e Haitiano, usando os números da "Transparência Internacional". O Haiti tem números muito piores.
A melhor discussão do jornalista é sobre o papel da pobreza como explicação para estas diferenças. Todos nós nos sentimos tentados a dizer que a pobreza do Haiti o levou à corrupção e à fragilidade de suas instituições. Ele afirma o contrário: "o Chile é mais desenvolvido porque está fazendo as coisas certo. O mesmo vale para o Brasil, o Uruguai, a Costa Rica e um punhado de outras nações latino americanas e caribenhas que decidiram no século 21 parar de conduzir suas sociedades como se fossem domínios feudais".
Exageros à parte, ele tem muita razão. E os espíritos também, duzentos anos antes.
Outros Comentários sobre os Flagelos na América Latina

A organização Architecture for Humanity estimou que os efeitos do terremoto no Chile "foram muito menores que no Haiti (...) sem dúvida devido ao estado de preparação do país, incluindo as normas de construção...". "Se um prédio cai durante um terremoto é porque foi fortemente sacudido ou porque foi mal construído", resumiu o professor Roger Bilham. "No Haiti, os prédios eram muito frágeis. Quem os construiu, há 20 ou 30 anos, fez túmulos para seus ocupantes". (Fonte: Correio Brasiliense)
"The Chilean example will encourage donors to make the case that this is an opportunity to do things differently in Haiti — and do them right for a change," says Michael Shifter, vice president at the Inter-American Dialogue in Washington, D.C.
Tradução: O exemplo chileno encorajará os doadores a exigir que seja uma oportunidade de fazer as coisas de forma diferente no Haiti - e de fazê-las corretamente para se conseguir uma mudança, diz Michael Shifter, vice-presidente do Diálogo Inter-Americano, em Washington, capital. (Fonte: Time)

26.1.10

O DETERMINISMO DOS DEUSES GREGOS

Figura 1: As Moiras por Strudwick (1885)
Um dos elementos recorrentes do mito grego diz respeito ao determinismo dos acontecimentos da vida dos homens pelos deuses. Em uma análise política, poder-se-ia dizer que interessava às cidades gregas que os seus cidadãos e os seus escravos ocupassem seus lugares sociais sem questionar, especialmente quando o assunto era enviar as pessoas para a morte na guerra.
A vontade dos deuses seria uma explicação suficiente para tudo o que viesse a acontecer com os habitantes das cidades gregas, especialmente o que acontecesse de mal.
Um dos mitos criados pelos gregos é o das moiras (conhecidas como parcas pelos romanos), deusas que teciam o destino dos homens. Nascimento, acontecimentos da vida e morte eram representados pelo fio da vida. Este fio era fiado, enrolado e cortado, como simbologia da existência. Homero cita as moiras em seus épicos.
Uma das histórias gregas mais conhecidas na ocidentalidade sobre a inexistência da liberdade de escolha dos homens é a de Édipo (Sófocles), que tem revelado o seu destino pelo Oráculo de Delfos e que foge de casa para evitá-lo. Ele cumpre a trágica predição, de que mataria seu pai e casar-se-ia com sua mãe, Jocasta.
Esta crença tem sido passada de cultura a cultura, e as moiras têm equivalentes em diversos povos da Europa.
O mito grego assemelha-se às explicações dadas pelas pessoas de hoje, ante as dificuldades da vida, dizendo tratar-se da "vontade de deus" o que é muito diferente do pensamento espírita.
O Espiritismo, herdeiro de tradições filosóficas que vão dos pré-socráticos aos modernos, defende a existência de um livre-arbítrio limitado, no qual o Espírito se torna "Moira" de sua própria existência, limitada parcialmente pela sua biologia, pela sociedade em que vive, pelos impulsos psicológicos que traz e pelas relações espirituais que estabelece ao longo da existência. Este homem é herdeiro de seus próprios atos e escolhas, mas também é construtor de seu futuro individual e coletivo.
Para conhecer mais sobre o pensamento espírita, leia "A Escolha das Provas" e "A Lei de Liberdade" em O Livro dos Espíritos, assim como o capítulo "Bem Aventurados os Aflitos" em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ambos de Allan Kardec.

26.5.09

QUE SIGNIFICA O RAMO DE VIDEIRA QUE OS ESPÍRITOS PROPUSERAM A KARDEC?


Figura 1: Imagem reproduzida do "Primeiro Livro dos Espíritos", traduzido por Canuto Abreu.


Recebi uma pergunta da Ana sobre a qual nunca me havia detido sobre o símbolo que os espíritos sugeriram representar o trabalho de Deus.

“As dúvidas principais, ou melhor, o não consenso foi em relação ao licor e ao bago.
As interpretações:


O espírito é o licor: seria a seiva que corre dentro da cepa ou o suco que sai da uva? O bago: é a uva (com a sementinha e seu envoltório) ou a sementinha dentro da uva?

Primeiramente fui ao texto em francês, que domino pouco, e encontrei mudanças entre a primeira e a segunda edições, que passo a reproduzir abaixo:

“Tu mettras en tête du livre le cep de vigne que nous t'avons dessiné (¹), parce qu'il est l'emblème du travail du Créateur; tous les principes matériels qui peuvent le mieux représenter le corps et l'esprit s'y trouvent réunis: le corps, c'est le cep; l’ame c’est le grain; l’esprit c’est La liqueur; c’est. l'homme qui quintessencie l'esprit par le travail et tu sais que ce n'est que par le travail du corps que l'esprit acquiert des connaissances.” (Primeira edição – Canuto Abreu)


“Tu mettras en tête du livre le cep de vigne que nous t'avons dessiné (¹), parce qu'il est l'emblème du travail du Créateur; tous les principes matériels qui peuvent le mieux représenter le corps et l'esprit s'y trouvent réunis: le corps, c'est le cep; l'esprit, c'est la liqueur;l'âme ou l'esprit unis à la matière, c'est le grain. L'homme quintessencie l'esprit par le travail et tu sais que ce n'est que par le travail du corps que l'esprit acquiert des connaissances.” (Segunda Edição – Federação Espírita Belga

Marquei as diferenças de tradução em vermelho. Como se vê, foram apenas um esforço de Kardec em deixar mais claro o que ele queria dizer.

Tetê du livre

Canuto Abreu – frontal do livro
Evandro Bezerra – cabeçalho do livro
Guillon Ribeiro – cabeçalho do livro
Herculano Pires – cabeçalho do livro
Salvador Gentile – cabeça do livro

Cabeçalho –“título e primeiros dizeres de qualquer publicação”

Em suma, a idéia dos espíritos é colocar no começo do livro, no início do livro. Parabéns à FEB por finalmente colocar o desenho da vinha na capa de “O Livro dos Espíritos”.

Le cep du vigne

Canuto Abreu – a cepa de vinha
Evandro Bezerra – a cepa
Guillon Ribeiro – a cepa
Herculano Pires – o ramo de parreira
Salvador Gentile – a cepa de vinha

Cepa – “tronco da videira, donde brotam os sarmentos” (sarmento – vide: rebento da videira, braço ou vara da videira)

Le corp’s c’est le cep

Herculano: O corpo é o ramo
Todos os outros tradutores: o corpo é a cepa

l'esprit, c'est la liqueur

Canuto Abreu – o espírito, enfim, é o vinho
Evandro Bezerra – o espírito é a seiva
Guillon Ribeiro – o espírito é o licor
Herculano Pires – o espírito é a seiva
Salvador Gentile – o espírito é o licor

Liqueur vem do latim “liquefazer”. Há um sentido para a palavra que é o de substância fluida ou líquida. A palavra seiva, em francês é sève, que é o líquido que nutre os vegetais. Não encontrei nos dicionários que procurei uma sinonímia entre licor e seiva.

l'âme ou l'esprit unis à la matière, c'est le grain

Canuto Abreu – a alma é o bago (diferença da primeira edição)
Evandro Bezerra – a alma, ou espírito ligado à matéria, é o bago
Guillon Ribeiro – a alma, ou espírito ligado à matéria, é o bago
Herculano Pires – a alma, ou espírito ligado à matéria, é o bago
Salvador Gentile – a alma, ou espírito ligado à matéria, é o grão

Encontrei no dicionário de francês dois sentidos para grain que se aplicam ao texto: “semente de cereal” e “pequena fruta redonda.”
Bago, no dicionário de português, viria de baga e significa cada fruto do cacho de uvas.

Minha conclusão aqui é com a maioria dos tradutores (perdoe-me Gentile, mas sua tradução literal o traiu). Trata-se da uva.

L'homme quintessencie l'esprit par le travail

Canuto Abreu – O homem é quem, pelo trabalho destila o espírito (primeira edição)
Todos os outros autores – O homem quintessencia o espírito pelo trabalho

Quinta-essência: “substância etérea e sutil, extraída do corpo que a continha; extrato retificado, levado ao último apuramento”; “substância considerada pelos alquimistas como o quinto elemento, além da água, da terra, do fogo e do ar e obtida após cinco destilações sucessivas; o mais alto grau, o requinte, o auge; o que há de melhor”

Discussão:

Depois de todo este esforço de Hermenêutica, matéria sobre a qual Canuto Abreu tinha notório saber, o que posso concluir é o seguinte:o corpo é a rama da videira, a alma ou espírito unido à matéria é a uva e o espírito é o líquido dentro da uva, seu suco. Através do trabalho, o ser humano transforma o suco em vinho, ou seja, a destila, retira sua quintessência, transforma o espírito em um espírito do mais alto grau, superior, evoluído.

6.4.08

O Espiritismo, este Desconhecido.



Figura 1: Anunciação de Leonardo da Vinci

Os jovens universitários procuraram-me em casa. Estavam em uma tradicional Universidade Mineira e necessitavam apresentar um trabalho sobre o Espiritismo.

- O Livro dos Espíritos é uma boa referência? Perguntou um rapaz.
- Que tal apresentar a escala espírita? Afirmou outro.
- De onde vem o Espiritismo? Perguntou um terceiro.
- Você poderia assistir nossa apresentação? O professor não quer que apenas convidemos um especialista porque os grupos têm por costume não estudar o tema.

Concordei com tudo. Geralmente apresento alguns vídeos e programas sobre mediunidade. Os fenômenos têm seu papel no meio acadêmico, mas desta vez me foi negada a oportunidade.

A leitura de “O Livro dos Espíritos” foi meio rápida, para não dizer sumaríssima. O grupo parece ter lido exclusivamente a escala espírita (possivelmente, apenas as questões 101 a 113), abandonando toda a discussão de Kardec sobre a origem e natureza dos espíritos.

Para a aula ficar mais descontraída, resolveram fazer um teatro. O tema: mesas girantes. Um dos rapazes entrou sobre uma mesinha pequena, mal coberta por uma toalha branca, e a fazia movimentar-se. Gargalhada geral. Era-lhe impossível ocultar os pés e a assistência se divertia com seu jeito desajeitado. Ninguém percebeu o quanto seria difícil fraudar este tipo de fenômeno grosseiramente. Comecei a perceber o que é um preconceito cultural. Sem que ninguém conhecesse uma página sequer da Doutrina Espírita, o Espiritismo já estava condenado.

Posteriormente, após um histórico frágil e banal, apresentou-se a escala espírita. Mais uma surpresa! No texto, Kardec faz comparações entre as classes de espíritos que ele observou e os mitos cristãos medievais e da antiguidade. Kardec cita anjos, arcanjos, serafins, diabretes, bons gênios, duendes, trasgos, gnomos, etc. Qualquer pessoa minimamente racional que houvesse lido as duas primeiras partes do livro entenderia que o autor fez metáforas, que Kardec buscou nas crenças populares evidências culturais da manifestação dos espíritos, mas que em momento algum defendeu a existência real destes mitos, da forma que são contados às pessoas. Os universitários foram incapazes de percebê-lo. Apresentavam as classes e ordens de espíritos com uma risadinha irônica, própria de quem deseja ser sarcástico mas não tem coragem de fazê-lo abertamente.

Em princípio pensei em desmascarar a fragilidade do trabalho, apontando os equívocos grosseiros, mas calei-me. O professor de cultura religiosa não parecia ter o mínimo conhecimento espírita (o que é ainda pior), foi incapaz de cumprir com seu ofício e adverti-los. Sequer pareceu-lhe estranho o que diziam e nem passou por sua mente questionar-me. Era uma espécie de conluio silencioso. Eu fiquei com um sorriso amarelo, um pouco pasmo, ante o desrespeito e a ignorância. Não sei se agi certo, mas calei-me. E passados os anos continuo a perguntar-me como pode uma aula em uma instituição de ensino superior tornar-se um simulacro?

27.3.08

Erraticidade é o mesmo que Plano Espiritual?

Figura 1: Judeu Errante, por Gustave Doré

Talvez as gerações novas tenham esquecido do mito do judeu errante.
Conta-se que Ashverus, um sapateiro, teria sido amaldiçoado por Jesus no episódio da crucificação por recusar-se a ajudá-lo ou por tê-lo tripudiado. Ele foi condenado a viver eternamente sem morrer, vagando pelo mundo. Dizem algumas variantes da história que ele vagará até a parusia ou volta de Jesus.
Quem sabe Kardec se inspirou nesta história fantasiosa ao escolher a palavra erraticidade, para designar a condição do espírito no intervalo das encarnações, "que aspira a novo destino, que espera". (O Livro dos Espíritos, questão 224) Ao empregar a palavra erraticidade, Kardec não parece referir-se a um lugar, mas a um estado dos espíritos. No comentário da questão 226, ele deixa claro que os espíritos podem ser encarnados, errantes ou puros.
A palavra errante, segundo o mestre Houaiss, vem do latim "errans, errantis" e significa "que anda sem destino, que se engana".
Erraticidade, portanto, não é o mesmo que "mundo dos espíritos" (linguagem kardequiana) ou plano espiritual (termo empregado amiúde por André Luiz), posto que os espíritos puros, em tese, participariam do mundo espiritual mas não se encontram em erraticidade, porque não mais necessitariam reencarnar.



11.12.07

Uma Livraria em um Palácio

Sérgio Paulo, leitor do Boletim GEAE 510 pediu informações sobre como uma livraria funcionaria em um palácio (Palais Royal, Paris). Segue a resposta que enviamos a ele:


Foto 1: Palais Royal (Fonte: Wikipédia)

Quanto às fontes espíritas sobre o assunto temos o próprio Kardec na Revista Espírita, publicada em 1858 (página 31 da edição Edicel), reescrevendo um artigo publicado em revista da época pelo Sr. Du Chalard, que faz a citação "Dentu, Palais Royal."

O conhecido trabalho de Zêus Wantuil, Allan Kardec: Pesquisa Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação, publicado pela FEB, traz na página 75 do volume II um fac-simile da capa original de O Livro dos Espíritos na qual se lê: Paris, E. Dentu Librairie, Palais Royal, Galerie D'Orleans 13.


Foto 2: Fac-simile da primeira edição de O Livro dos Espíritos. (Fonte: O Primeiro Livro dos Espíritos, editora Ismael, 1957)

No livro mais recente, "Vida e Obra de Allan Kardec", escrito por Edson Audi (que morava em Paris na época em que fez a fotografia do livro), há a transcrição de uma parte das Obras Póstumas de Kardec na qual ele relata que o Sr. Dufaux tratou com o prefeito de polícia, que o remeteu ao Ministro do Interior para obter uma autorização para o aluguel de uma sala na Galeria de Valois, todas as terças feiras, no Palais Royal. (página 72)

Se você fizer uma pesquisa no Google sobre o Palais Royal vai encontrar textos, como o da Wikipédia, que esclarecem que ele apesar de sua nobre localização à frente do Louvre no 1er arrondissement, "nunca foi um palácio real". Ele foi criado a mando de Richelieu e que por esta razão era chamado de Palais Cardinal, tendo sido deixado para a coroa francesa. Os Orleães instalaram-se no palácio no século XVII. Em 1773, Luis Felipe II, Duque de Orleães mandou recuperar o palácio após um incêndio e abriu seus jardins ao povo (o que lhe valeu a alcunha de Philippe-Egalité). No texto da Wiki você encontra uma explicação sobre os aluguéis de parte do Palácio que eram utilizados com diversos fins:

"Mandou ainda encerrar os jardins com colunatas regulares que foram alinhadas com lojas (numa das quais Charlotte Corday comprou a faca que usou para apunhalar Jean-Paul Marat). Ao longo das galerias permaneciam damas da noite, e nos segundos andares estavam alojados cassinos de jogo. Existia um teatro em cada extremo das galerias; o maior foi a sede da Comédie-Française, a companhia de teatro estatal, a partir do reinado de Napoleão."

Não há dúvida que a "Librairie Dentu" funcionou anos a fio no Palais Royal. Se você pesquisar estas duas expressões no google encontrará uma enormidade de citações bibliográficas em teses, artigos e sites de língua francesa referindo-se a livros de diversos assuntos publicados por Dentu no século XIX.
Mais um detalhe: a segunda edição de O Livro dos Espíritos foi publicada pela Librairie Ledoyen que funcionava onde? No Palais Royal.

Uma livraria em um palácio: coisa de franceses...

(Colaboração de Carolina Jacomini Sampaio)

13.9.07

Como foi escrito O Livro dos Espíritos?


O Reformador deste mês publicou o artigo "Como foi escrito O Livro dos Espíritos", fruto do trabalho de pesquisa para as comemorações dos 150 anos da obra primeira de Kardec. O número traz uma entrevista sobre o Espiritismo em Sergipe, a reedição de um interessante artigo de Hermínio Miranda (que usava o pseudônimo de João Marcus) sobre poluição e muitos outros trabalhos que merecem ser lidos. Caso seja difícil ao leitor adquirir a revista, a FEB já disponibilizou o número eletrônico no endereço http://www.febnet.org.br/file/37/refset07.pdf