11.3.11

RAUL TEIXEIRA FALA SOBRE FÍSICA E ESPIRITISMO


Foto: Prof. Raul Teixeira
O Dr. Raul Teixeira é professor-aposentado do Instituto de Física, na Universidade Federal Fluminense. Físico, com pós-graduação em Metodologia do Ensino de Física, foi entrevistado por "Lavras 24 Horas".
O texto parece ser uma transcrição direta de uma entrevista oral, sem adaptações. Espiritismo Comentado selecionou as perguntas sobre Física para seus leitores, mas a entrevista completa pode ser lida em http://www.lavras24horas.com.br/portal/raul-teixeira-medium-e-conferen

Além da crítica ao uso inadequado de conceitos oriundos de outras áreas de conhecimento, sem a devida formação, Raul discute um tema interessante que é o valor dado à ciência, na sua concepção empírico-formal (Ladrière).

"Lavras 24 Horas: A Física Quântica realmente explica o Espiritismo?

Raul Teixeira: Tudo isso é uma fanfarronice. Não acho. É, assim. Não se esqueça que eu sou físico. E sou espírita. Então eu não acho. Estou dizendo o que é. O que acontece é que os religiosos de maneira geral se apropriam de tudo que acham simpático na Ciência, mesmo que eles não entendam. Então eles acharam que Física Quântica prova o Espírito (a existência do). Enquanto os físicos quânticos estão discutindo ainda os rumos da Física Quântica, os espíritas já se apoderaram, são donos dessa verdade. Então vemos que alguma coisa está errada. Não pode ser com os físicos, porque essa é uma área da Física. É com os espíritas. Então quanto menos a pessoa sabe das coisas mais ela fala a respeito. Quando a gente vai sabendo mais a gente passa a ter cuidados ao falar. Veja como todo mundo receita remédio. Porque não é médico, não entende de Medicina. Os médicos tem cuidado. Eles não receitam remédio sem examinar, sem saber o por quê. Quanto mais se sabe mais cuidado tem. Quanto menos se sabe mais a vontade as coisas ficam. Então não existe nenhuma relação de Física Quântica com o Espiritismo. A relação que existe entre Física Quântica e Espiritismo é a mesma que existe entre todos os fenômenos da Natureza e o Espírito.

Lavras 24 Horas: Allan Kardec afirma que a energia espiritual é uma energia quinta-ssenciada, menos densa. Seria então ligada a Física…


Raul Teixeira: Sempre que estamos falando em energia estamos falando em Física. Este é um termo da Física que a religião se apoderou: energia.

Lavras 24 Horas: Esse hábito de apoderar de conceitos vem da necessidade de comprovar?

Raul Teixeira: É a necessidade de dar valor. Como as pessoas entendem pouco a questão espiritual elas acham que pondo elementos cientificos formais elas vão dar um “plus”. Que não é verdade. Aquilo que tem valor, tem valor. Senão a poesia não teria valor porque ela não pode ser explicada cientificamente. O amor não teria valor. Então nós temos este hábito, embora seja importante que todos os religiosos aprendam Ciência para pensar melhor as coisas da Vida. Mas, eu não posso ficar querendo que a Ciência prove o Espírito. No campo cientifico a Ciência formal não admite a existência da alma. Como é que pode provar alguma coisa relativamente a Alma e a Espiritismo? Como pode provar o Espiritismo? Então são os espíritas que se utilizam daquela área, que tiram para si o que lhes interessa, do jeito como entenderam. Que não tem nada a ver tem com a realidade. A gente faz leitura do que lê. A gente interpreta o que lê. E a gente interpreta querendo tirar o que nos convenha. Então é muito delicado nós percebemos isso. Há coisas muito bonitas na Ciência, são da Ciência. Eu posso dizer assim: a Ciência diz tal coisa, como o Espiritismo diz isso, existe uma familiaridade entre as duas afirmativas. Aí é nobre, é respeitoso. Isso que a Ciência fala nos dá apoio a nossa tese. De fato! Mas, a Ciência provou o Espiritismo, provou a reencarnação! Como ela prova uma coisa que ela nem admite que existe? Então muitas vezes a “espiritada” é muito afoita. A pessoa não sabe juntar a, com b, com c, mas quer entender Física Quântica, que nem os físicos quânticos dominam. Então essa é uma coisa muito delicada."

13 comentários:

Ricardo Alves da Silva disse...

Interessante destaque!

Relacionado ao tema, indico leitura de artigo publicado em O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita, nº 188, de Alexandre Fontes da Fonseca, intitulado "A obra 'A Física da Alma' e o Espiritismo" tratando justamente desse tema. Este artigo é um resumo dos pontos principais do trabalho de mesmo nome apresentado no 6º Encontro da Liga de Pequisadores do Espiritismo, ocorrido em agosto de 2010.

Do artigo destaco o seguinte trecho:
"Para concluir, sugerimos ao Movimento Espírita mais cautela contra o modismo cientificista, em que conceitos da Física Quântica, inacessíveis à compreensão do público leigo, são, às vezes, erroneamente usados em teorias espíritas sem o devido rigor científico da área de Física. Kardec, na Revista Espírita de Julho de 1860, ao final do texto sob o título 'Observação Geral', comenta: 'Diz um provérbio: ‘Nada mais perigoso que um amigo imprudente'. Ora, é o caso dos que, no Espiritismo, se deixam levar por um zelo mais ardente que refletido.' Na ânsia de ver o Espiritismo valorizado pela Ciência, tem havido um zelo mais ARDENTE que REFLETIDO na divulgação de obras como 'A Física da Alma'. Nosso propósito aqui foi o de apresentar um exemplo de REFLEXÃO a respeito dessa obra, demonstrando que seus conceitos são contrários ao Espiritismo, exigindo de nossa parte maior cuidado na sua divulgação."

Veja o artigo completo acessando o link: http://www.oconsolador.com.br/ano4/188/especial.html

Abraços!

Orsini disse...

Caro Jáder,

Não seriam estas, palavras ditas com extrema arrogãncia?

"Tudo isso é uma fanfarronice. Não acho. É, assim. Não se esqueça que eu sou físico. E sou espírita. Então eu não acho. Estou dizendo o que é."

Por mais respeitável a contribuição do seu autor ao Espiritismo, penso eu que ele não deveria julgar que a sua opinião é uma referência inquestionável. Há muita gente séria estudando o assunto em questão e considero suas assertivas precipitadas. Certos temas e suas respectivas conclusões são construídos com o tempo e não devemos negar às esferas científicas do Espiritismo as tentativas de explicar fenômenos ainda incompreendidos pelo nosso atraso cultural e intelectual.

É inegável a existência, nos mais diverss âmbitos espiritistas, daqueles que se arvoram em afirmativas bombásticas, com o fito de destaque pessoal. Neste sentido, as relações entre a Física Quântica e a Ciência Espírita certamente não de privará dos que estão se aproveitando do momento intelectualmente favorável com objetivos de projeção pessoal, especialmente pelo seu ineditismo. Entretanto, como dissemos, não devemos nos esquecer daqueles que tratam o assunto com seriedade e imparcialidade, sem interesses pessoais, e que estão dedicando os seus estudos para nos ajudar a descortinar caminhos ainda não percorridos.

O comedimento nos pontos de vista sobre assuntos novos é uma atitude de prudência.

Um abraço carinhoso e fraterno do amigo Marcelo de Oliveira Orsini.

Jimenna disse...

Eu gostaria que todos os espíritas tivessem essa cautela ao unir doutrina e ciência, assumissem sua ignorância nestes últimos assuntos e parassem de ridicularizar o espiritismo com essas associações superficiais. Adorei o trecho da entrevista.

Jáder Sampaio disse...

Marcelo,

É difícil falar em arrogância, uma vez que não assistimos a entrevista ao vivo. O texto transcrito de fonte oral costuma gerar mal entendidos.

Há uma diferença entre arrogância e autoridade, que é muito cobrada no meio acadêmico.

Acho que o jornalista poderia ter enviado o texto para o autor reescrever sua fala, o que não deve ter acontecido.

Temos discutido muito no ENLIHPE e com físicos que também são espíritas o conteúdo de obras como Física da Alma, de Amit Goswani, que apresentam limites graves.

Como não sou especialista, deixo o espaço aberto para quem quiser defender a tese oposta.

Um abraço fraterno.

Jáder Sampaio

Anônimo disse...

Concordo com o comentário do Marcelo Orsini, apesar da ressalva do Jáder.
Mas fico pensando também qual a diferença de religião (em seu sentido puro, não sectarista) e ciência.
Onde começa uma e termina a outra, se é que isso existe mesmo.
Evidentemente que não é assunto para leigos falarem com autoridade, mas na base e pureza dos conceitos, não imagino onde fica a linha divisória dos conceitos.
Mas penso também que a idéia é ampliar o debate sobre qualquer assunto (inclusive Goswami), e fazer como Kardec fazia para ampliar a área de abrangência do pensamento espírita, aceitando o que é válido na sua visão, e apresentando uma tese contrária no que não encaixava, mas sem rejeita-lo aprioristicamente como fazem hoje com conceitos de realidade espiritual
Parabéns pela postagem.
Elder.

Jáder Sampaio disse...

Elder,

Obrigado pela sua contribuição. Conheço uma dúzia de Físicos espíritas que trabalham construindo o conhecimento da Física. Eles criticam com muita clareza o mal uso dos conceitos da Física, que levaram anos aprendendo.

Um ocnceito científico não tem apenas um significado, mas uma história de como foi construído, geralmente uma inserção em um sistema de conceitos articulados e uma trajetória frente à crítica. Não dá para aprender Física Quântica, sem formação Física e Matemática, e seria temerário sair propondo associações com base em conceitos mal entendidos. Kardec não fazia isso. Esse mesmo problema vem acontecendo com a Psicologia e outras áreas especializadas do conhecimento. Por essa razão tem surgido grupos especializados dentro do movimento espírita (magistrados espíritas, médicos espíritas, psicólogos espíritas, advogados espíritas, etc.)

O conhecimento do século XXI é muito mais amplo que o do século XIX, pense nisso. Ignorar isso é expor-se ao risco de cometer erros claros em público e ter que admiti-los, se houver honestidade intelectual.

Fraternalmente,

Jáder Sampaio

Ademir Xavier disse...

Ola a todos,

Concordo com o Raul Teixeira em todos os sentidos possíveis. O que se tem falado sobre Fisica Quantica e sua relação com o Espiritismo vem de quem NUNCA estudou fisica quantica. Venham discutir se essa área da física pode ser extrapolada do jeito superficial e retórico que está sendo feito, estudando-a antes. Muita gente no movimento espírita esta sendo fascinada por cientificismo e não ciência.

Ademir Xavier
eradoespirito.blogspot.com

Hélio Anderson disse...

Oi Jader;

Há uma certa confusão entre os aspectos científicos da doutrina espírita com as ciências da natureza (Física, Química e Biologia). A Ciência Espírita é uma ciência no sentido geral da palavra, ou seja, tem um objeto claro de estudo, um método de investigação científica e um conjunto de definições e leis que regem os fenômenos investigados por esta ciência. O livro dos Espíritos estabelece os princípios da Ciência Espírita, como deixa claro o Allan Kardec na introdução.
Da mesma forma, a física, química e biologia também têm bem definidos estes três aspectos da ciência. Obviamente, que as diferentes ciências têm suas interfaces que se complementam, afinal a natureza é uma só. No caso da física, muitas pessoas leigas ao ouvirem falar de certas extrapolações que se fazem a partir das teorias vigentes, como universos paralelos, antimatéria, etc, deduzem que a física provará um dia a existência do espírito ou mesmo de Deus. Isso não ocorrerá pelo simples fato que teoria não se prova. Há experimentos e evidências que indicam ser uma teoria correta para descrever um conjunto de fenômenos. Mas, enquanto ciência, qualquer teoria está sempre aberta a contestação. Até hoje, todos os fenômenos estudados pela física podem ser explicados sem a necessidade de se criar a hipótese da existência do espírito.
Por outro lado, recentemente, tive o prazer de assistir um seminário do Prof. Eugenio Fixione, no Centro de Investigacion e Estudos Avanzados, no Mexico. Ele é neurocientista de renome internacional e tem escrito muitos livros. Um dos aspectos mais intrigantes da neurociência é o surgimento da “consciência”. O conhecimento atual dos intricados mecanismos cerebrais não permitem explicar o fenômeno da consciência através de um processo determinístico. Por isso, começam a utilizar a Física Quântica para tentar explicar este fenômeno. O nível de discussão e de debate científico nesta área é enorme. Há, atualmente, grupos de pesquisadores que começam a levantar a hipótese da existência do espírito. No entanto, por não conseguirem utilizar o método científico para mostra evidências de que a teoria está correta ou não, alguns pesquisadores têm se limitado a publicar livros (fugindo, entao, do processo “peer review” utilizado na Ciencia. Desta forma, cito dois livros: (1)Beauregard, M., O’Leary, D. (2007) “The Spiritual Brain. A neuroscientist’s case for the existence of the soul. New York: HarperOne. (“O cérebro espiritual. Um caso do neurocientista para a existencia da alma”). (2) Alper, Matthew (2006) The “God” Part of the Brain. A scientific interpretation of human spirituality and God. Naperville: Sourcebooks.( “A parte Deus do Cérebro. Uma interpretação científica da espiritualidade humana e Deus”).

No meu entender, Ciência Espírita, tem uma interface muito grande com a psicologia e psiquiatria. O sucesso no tratamento de pessoas com problemas psiquiátricos é reconhecido pelos médicos. Dentro da “Ciência Espírita”, a existência do espírito, e sua relação com o mundo visível, deve ser visto como uma teoria em desenvolvimento. A Ciência Espírita será uma ciência enquanto estiver, em seu movimento doutrinário, liberdade para discutir e questionar aspectos e interpretações doutrinarias. Mas, esta, é uma outra conversa ...




Hélio Anderson disse...
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Jáder Sampaio disse...

Oi, Hélio. É um prazer conversar com você. Trouxe o tema para discussão não apenas pela posição do Raul Teixeira, mas principalmente pelas análises do Alexandre Fonseca e do Ademir Xavier, ambos pós-doutores em física. Eles têm mostrado que mesmo físicos de carreira estão usando conceitos de forma obscura ou equivocada. Acho que você ainda não tem o livro "O Espiritismo visto pelas áreas de conhecimento atuais", nele há dois artigos destes autores que vale a pena ler.

Você sabe que minha área é a de ciências humanas e sociais, mas passei algum tempo estudando epistemologia com o pessoal da Filosofia da UFMG. É difícil falar em um conjunto de leis estabelecidas pelo espiritismo, uma vez que temos acesso ao plano espiritual por fontes segundas (são os relatos dos médiuns, ainda não conseguimos observar, experimentar e falsificar ou não diretamente), o que dificulta o tratamento e a concepção das informações que temos sobre o mundo dos espíritos com os métodos de base empírica das ciências naturais.

Você afirmou que "teoria não se prova". Contudo, gostaria que me explicasse melhor qual a sua posição ante o conhecimento. Popper diria que a teoria se corrobora ou se falsifica. Kuhn se preocupa com a aceitação ou não pela comunidade científica. Lakatos afirma que um teorema não se prova porque ante os contra-exemplos ele é reajustado para comportar as novas informações, mas, seu pensamento comporta o jogo de conjecturas, contraexemplos e refutações.

Acho que assim é mais fácil de continuarmos nosso rico diálogo.

Um abraço para você e a família.

Jáder

Samir Abdalla disse...

O Espiritismo na sua essencia, é sim uma Ciência. Veio da investigação...
No Brasil, tivemos grandes arautos defensores da pureza doutrinária, mas, tivemos muitos deturpadores (e ainda temos!), recomendo o livro Provas Científicas da Sobrevivencia (ou Física Transcendental)de Friedrich Zöllner.

Hélio Anderson disse...

Oi Jader;
Embora eu seja pesquisador na área de química, devo confessar que não tenho conhecimento suficiente em epistemologia para manter um diálogo a altura. No entanto, permita-me trazer algumas considerações e pontos de vista, com o objetivo único de enriquecer o debate e sem nenhuma pretensão de convencimento.
Os pesquisadores da área de física e química se preocupam pouco com as questões epistemológicas. Seguimos, de forma geral, o “savoir-faire” da área. Diante de um fenômeno novo, o pesquisador assume algumas hipóteses para construir uma teoria que descreva o fenômeno. A partir desta teoria, o pesquisador prevê outros fenômenos que são verificados experimentalmente. Quanto maior o número de fenômenos preditos pela teoria e confirmados experimentalmente, mais abrangente e mais consistente se torna.
Vejamos o caso das Leis de Newton, trata-se de uma teoria que descreve fenômenos na escala de velocidades baixas. Em escalas de velocidades altas, próximas a velocidade da luz, utiliza-se a teoria da relatividade. A origem da carga elétrica, magnetismo e massa das partículas ainda é uma questão em aberto na ciência, por incrível que pareça! Mas, estes conceitos fazem parte do arcabouço teórico das Ciências Naturais. A comprovação do Bóson de Higgs, por exemplo, valida a teoria que prediz a sua existência e permite descrever a origem destas propriedades que mencionei antes.
Voltemos ao espiritismo. Dependendo do assunto a ser discutido, a abordagem deve ser feita pela Ciência Espírita, pela Filosofia Espírita ou, ainda, pela Religião Espírita. É importante termos este cuidado para não cometermos erros ou nos arvorarmos em conceitos errados ou fora de contexto. Tomemos, então, o Livro dos Espíritos como base de uma Ciência. A questão da hipótese da existência do Espírito e as suas relações com o “mundo visível” ter sido dado através de comunicações espíritas é (no meu entender) “irrelevante”. Da mesma forma que o Einstein teve o “insight” de utilizar a luz como referência inercial na sua teoria a partir da leitura dos trabalhos de um filósofo Russo (como alguns biógrafos sugerem), ou o Newton teve o seu “insight” devido a uma maçã que caiu em sua cabeça (como diz a lenda). O importante é que a Ciência Espírita (ou Teoria Espírita) é capaz de descrever fenômenos que não são explicados por outras ciências. A Ciência Espírita deve ser compreendida na acepção ampla do conceito de Ciência. Serei mais claro, a “Ciência Espírita” deve ser evocada somente quando a hipótese da existência e sobrevivência do espírito for necessária para explicar um determinado fenômeno. As informações outras que nos foram dadas pelos Guias Espirituais, no meu entender, não fazem parte da Ciência Espírita e, sim, dos outros aspectos da Doutrina Espírita.
Muito do que se fala sobre a Física e Química na mídia são especulações e extrapolações de teorias que carecem de experimentos para que possam ser validados. Lembro-me do meu tempo de estudante, quando a minha professora de Química Quântica ridicularizava os espíritas por utilizar este conceito para explicar a comunicação entre mentes.
Enfim, o espírita não deve utilizar conceitos e extrapolações de teorias das ciências naturais como forma de sustentação e convencimento de suas crenças.
A história da Ciência recente nos mostra que conceitos novos não são aceitos prontamente. A palestra do Prof. Frixione (como mencionei na mensagem anterior) deixou claro para mim que na neurociência há um grande debate sobre o surgimento da consciência e alguns pesquisadores tem suscitado a hipótese da existência do “espírito”. Porém, há ainda uma grande dificuldade de se desenhar experimentos que confirmem esta hipótese. Mas, mesmo assim, sempre será uma hipótese que poderá ser contestada a partir de outros argumentos e explicações.
Do meu ponto de vista, falta uma análise atual e profunda do conceito de Ciência Espírita e suas intercessões com as Ciências Naturais. É importante delimitá-la de forma clara dentro da Doutrina Espírita. Jader, acredito que você seja a pessoa ideal para iniciar este trabalho.

Jáder disse...

Hélio, estou de pleno acordo com você sobre a necessidade de distinguirmos dentro do conhecimento espírita o que é ciência, o que é filosofia e o que é religião, mas precisamos ter clareza quanto aos três conceitos, porque há debates dentro das universidades, por exemplo, sobre o conceito de ciência. Esta forma de trabalhar que você descreveu é típica das ciências naturais e visa à identificação de regularidades (também chamadas de leis). Ela tem limites nas ciências humanas e sociais, porque nossos objetos não são bem objetos, são sujeitos, com fenômenos mentais complexos e capazes de autodeterminação, apesar das influências da hereditariedade, da cultura e da sociedade. Por isso trabalhamos não apenas com teorias capazes de predizer fenômenos, mas com a compreensão dos significados produzidos pelos seres humanos, o que interessa ao espiritismo, porque, por definição, os espíritos são seres humanos.

Veja que podemos ter uma ciência espírita dos efeitos físicos (usando métodos das ciências naturais e procurando regularidades) e uma ciência dos efeitos intelectuais (usando métodos das humanidades e compreendendo singularidades), além de uma filosofia espírita (que aplica a lógica e a razão a partir de postulados aceitos) e uma religião espírita (ideias que aceitamos com base na autoridade dos espíritos e não com base nas evidências ou na lógica, além, é claro de práticas e da questão de Deus e do cristianismo).

Quando André Luiz, por exemplo, descreve os mecanismos do passe, em mecanismos da mediunidade, estamos no campo da religião espírita, posto que não temos evidências empíricas que tal se dê e ele não constrói uma teoria filosófica claramente lógica a partir de axiomas aceitos. Na medida em que se realizem experimentos que mostrem (ou não) a precisão da descrição feita pelo espírito, saímos do campo da religião espírita (ou talvez, melhor dizendo, da especulação de um espírito respeitado pelo movimento espírita) e nos movemos em direção a uma ciência espírita.

Acho que há autores contemporâneos que têm se debruçado sobre a questão da ciência espírita com conhecimento epistemológico. Temos o Sílvio Chibeni, que é oriundo da física, o Aécio Chagas e outros, cujos trabalhos estão perdidos no aluvião de textos publicados pelo movimento espírita. Não sei se tenho formação para tratar das intercessões com as ciências naturais, mas a LIHPE está começando a fazer um trabalho mais sistemático de pesquisas, ainda no tempo disponível dos participantes, mas originais e que contribuem fazendo avançar pontos pouco explorados do pensamento espírita.