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5.6.20

A VISITANTE DESCONHECIDA

Madeleine Pelletier


O fim de tarde e início de noite de sábado, em época de pandemia, encontrou nosso grupo mediúnico reunido através de um aplicativo de internet, em respeito ao isolamento social. Resolvemos manter o encontro, o estudo, as preces e, caso algum dos três médiuns psicógrafos sentisse a influência espiritual, a escrita e leitura de textos ditados pelos espíritos.

Estamos estudando o livro “Memórias de um suicida”, atribuído a Camilo Cândido Botelho, pseudônimo de Camilo Castelo Branco. Uma vez por semana é atribuição de um dos membros preparar e apresentar uma síntese narrativa de um dos capítulos, e nessa semana a médium Ana iria fazer o estudo. Já estamos no capítulo 17, “Vinde a mim”, que narra as instruções de Aníbal de Silas na Cidade Universitária para Camilo e seus colegas, já bem recuperados das impressões iniciais após o ato violento contra a própria vida.

Ana lembrou-se do estudo do livro feito há 25 anos atrás, um quarto de século, quando outros membros de nossa reunião ainda estavam encarnados. Ela havia guardado pequenos cartazes com um esquema visual do Instituto Maria de Nazaré, suas seções e coordenadores.

Terminada a apresentação, inseriu-se uma música suave, “Meditação de Taís”, de Massenet, seguida da “Ave Maria” de Gounot, ambas instrumentais. Uma prece inicial, e os lápis correram sobre o papel em uma das nove residências participantes. Nossa coordenadora desencarnada enviou-nos uma mensagem, emocionada com os cartazes e as lembranças do grupo de estudos que houvera participado enquanto encarnada.

Ainda na terceira parte, a dirigente perguntou um a um sobre as percepções mediúnicas e imagens mentais dos participantes durante a prece e a música. O médium Gamaliel descreveu um espírito, denominado Pelletier, que ele percebia junto à médium Ana, durante a exposição. Para a mediunidade, a distância e o espaço diferem dos que percebemos com nossos cinco ou mais sentidos corporais. Pelletier se apresentou a ele como primeira médica do sexo feminino na França. Ela trabalhou como psiquiatra e Gamaliel lhe descreveu o cabelo curtinho, um corte quase masculino e uma espécie de casaca curta, roupa própria dos homens.

Ela acompanhava Ana durante a exposição, enquanto essa apresentava com clareza e concisão o capítulo de Yvonne. Ao final da narrativa, encontrou-se a imagem de Madeleine Pelletier, que temos acima, e o médium disse tê-la percebido como nessa imagem.

Madeleine Pelletier

Buscamos mais informações com Gamaliel após a reunião e, generosamente, ele nos informou que notou que ela atua “junto a profissionais que cuidam de crianças” como forma de reparação de alguma coisa. A impressão que a energia dela repassava era de compaixão e imensa entrega e dedicação ao trabalho, ou seja, causou uma boa impressão a ele. Ele igualmente percebeu um “séquito de enfermeiras por ela coordenada” que distribuía uma “chuva de luz prateada”, direcionada às cabeças dos doentes que se encontravam em uma possível enfermaria, com leitos lado a lado.

Como já vimos bastante na literatura espírita, e especialmente no livro que nos encontramos estudando, nossas reuniões não afetam apenas a nós, mas costumam ser úteis nas atividades espirituais de auxílio e recuperação de espíritos em estado de perturbação ou sofrendo efeitos negativos das escolhas que fizeram na última encarnação. O que falamos na reunião não fica apenas entre ouvidos humanos. Os estudos são úteis para um número indeterminado por nós de pessoas desencarnadas. Lembrei da expressão cunhada pelo autor materialista português: “Nossos amigos, os discípulos de Allan Kardec”.

Madeleine Pelletier (1874-1939), identificando-se, despertou nossa curiosidade usual. Buscando na internet, descobrimos que foi a primeira mulher a obter o diploma de psiquiatria na França.

Anne Pelletier teve uma vida complicada. Ficou órfã de pai aos dez anos de idade, sendo de família pobre, e abandonou os estudos na adolescência, época em que tinha muitos conflitos com a mãe cristã. Aproximou-se de grupos socialistas e anarquistas que a influenciaram a voltar a estudar aos vinte anos. Obteve o baccalauréat em 1896, equivalente ao nosso ensino médio, e inscreveu-se no PCN, um curso que certificava estudos químicos, físicos e naturais, pré-requisito para tornar-se médica. Não se sabe quando ao certo ela adotou o nome de Madeleine.

Achei curiosa a troca. Anne seria o nome da mãe de Maria, e Madeleine da apostola apostolorum, a mais reconhecida apóstola de Jesus. Haveria alguma relação na escolha do novo nome com a tradição cristã?

Depois do PCN, Madeleine se interessou pela antropologia, onde trabalhou com Letournou e Manouvrier nas teorias de Broca sobre o cérebro e o crânio. Observando que essas ideias eram usadas como forma de explicação da pretensa inferioridade intelectual da mulher, ela trocou seus estudos por um concurso para residência médica em asilos, para o qual teve que lutar, porque era necessário ter direitos políticos e mulheres não votavam na França, naquela época.

Ela conseguiu vencer as barreiras e, em 1903, defendeu a tese “A associação de ideias na mania aguda e no atraso mental”. Se a memória não me engana, o tema estava fervilhando na Europa, e foi estudado por Jung que fez publicações em psiquiatria com estudos experimentais de associação de ideias. O conceito de mania era diferente do atualmente empregado pelos psiquiatras.

Ela trabalhou então em dois “asilos” franceses, entrou na maçonaria e publicou artigos técnicos. Com um consultório pouco procurado, tornou-se médica de urgências, e passou a atender muitos pobres, acompanhada por um agente de polícia.

Na sua vida política, filiou-se a um movimento de mulheres (“Solidariedade das mulheres”), aproximou-se da Seção Francesa Internacional Operária (SIOF), mas os abandonou, desencantada, em 1910. Trabalhou na primeira guerra mundial pela cruz vermelha, auxiliando combatentes. Após mais um desencanto, tornou-se antimilitarista.

Ela teve uma incursão no Partido Comunista e viajou à Rússia pós-revolucionária, onde se desencantou das condições de vida da população e com a ação da polícia. De volta à França, suas publicações não agradavam muito ao partido, e ela acabou se afastando em 1926.

Ela se aproximou novamente de anarquistas e socialistas, vivendo como médica, e acompanhando a questão fascista que ganhava dimensão na Europa e mesmo na França. Em 1937, anos após ter sida acusada de praticar abortos (a acusação era sem comprovação) ela teve um AVC e ficou hemiplégica, tendo que aceitar a ajuda dos amigos. Dois anos depois, em um ambiente de “caça aos abortistas”, foi acusada de participar de um aborto de uma jovem de 13 anos, mas declarou-se inocente. Reconheceu-se que ela não poderia tê-lo realizado pela sua condição física, contudo, considerada um perigo “para si, para outrem e para a ordem pública”, foi internada em uma clínica psiquiátrica, onde desencarnou após um segundo acidente vascular cerebral. (A maioria das informações foi retirada da Wikipédia brasileira e francesa).

Ana é médica pediatra e intensivista, e atende a crianças pobres ou de classe média em um posto de saúde. Passados mais de oitenta anos da desencarnação de Pelletier, vê-la em uma reunião mediúnica, dedicando-se à infância e ao atendimento da pobreza não nos causa nenhum assombro. Sua dedicação aos pobres e à emancipação da mulher, assim como seu ideal de um mundo menos desigual, pesam na balança em seu favor.

Desnecessário dizer que Gamaliel não conhecia a história de Madeleine, que nos pôs a pensar bastante sobre nossas ações e sobre a sabedoria divina, sempre abrindo caminhos novos para seus filhos, mesmo os que não acreditam nEle. Madeleine Pelletier me fez lembrar também de outra mulher que teve passagem por organização comunista e que ficou famosa após a morte, através da mediunidade de Chico Xavier, dessa mesma época, só que brasileira e teosofista: Nina Arueira.

10.3.20

MEDIUNIDADE E ATENDIMENTO DOS ESPÍRITOS EM REUNIÃO MEDIÚNICA




Mais uma pergunta do seminário realizado em Contagem-MG.

O médium ostensivo pode ser dialogador? Ou fazer preces?

Em nossa experiência tentamos preservar o exercício da mediunidade no momento da reunião mediúnica aos que têm faculdades ostensivas. Isso não significa que estejam impedidos de contribuir de outras formas na reunião se for necessário. Na falta de atendentes, ou de médiuns-passistas, um médium ostensivo pode ser convidado a realizar essa atividade no grupo, em caráter excepcional.

Nesse caso, o dirigente da parte mediúnica da reunião pede ao médium para atuar como tal, e ele evita a prática da mediunidade naquela sessão, ou a realiza após o atendimento ou atividade de passes.

Cabe à direção da reunião evitar esse tipo de situação, compondo seu grupo com médiuns e atendentes suficientes para a realização cotidiana de suas atividades.

27.2.20

AVALIAÇÃO DE REUNIÕES MEDIÚNICAS



No Seminário oferecido em Contagem-MG, em 2019, foi feita uma pergunta sobre avaliação de reuniões. Passamos a experiência do nosso grupo mediúnico:

Que você pode nos falar sobre as avaliações periódicas da reunião e dos médiuns?

Todas as sessões temos um tempo reservado à análise das comunicações e das percepções de todos os membros da reunião durante a parte mediúnica. Como ela é feita imediatamente após o encerramento das comunicações, ficou conhecida como “terceira parte” pelos membros do grupo, mas poderia ter outro nome mais formal.

Nessa parte da reunião, como realizamos comunicações simultâneas, as duplas médium-atendente narram de forma objetiva e resumida como foram as comunicações que aconteceram. Os médiuns podem falar ao grupo os sucessos e insucessos das escolhas do atendente durante sua atividade, os atendentes podem explicar o que não entenderam bem do relato durante a comunicação, outros membros podem falar de suas percepções enquanto a comunicação se dava e que podem estar associadas a ela, e, sem criar constrangimentos ou censurar, das sugestões para os participantes da reunião. Outra coisa que pode ser feita é o próprio médium falar ao grupo de suas inseguranças quanto à comunicação e das suspeitas de animismo ou do que consideram ser suas influências sobre a comunicação.

Se essa atividade não for realizada logo após as comunicações, passados alguns dias, tendemos a esquecer o que aconteceu, perder detalhes e falar de eventos que os demais membros não se recordam bem.

Além da “terceira parte”, fazemos avaliações mais amplas, semestrais ou anuais. Nessas avaliações colhemos a opinião dos membros do grupo para decidir a necessidade ou não de mudanças, seja de função, seja do ambiente material, seja da rotina da reunião (preces, leituras, estudos, parte mediúnica, terceira parte), seja da troca de funções na reunião (geralmente a troca de dirigentes), seja a análise de insatisfações e de aspectos positivos ou realizações importantes feitas pelo grupo. Os encontros de cunho social fora do centro espírita são discutidos nessas oportunidades, e a participação em campanhas da casa, atividades sociais e outras. Sempre realizamos mudanças, preferencialmente a partir de consensos do grupo.

4.2.20

SENSAÇÕES DE ESPÍRITOS COMUNICANTES




Reunimo-nos em Contagem - MG para o seminário "Conversando com os espíritos". Após a parte de diálogo, foram feitas perguntas sobre o tema e nem todas puderam ser respondidas. Hoje publicaremos a resposta de duas das questões.

1. O que fazer em uma reunião na qual se manifesta um espírito que se considera morador de rua, queixa-se de frio e pede ajuda?

O que entendemos com base nas explicações de Allan Kardec é que a sensação de frio e outras sensações orgânicas são recordações de experiências vividas pelos espíritos quando encarnados. A sensação em si não é problema para o espírito comunicante. A questão que nos preocupa é um espírito desencarnado não ser capaz de entender sua condição, o que sugere uma perturbação espiritual. O papel do atendente é inspirar confiança e conversar para que o comunicante possa entender o que aconteceu consigo e ser capaz de perceber o mundo espiritual e sua condição imediata de espírito comunicante.

Muitos atendentes creem que seu papel é diminuir o desconforto do comunicante, e atuam fazendo sugestões, preocupados com a sensação de frio. Isso pode tranquiliza-lo momentaneamente, mas não é a contribuição mais relevante que o atendente pode dar.

Fazendo uma comparação, é como se déssemos um medicamento antitérmico (dipirona, paracetamol...) para uma pessoa que se queixa de febre, mas que é portadora de uma doença infecciosa. O remédio diminuirá momentaneamente o sintoma, e pode mascarar para o paciente a necessidade de tratar sua doença.

2. Considerando que os espíritos mantêm sensações orgânicas, é legítimo que os mesmos recebam tratamentos (até mesmo alimento ou água) para suas necessidades apresentadas?

Da mesma forma que a pergunta anterior, as sensações orgânicas como fome e sede não são o objeto central do atendimento espiritual. Cabe ao atendente escutar o espírito para que ele seja capaz de contar sua história pessoal e como chegou à condição em que se encontra. Na medida em que ele reflete o que aconteceu com ele, consequentemente a influência das memórias de sensações orgânicas passa para um segundo plano, tornam-se menos urgentes.

É necessário cuidado com o entendimento de que o papel do atendente é apenas tratar das necessidades imediatas que os espíritos apresentam via médium, mesmo porque, não sabemos se realmente somos capazes de “oferecer água” a quem relata uma sensação de sede. É apenas uma sugestão, no sentido próximo ao da hipnose.


Agradecimentos: a Lourenço e Waldemar K. Duarte pela troca de ideias.

18.1.20

O QUE FOI CONSIDERADO DIFÍCIL EM O LIVRO DOS MÉDIUNS?


Allan Kardec

Na última publicação do Espiritismo Comentado, analisamos uma pesquisa realizada com participantes de reuniões mediúnicas em sociedades espíritas. Outra questão que foi levantada aos participantes: “Que assunto você considera mais difícil a compreensão?”

Cerca de 9% dos respondentes disseram que não têm dificuldade na leitura de O Livro dos Médiuns por causa, principalmente, da participação em grupos de estudo e dedicação.

Cerca de 12% disseram que todos os temas do livro são difíceis, devido à sua complexidade e por serem iniciantes.

Dos 264 participantes da pesquisa, 249 respondentes identificaram alguma parte de O Livro dos Médiuns que consideram difícil.

Vou apresentar em ordem decrescente de indicações de dificuldade:

O capítulo “Dos Médiuns” foi considerado o mais difícil por cerca de 16% dos participantes da pesquisa. Os respondentes disseram achar difícil identificar e classificar os médiuns. Allan Kardec estabeleceu diversos critérios de classificação, o que significa que um médium pode corresponder a diversas das categorias apresentadas. Outro problema que podemos levantar, é a adoção de nomes criados  pelo movimento espírita, diferentes dos adotados por Kardec, com o passar do tempo, em função das influências de autores não espíritas. Médium de desdobramento, por exemplo, é uma classificação que Kardec não utilizou, mas que é amplamente empregada no meio espírita brasileiro. Kardec utilizou para esse fenômeno médium sonambúlico, quando atua como médium de um Espírito estranho, e sonâmbulo, um fenômeno de emancipação da alma, no qual a pessoa tem percepções da realidade sem o uso dos cinco sentidos.

O segundo assunto mais difícil foi “O papel dos médiuns nas comunicações espíritas”. Os respondentes que identificaram motivos, referiram-se principalmente à questão do animismo, que também é um termo não empregado por Allan Kardec om o sentido contemporâneo. Alguns levantaram a questão da distinção entre animismo e mistificação. O próximo assunto menos compreendido foi o capítulo “Das contradições e mistificações”.

O capítulo “Dos sistemas”, que trata das explicações possíveis a fenômenos mediúnicos e similares, é o próximo em grau de dificuldade e foi considerado complexo.

O capítulo “Da obsessão” o próximo a receber queixas dos participantes. Ele também foi considerado complexo.

O outro capítulo pouco entendido por cerca de 6% dos respondentes foi “Da bicorporeidade e da transfiguração”. 

Segue o assunto “Da identidade dos espíritos”. Os participantes consideraram difícil identificar mistificadores, o que talvez não seja bem uma questão de entendimento do conteúdo do capítulo, mas da prática mediúnica.

Por fim, 4% dos respondentes consideraram complexo o capítulo “Do laboratório do mundo invisível”.

Com base nos resultados, algumas ações podem ser pensadas. Alguns desses deveriam ser de conhecimento geral por parte dos espíritas, como os tipos de médiuns, a questão das mistificações, as diversas explicações possíveis para fenômenos aparentemente mediúnicos, os tipos e mecanismos das obsessões, a identificação dos espíritos e como os espíritos realizam fenômenos de efeitos físicos. Os temas em questão merecem um estudo cuidadoso e uma apresentação clara por parte dos expositores e dos participantes de grupos de estudo das casas espíritas.

Os grupos mediúnicos em atividade e as casas espíritas poderiam avaliar entre os participantes de reuniões mediúnicas que assuntos são considerados difíceis e promover leituras, estudos e eventos para torna-los mais acessíveis a todos.

14.1.20

O LIVRO DOS MÉDIUNS: ESSE DESCONHECIDO



Uma instituição espírita regional fez uma pesquisa com 264 participantes de reuniões mediúnicas, cujo tema central era “O Livro dos Médiuns”.

O subtítulo do livro é “Guia dos médiuns e dos evocadores”, e foi escrito por Allan Kardec porque muitas pessoas o procuraram após a publicação de “O Livro dos Espíritos”, perguntando sobre a parte prática, sobre o exercício da mediunidade. Kardec, então, publicou um primeiro livro chamado “Instruções práticas sobre as manifestações espíritas” (1858), cujo desenvolvimento gerou “O Livro dos Médiuns” (1861).

O Livro dos Médiuns está para a prática da mediunidade assim como as leis de Newton estão para a física. Ninguém pode dizer-se físico ou estudante de física e ignorar essa formulação do pesquisador inglês, publicada em 1687. Mesmo com todo o desenvolvimento e pesquisa investidos nessa disciplina, o conhecimento considerado básico é fundamental para que se possa ser capaz de entender seus avanços.

O resultado da pesquisa foi que 67% dos membros de reuniões mediúnicas responderam ter lido todo o livro. Quando se perguntava se o livro foi estudado em grupo, o número cai para 28%. Na terceira pergunta, ou seja, se o livro foi estudado mais de uma vez em grupo, o número cai para 7%. 

Não se trata de frequentadores de centros espíritas em geral, mas membros de reuniões mediúnicas, que, segundo Kardec, deveriam se instruir antes de procurar a prática.

Essa pesquisa merece ser ampliada. Se você participa de um grupo de prática mediúnica, levante os números. Se eles forem como os da pesquisa, está na hora de estudar “O Livro dos Médiuns”.

28.11.19

INTERRUPÇÃO TEMPORÁRIA DA MEDIUNIDADE




Uma companheira de trabalhos de Minas Gerais me escreveu explicando que é médium psicofônica, mas que as manifestações diminuíram bastante, chegando a ficar diversas reuniões seguidas sem obter comunicação. Ela questiona se isso é um problema.

Allan Kardec trata dessa questão em um capítulo no qual trata da perda e suspensão da mediunidade, em O livro dos médiuns. Está no capítulo 17, Da formação dos médiuns. A primeira coisa que fiz foi reler o capítulo e dá para perceber como ele é rico em informações.

A primeira coisa que nos deparamos ao ler, é que há diversas possíveis causas para a perda ou suspensão da mediunidade, mas a primeira coisa que os espíritos informam a Kardec é que muitas vezes se verifica uma “interrupção passageira”.

Recordei de Yvonne A. Pereira, que na introdução do livro Memórias de um suicida, informa que ficou quatro anos sem praticar a mediunidade, de forma involuntária. Uma mediunidade ostensiva como a de Yvonne, nos faz pensar que a faculdade mediúnica não funciona como os órgãos dos sentidos, sendo passível de descontinuidade no tempo.

Lembrei também dos comentários de alguns colegas de reunião, que viajam de férias, por exemplo, e faltam uma ou mais semanas à reunião. Ao voltar, comentam ao final de reunião uma dificuldade maior no exercício da mediunidade, o que volta com a regularidade da frequência das sessões.

No texto de Kardec, os espíritos levantam diversas possibilidades:
  1.  Não entendem que a perda esteja associada ao esgotamento do fluido. A essa questão respondem acentuando o desejo ou possibilidade de comunicação pelos espíritos.
  2.  Uso frívolo ou ambicioso das faculdades afasta os espíritos sérios.
  3.  Ao afastar-se, um espírito bom pode privar o médium da sua faculdade, para que entenda que não é algo que depende apenas dele.
  4.  Essa suspensão pode ser realizada pelo espírito como uma promoção de repouso necessário ao médium, e uma proteção para que espíritos inferiores não utilizem sua faculdade.
  5.  Alguns médiuns passam por um período de interrupção mesmo sem necessidade de repouso, trata-se de uma prova de sua perseverança.
  6.  A interrupção da faculdade mediúnica não significa necessariamente uma censura espiritual

Conclui-se, portanto, que se deve lidar com a mediunidade sem expectativa de comunicação contínua, em todas as reuniões, sendo normal e possível variações nos desempenhos de médiuns. Devemos evitar a expectativa de desempenho, que pode gerar algum constrangimento ou desejo de obter comunicação para atender ao grupo, acabando por incentivar fenômenos anímicos, ou seja, produções da própria mente do médium sem influência espiritual.

12.11.19

ORIGEM DA RESTRIÇÃO ÀS EVOCAÇÕES DE ESPÍRITOS NO BRASIL



Foto de Frederico Júnior, médium do Grupo Ismael


É sabido que Kardec usava as evocações como uma forma de obter informações sobre casos específicos que lhe chegavam às mãos. Contudo, ele não as recomendava como técnica universal e infalível na prática mediúnica.

As evocações nominais, segundo Kardec, demandam médiuns especiais, identificados por ele como flexíveis e positivos. [1] Os médiuns positivos, apresentados no capítulo 16 de O Livro dos Médiuns, segundo o próprio Kardec, são muito raros. Os médiuns flexíveis, que Kardec menciona apenas no capítulo 16, item 191, parecem ser o mesmo que os maleáveis, definidos acima. São capazes de dar comunicações de “diversos gêneros”, e ditadas por “quase todos os espíritos”.

Atento para com suas limitações ele advertia os espíritas para o risco de fraude por parte dos espíritos: “evoca um rochedo e ela te responderá. Há sempre uma multidão de espíritos prontos a tomar a palavra sob qualquer pretexto”[2].

Alguns autores atribuem a censura da prática das evocações a Chico Xavier. Eles geralmente se lembram da frase: o telefone toca de lá para cá. Honestamente, acredito que não seja verdade. Chico participava de reuniões onde ocorriam evocações mentais, nas quais parentes de pessoas desencarnadas pediam à espiritualidade a sua comunicação. Havia apelos mentais[3]. Tantos, que no livro Missionários da Luz, os espíritos em uma sessão de materialização recomendam que as pessoas cantem, para que se desligassem do petitório mental (p. 118). Isso significa que mentalmente se solicitava da espiritualidade a presença dos familiares, entre outros desejos, embora não se pudesse assegurar que eles estariam em condições de se comunicar, como vemos no capítulo 25 de O Livro dos Médiuns na pena de Allan Kardec: há diversos motivos para que os espíritos evocados não possam se manifestar. A explicação do Chico aos familiares, referindo-se ao telefone, é mais um eufemismo, visando preservá-los da dor da perda, mais uma vez revivida.

Estudando as informações publicadas sobre o Grupo Ismael, do Rio de Janeiro, encontrei algumas orientações dadas pelo “espírito guia” do grupo pela mediunidade de Frederico Júnior. Ele dizia:

“Não se ofereçam para evocações. Quando um centro não lhes parecer homogêneo, neguem-se ao trabalho, porque assim pouparão elementos do seu cérebro e não darão ocasião a divertimentos, a que muitos estão acostumados.
A sua linguagem deve ser esta:
Eu só trabalho quando meu guia esteja a meu lado, e desde que meus companheiros não me proporcionem a satisfação desta vontade, eu não trabalho: porque serei uma máquina sem maquinista, serei uma bússola sem agulha, serei um navio sem leme, e o meu estado é perigoso.” – Ismael via Frederico Júnior[4]

Creio que a orientação de Ismael se deve à época e aos conhecimentos do grupo. No Brasil ainda era muito comum a prática da mediunidade (e a de efeitos físicos também) para atrair adeptos. O grupo de Ismael era um dos primeiros a se dedicar ao exercício sistemático da mediunidade.

Se o público participante, que ignorava o espiritismo e os cuidados com a mediunidade, fosse incentivado a ir, movido exclusivamente pela curiosidade, os médiuns ficariam expostos a vexames públicos, às reações psicológicas dos assistentes da reunião e de outras consequências desagradáveis, diante da prática pública e oral de evocações. A prática mediúnica se tornaria uma espécie de espetáculo, onde as pessoas iriam querer que seus desejos e exigências pessoais fossem atendidos pelo médium. Muito diferente do ambiente de estudo criado por Allan Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em Paris. Talvez por isso tenhamos a orientação restritiva do espírito que se identificava como Ismael.

O cuidado intransigente da presença do "guia" sugere fragilidade da direção encarnada da reunião mediúnica. O médium se orienta preferencialmente através do espírito que reconhece como guia. Sabemos que é uma atitude arriscada, porque nem sempre o médium é capaz de identificar esse espírito e outro espírito pode se passar por ele. Seria um cuidado próprio para a época e específico para o Grupo Ismael? Penso que sim.

Não há como afirmar sem dúvida que essa é a origem da restrição às evocações verbais nas reuniões mediúnicas brasileiras, mas é o que encontrei de mais antigo, e Chico Xavier ainda usava calças curtas.




[1]KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 40 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. [Segunda parte - Das manifestações espíritas. Capítulo 25 - Das evocações » Considerações gerais, item 269]
[2] KARDEC, Allan. Evocações dos animais in: O Livro dos Médiuns. 40 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. [Segunda parte Segunda parte - Das manifestações espíritas - Das evocações. Capítulo 25 - questão 283 - 36ª.]
[3] LUIZ, André. Materialização. in: Missionários da Luz. 13 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.  p. 117-118
[4] RICHARD, Pedro. Frederico Pereira da Silva Júnior, Reformador, Rio de Janeiro, ano 32, n. 18, 16 set. 1914,  p. 319


19.10.19

CONVERSANDO COM OS ESPÍRITOS



reuniao-mediunica.jpg

Uma reunião sem mesa. Não temos por hábito colocar as mãos para cima...


O último número do Correio Fraterno fez uma ótima síntese do nosso seminário "Conversando com os espíritos", baseado no livro de mesmo título publicado pela Lachâtre.

A imagem lembra bem nosso grupo. Uma reunião em círculo com cadeiras tipo universitário onde se pratica a mediunidade e se faz comunicações simultâneas. Um coordenador atento, médiuns de psicofonia (falantes), psicografia (escreventes) e desdobramento (sonambulismo mediúnico).

Os espíritos se comunicam contando suas histórias, dramas pessoais e sofrimentos, e aproveitamos uns poucos minutos que temos para auxiliá-los da melhor forma possível. Às vezes espíritos superiores, pessoas antes ligadas à nossa casa e já desencarnadas e espíritos que participam dos trabalhos "do outro lado" nos dão uma orientação, uma palavra de incentivo, um carinho.

Ao longo dos anos, estudando mediunidade em diversos autores na primeira parte da reunião, praticando na segunda parte e avaliando o que foi feito na terceira parte, observamos que os princípios da técnica de relação de ajuda, desenvolvida por Rogers no século passado, são úteis em nosso trabalho e mais úteis ainda para os espíritos em sofrimento. 

Verificamos, estudando Kardec, que alguns dos princípios do atendimento aos espíritos já se encontram esparsos em suas publicações, principalmente na Revista Espírita. Espíritos superiores foram falando "homeopaticamente", como lidar com espíritos obsessores ou em situação de sofrimento.

Confiram a bela síntese do seminário que a equipe do Correio Fraterno publicou recentemente, após estar conosco, clicando no link abaixo:





24.1.19

A COMUNICABILIDADE DOS ESPÍRITOS É UMA PREMISSA METAFÍSICA NO ESPIRITISMO?


Mais recentemente, com o retorno da filosofia ao ensino médio brasileiro e a ampla difusão das obras de Allan Kardec, com iniciativas como as da FEB e do Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec (IPEAK), têm surgido novos debates com base em leituras, não apenas das obras básicas do fundador, mas também da Revista Espírita, no período em que ele era o editor (1858-1869), que contém contribuições que deixam mais claros alguns pontos do pensamento espírita.


Vi por esses dias um debate sobre os princípios a partir dos quais o espiritismo foi elaborado. Na filosofia, esses princípios podem ser ideias consideradas corretas (premissas ou postulados) ou justificadas racionalmente. Já os dogmas, embora tenham o sentido original de premissas de sistemas filosóficos na antiguidade, acabaram por ser entendidos como pontos de vista indiscutíveis sobre os quais se fundam as religiões, especialmente a partir do cristianismo medieval.



Um ponto aparentemente óbvio, mas que foi e parece que continua sendo fonte de debates, diz respeito à existência e comunicabilidade dos espíritos. É uma premissa adotada por Kardec como verdadeira e indiscutível (dogma) ou é o resultado de uma cuidadosa observação de fatos?



Na Revista Espírita de abril de 1869, encontra-se um artigo curioso, intitulado "Profissão de fé espírita americana", onde possivelmente Allan Kardec comenta uma publicação do jornal Salut, de New Orleans, de 1867, no qual se divulgam os resultados de um congresso espiritualista norte americano. O evento gerou uma "profissão de fé" dos espiritualistas dos Estados Unidos, e Kardec destaca as muitas semelhanças entre pontos de vista e as muito poucas diferenças. Como foram movimentos desenvolvidos separadamente, Kardec argumenta como um ponto favorável ao espiritismo.



Uma questão que ele destaca em seus comentários é a da origem da proposição da comunicabilidade dos Espíritos no espiritualismo e no espiritismo. Lê-se abaixo:



"Essa crença não é mais o resultado de um sistema preconcebido nesse país do que o Espiritismo na França. Ninguém a imaginou; viu-se, observou-se e tiraram-se conclusões. Lá, como aqui, não se partiu da hipótese dos Espíritos para explicar os fenômenos, mas dos fenômenos, como efeito, chegou-se aos Espíritos como causa, pela observação. Eis uma circunstância capital que os detratores se obstinam em não levar em conta." (Revista Espírita, abril de 1869, p. 99. Tradução de Júlio Abreu Filho pela EDICEL)


Cabe lembrar também que não se trata de crença ingênua, porque Allan Kardec examinou as diferentes formas de explicação dos fenômenos estudados, como se pode ler no capítulo IV da primeira parte de O Livro dos Médiuns (Dos sistemas), verificando a capacidade explicativa de cada um deles e delimitando os fenômenos que só seriam devidamente explicados pelas comunicabilidade dos Espíritos.

Camille Flammarion não ficou satisfeito com este trabalho de Allan Kardec e continuou estudando empiricamente os fenômenos atribuídos aos Espíritos de forma geral. Publicou em 1865 o livro "As forças naturais desconhecidas", no qual analisa e considera verdadeiros diversos fenômenos estudados, mas ainda não conclui pela indubitabilidade da comunicação dos espíritos. Essa conclusão veio em 1922, quando publicou o terceiro livro de "A morte e seu mistério".

Vê-se, portanto, que seria um erro entender que o Espiritismo propõe a comunicabilidade dos Espíritos apenas como ideia ou princípio metafísico, mas que se trata do resultado de observações de fenômenos psicológicos (ou parapsicológicos, como queira o leitor) e que não nega a possibilidade de outras explicações, exigindo do seu observador uma análise cuidadosa para não levar "gato por lebre", ou seja, não confundir com as produções do inconsciente, com a imaginação ativa, com a fantasia, fraudes intencionais ou não e outras explicações possíveis.

7.9.18

O QUE É A TERCEIRA PARTE DA NOSSA REUNIÃO MEDIÚNICA?



Antes de cursar psicologia, já havia herdado uma inquietação dos ciclos de estudos de mediunidade dirigidos por meu pai na União Espírita Mineira: como distinguir mediunidade de animismo? 

Há um critério extremo, para quem tem faculdade mediúnica bem caracterizada: as informações corretas, não aprendidas anteriormente, transmitidas através da fala ou da escrita sobre pessoas que podem ser pesquisadas a partir de parentes ou pela literatura. 

E para quem tem uma faculdade incipiente? E os muitos médiuns que ficam se perguntando se as ideias que lhes vêm à mente são suas ou de terceiros? 

Uma das tentativas de possibilitar ao médium uma auto-análise de suas faculdades foi criar em nosso grupo mediúnico uma "terceira parte". O que é isso? Na primeira parte da reunião mediúnica estudamos um livro, geralmente que trata sobre mediunidade ou sobre a vida no mundo espiritual. Na segunda parte temos as comunicações mediúnicas, atendimentos aos espíritos, preces, passes e outras atividades espirituais. Na terceira parte, apresentamos sinteticamente as comunicações, médiuns e outros membros podem relatar o que lhes veio ao campo da consciência durante a parte mediúnica e médiuns e outros membros analisam os atendimentos aos espíritos e podem apresentar outras percepções que tiveram durante os diálogos, reações emocionais dos espíritos e dos próprios médiuns, atuações de outros espíritos durante a reunião, entre outras questões, que nos permitem conhecer melhor a faculdade de todos os membros. Muitos médiuns ainda em desenvolvimento das faculdades sentem-se mais seguros de relatar o que percebem durante a reunião, porque veem que não se tratam de frutos de sua imaginação pessoal ou animismo.

Esse e outros assuntos sobre mediunidade foram tratados no livro "Conversando com os espíritos", publicado pelo Instituto Lachâtre em agosto de 2018. O livro traz muitas das nossas experiências vividas ao longo de mais de trinta anos de reunião mediúnica, sempre remetendo o leitor à literatura espírita.

Ficha Técnica

Conversando com os espíritos
Jáder dos Reis Sampaio
Lachâtre
256 páginas
155 x 225 mm

Pode ser adquirido com desconto no site do Instituto Lachâtre, para envio pelos correios: 

http://www.lachatre.com.br/loja/conversando-com-os-espiritos.html

Aos leitores de Minas Gerais, já se encontra na Livraria Ysnard Machado Ennes, na Associação Espírita Célia Xavier e na União Espírita Mineira.

10.11.17

UM CASO ENVOLVENDO MEDIUNIDADE E TRANSTORNO DELIRANTE




O jornal brasileiro de psiquiatria (v. 6, n. 4, p. 311-314, 2015) publicou um caso apresentado por autores da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade de Pernambuco, de transtorno delirante induzido.

Também conhecido como “folie a deux” (loucura a dois) trata-se de um tipo de psicose não esquizofrênica nem bipolar na qual um delírio (uma crença falsa, que pode ser inclusive factível) é compartilhado por duas pessoas que convivem ou tem um relacionamento próximo.

Há diversos subtipos descritos na literatura psiquiátrica atual: o erotomaníaco (o paciente acha que alguém o ama, geralmente alguém famoso), o grandioso (o paciente acredita que tem um grande talento, que ninguém reconhece, ou que fez uma descoberta importante), o ciumento (que acredita que o cônjuge é infiel, sem qualquer evidência), o persecutório (que crê que há uma conspiração ou que alguém o persegue, engana, difama, droga ocultamente, ou impede o desenvolvimento de sua carreira profissional) e o somático (que acha que existem insetos ou parasitas internos, ou que exala um odor, sem qualquer base na realidade).

Não se trata de uma crença momentânea (que todos podemos ter), que se corrige com evidências em contrário e com o tempo, mas uma crença falsa e persistente que ninguém dissuade, mantida por um tempo dilatado, como meses, e que afeta o comportamento e o relacionamento do portador de transtorno delirante.

Por que estou falando de uma doença mental em um blog sobre espiritismo? 

Por que no caso apresentado pelos psiquiatras, a paciente M. de 51 anos, compartilhou com sua mãe de 81 anos, que se considerava médium, mas que aparentemente não frequentava nenhuma instituição espírita, diversas crenças, pelo menos questionáveis. 

A primeira é que lhe tinha sido revelado que se ela viajasse com o marido para a Europa, ela morreria. M. cancelou a viagem. 

Dezesseis anos antes da revelação, M. teve uma psicose puerperal (pós parto) e foi tratada de forma medicamentosa, e a mãe, naquela época, falou que havia maus presságios com relação ao bebê. M. passou a crer que se tratava de um espírito ruim e chegou a tentar matá-lo.

M. foi tratada pelos psiquiatras com um medicamento antipsicótico e foi orientada a se afastar da mãe durante o tratamento. Passados 14 dias os sintomas desapareceram, e seis meses depois o medicamento foi retirado gradualmente.

Dois anos depois, o marido informou que a paciente continuou sem sintomas e passou a se relacionar com a mãe de forma menos frequente.

Este caso traz a discussão da questão da mediunidade e doença mental e o cuidado que se deve ter com informações consideradas obtidas pela via mediúnica. 

Os psiquiatras não avaliaram a mãe, mas supõe-na psicótica, se considerarmos o diagnóstico que fizeram a partir do relato da filha, e talvez tenha influenciado o seu não envolvimento com nenhuma instituição religiosa.

Supondo que a mãe fosse realmente médium, que não fosse psicótica e que ela soubesse do quadro de psicose puerperal que a filha apresentou, ela deveria ter tido cuidado com o relato de suas percepções. Uma criança com experiências ruins no passado, vem para ser amada, cuidada e educada, segundo o pensamento espírita. O cuidado e dedicação dos pais é, com certeza, uma fonte importante de experiências para que ela reavalie os impulsos que traz do passado.

Este caso mostra que mediunidade, para ser praticada para o bem-estar das pessoas, demanda estudo e reflexão ética, sensatez e humildade.

Este caso também ilustra a importância de quem orienta pessoas, em um centro espírita, ter pelo menos noções de psicopatologia. 

Supondo que a mãe de M. fosse realmente psicótica (independente de ser ou não médium), não se deveria incentivar o desenvolvimento da mediunidade, mas ela chegaria à casa espírita com uma série de relatos de percepções espirituais, que na verdade seriam delírios. Conhecê-la, por exemplo, em um curso sobre mediunidade, evitaria que ela viesse a gerar falas delirantes em uma reunião mediúnica, prejudicando os objetivos do grupo. É importante saber que existem delírios e alucinações e que estes não podem ser reduzidos a percepções espirituais, e que as pessoas que os têm necessitam de tratamento psiquiátrico.

22.10.17

CONVERSANDO SOBRE PESQUISAS DE MEDIUNIDADE NO PROGRAMA NOVA ERA





O programa Nova Era trata do espiritismo na região do oeste mineiro, especialmente a cidade de Divinópolis. Tem sido uma empreitada voluntária com a participação de diversos espíritas, inclusive do Vicente, nosso companheiro do Centro de Estudos e Pesquisas Espíritas, que montou um estúdio para o projeto.

É uma conversa de uns vinte minutos, que dá um panorama dos estudos desde a época de Kardec, fala de concepções de ciência e de trabalhos muito recentes.

Eu não tenho nenhum preparo para responder a entrevistas, então as críticas para aperfeiçoamento e as impressões são bem-vindas.

27.9.17

TRÊS DIFERENTES TIPOS DE PESQUISAS SOBRE A MEDIUNIDADE





Há alguns dias publicamos esta palestra que havia sido retirada do YouTube pelos seus administradores. Ela voltou com um errinho: meu nome é Jáder Sampaio.

Nos primeiros 14 minutos explico o que é a Liga de Pesquisadores do Espiritismo - LIHPE, e quais foram suas principais publicações: a Série Pesquisas Brasileiras sobre o Espiritismo e a Coleção Espiritismo na Universidade.

Depois trato dos tipos de conhecimento que podem ser considerados ciência, o que retiro de Jean Ladrière e de seu livro "A Articulação do Sentido", publicado pela EDUSP.  È uma visão ampliada de ciências, que comporta os métodos e técnicas das chamadas ciências formais (matemática e lógica), ciências empírico-formais (física, química, biologia e associados) e, por fim, das chamadas ciências hermenêuticas (letras, direito, filosofia, e muitas outras áreas de conhecimento).

Apresento alguns dos resultados das pesquisas sobre mediunidade que iniciaram-se na Universidade do Arizona, e encontram-se divulgadas nos livros do Instituto Windbridge.

Depois trato de uma pesquisa de prevalência de transtornos mentais em uma amostra de mais de uma centena de médiuns, realizada pelo Núcleo de Pesquisas de Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Por fim, apresento um trabalho que compõe uma tese de doutorado de Alexandre Caroli Rocha, na qual ele mostra que Humberto de Campos se serve de citações, na mediunidade de Chico Xavier, para mostrar sua identidade.

Espero que seja útil.

19.9.17

"REVIVAL" DE ESTUDOS SOBRE MEDIUNIDADE



Foto encontrada na internet. Na cabeceira da mesa, Chico Xavier. Identifiquei também Clóvis Tavares (?), André Luiz e  Emmanuel.

Estava preparando uma das apresentações que fiz no IV SETESP, no último final de semana, e encontrei um artigo muito interessante.

Delorme, A., Beischel, J., Michel, L., Bocuzzi, M., Radin, D., Mills, P. publicaram na revista "Frontiers in psychology", em novembro de 2013, um trabalho intitulado "Atividade eletrocortical associada a comunicação subjetiva com os mortos.

Ainda na revisão bibliográfica, os autores afirmam que houve um "revival" (um renascimento) das pesquisas sobre mediunidade na década anterior à publicação, ou seja, após o ano 2000.

Eles fizeram uma síntese rápida das linhas de estudo publicadas, acompanhadas das respectivas referências. São as seguintes:


- Precisão das afirmações dadas pelos médiuns

- Fenomenologia dos médiuns

- Psicologia dos médiuns

- Neurobiologia dos médiuns

- Potencial das mensagens mediúnicas para as pessoas em luto

Dois resultados também foram citados: 

1) A mediunidade não está associada a processos dissociativos convencionais (esquecimento ou amnésia de conhecimentos geralmente associados a eventos traumáticos, como forma de defesa psicológica), patologia, disfunção, psicose ou imaginação super-ativa.

2) Um grande número de médiuns leva uma vida normal e são pessoas aceitas em suas comunidades.

Esse artigo comunica e analisa os resultados de dois experimentos sobre o funcionamento eletrocortical (do córtex, área externa do cérebro) que comparam quatro atividades mentais diferentes de seis médiuns: percepção, lembrança, "fabrication" (pensar em uma pessoa imaginada pelo médium) e comunicação, mas para não estender muito, apresentarei os principais resultados no futuro.

Aproveitei para publicar como ilustração o desenho de uma reunião mediúnica com Chico Xavier. Quem conhece os espíritos e as pessoas representados nele?





9.3.17

MEDIUNIDADE E CIRCUITOS ELÉTRICOS



Gerador de corrente contínua tipo shunt



O jornal de estudos espíritas acaba de publicar um artigo que explica a analogia que André Luiz fez entre circuitos elétricos e mediunidade no livro "Mecanismos da mediunidade", publicado originalmente em 1959. O livro foi psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira. Os capítulos pares foram psicografados pelo Chico e os ímpares por Waldo. Como muitos dos conceitos de eletricidade ensinados por eles não são estudados na escola em nível de ensino médio, o livro é de difícil leitura e interpretação pela maioria das pessoas de boa vontade que frequentam a casa espírita.

O autor do artigo, Alexandre Fontes da Fonseca, é físico e professor da Unicamp. Ele tenta explicar de forma didática e compreensível o que diz André Luiz sobre mediunidade em alguns dos capítulos do livro.

Sua primeira contribuição é mostrar que o livro faz apenas analogias com eletricidade e hipnose. Ele não faz física do  mundo espiritual, como pensam alguns leitores. Embora André Luiz fale de ondas mento-eletromagnéticas, ele não diz que a mente produz ondas eletromagnética, mas que algumas das características das ondas eletromagnéticas como a variedade de frequências, a transmissão sem a necessidade de fios, sua recepção à distância e sua capacidade de gerar correntes elétricas em condutores com características especiais são muito parecidas com um espírito comunicante que produz o fenômeno mediúnico pelo pensamento, sem que ninguém seja capaz de percebê-lo com os cinco sentidos.

Algumas das comparações explicadas por Alexandre no artigo

Diferença de potencial: a existência de pensamentos distintos entre espírito e médium, para que seja possível a comunicação.

Capacidade de junção: combinação de fluidos entre médium encarnado e comunicante desencarnado (conceito kardequiano)

Fios do gerador: atitude de aceitação ou adesão do médium

Circuito mediúnico: Na combinação de fluidos citada acima, circula uma "corrente mental" (isto também é uma analogia, e não uma descrição física)

Gerador "shunt": Tipo de circuito no qual uma bobina corretamente instalada aumenta a corrente do gerador, e instalada de forma errada, diminui a corrente do gerador. É uma analogia do papel da concentração do médium durante a comunicação, segundo o articulista. 


Quem estiver interessado em entender melhor o artigo dele, basta acessar o Jornal de Estudos Espíritas no link a seguir:
https://drive.google.com/file/d/0BwP5l2F8N4s3TWJoMmRKWTRQaVk/view