30.3.17

ESPIRITISMO NA UNIVERSIDADE?



Durante minha juventude ouvi os espíritas queixarem-se das universidades e centros de pesquisa não estudarem o espiritismo. Em nosso país, os recursos e infraestrutura para pesquisa em diversas áreas começaram nos anos 1940, mas foi com o aporte de recursos para o CNPq, nos anos 1970 e a criação de programas de pós-graduação que houve uma ampliação significativa deste tipo de atividade.

Quando fizemos o quarto encontro da Liga de Pesquisadores do Espiritismo em São Paulo, o professor Marco Milani traçou um "perfil da produção acadêmica brasileira com temática espírita", no período que compreende 1989 a 2006. Ele descobriu que havia 39 dissertações e 11 teses diretamente ligadas à doutrina espírita (se computados os trabalhos espiritualistas, o número cresceria bastante) Dois anos depois, o prof. Tiago Paz e Albuquerque fez um levantamento sistemático e classificou 130 teses e dissertações que tinham como tema central o espiritismo, e 246 que tratavam também como tema tangencial secundário ou de estudos comparados.

As professoras Nadia Luz Lima e Cléria Bittar Bueno saíram dos encontros com o firme propósito de fazer um livro com artigos que sintetizassem alguns desses trabalhos. Os autores, contudo, cheios de atribuições, não conseguiram atender a um calendário mínimo que tornasse o projeto viável. Questionou-se, então, por que não publicar as teses em uma coleção?

Conseguimos os recursos iniciais na Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais, que possibilitou a publicação da tese Voluntários, e aos poucos foram saindo as demais. O sexto volume da coleção, o livro "Dá-me de comer", não é tese nem dissertação, mas o fruto de pesquisas do prof. Pedro Simões, da Universidade Federal de Santa Catarina, que estudou a assistência social espírita.

A Universidade de Franca foi parceira do projeto até o quinto livro, a partir do qual, uma equipe composta das criadoras da coleção, membros do CCDPE-ECM e membros da LIHPE tem se desdobrado para dar continuidade. Desde o primeiro livro, os direitos autorais e comerciais têm sido cedidos para o CCDPE-ECM, que tem por missão a manutenção de um acervo bibliográfico e documental espírita volumoso, doado por Eduardo Carvalho Monteiro, e tem administração não remunerada.

Hoje o Voluntários e o Fogo Selvagem, Alma Domada, tese de doutorado da profa. Nadia que trata da construção do Hospital do Pênfigo de Uberaba e de Dona Aparecida, estão quase esgotados, havendo alguns raros exemplares aqui e ali.

Os demais trabalhos estão à disposição do público e podem ser adquiridos na livraria do Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo - Eduardo Carvalho Monteiro http://www.ccdpe.org.br/ ou em sua distribuidora parceira, a Candeia http://www.candeia.com/





20.3.17

A CASA DE CHICO XAVIER







Domingo foi dia de ir a Pedro Leopoldo. Oportunidade de ver o Adriano Calsone falar sobre Amélie Boudet e Allan Kardec e de rever a Casa de Chico Xavier. Foi uma viagem grata ao coração, porque encontrei amigos antigos, que a vida levou para longe, mas que como a vida costuma ser como o mar, as ondas trouxeram de volta a Belo Horizonte. Encontrei amigos geograficamente próximos, mas que a vida absorveu, com suas obrigações, em outros espaços. Vizinhos, mas distantes. E reencontrei quem lá está, na cidade natal do Chico, mas que já morou na capital e conheceu papai.



A Casa de Chico Xavier é assim, você está no passado, mas também está no presente. O tempo-espaço se curva e permite que você transite entre os dois momentos, mercê da memória, com um passo, apenas. Com um passo você vê a Dona Nenem jovem, o Rolando Ramaiciotti perfilado com o médium de Pedro Leopoldo, o Peralva com seus óculos quadrados e eterno terno, capturados pelas fotografias que a informática faz aumentar ante o pedido nervoso dos dedos. Um passo, e quem já viu o filme preto e branco, preservado insistentemente do esquecimento pela nova dimensão chamada internet, entra em um quarto com os diplomas de cidadão honorário dados pelas câmaras municipais de cinco cidades paulistanas e pela intrusa Belo Horizonte, lugar de tantas amizades caras ao médium. Um passo atrás e o tempo muda novamente, o visitante vê a cama feita e o terno passadinho, pronto para ser vestido. 

Um lugar curioso da visita são os expositores do chão ao teto com uma cachoeira de livros, perfilados, à espera do olhar curioso dos visitantes. Do Parnaso ao último livro de Chico, eles estão lá, testemunhas incontestes de uma dedicação diária, que devorava o horário de descanso após o almoço, as noites que usamos para descansar da labuta e a madrugada que os jovens gostam de usar para as baladas. Recordei-me de Raul Teixeira dizendo:

- “Para acompanhar a doença do Chico é preciso ter muita saúde”!

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Por fim, o visitante pode voltar a 1931. Geraldinho contou que o Chico participava da reunião mais estranha da história do espiritismo brasileiro. À mesa da casa espírita ele psicografava sob a influência de Emmanuel. Terminada a tarefa, ele lia em voz alta os textos para as cadeiras vazias, as paredes nuas pintadas, os pássaros no telhado do lado de fora, que pareciam não ter muito interesse nas palavras do Mestre iluminadas pelo pensamento de Allan Kardec. Lá fora a cidade ficava meio adormecida, em um ritmo lento, mas os vizinhos deviam ouvir a voz insistente do médium, e comentavam as estranhezas daquela doutrina nova que se erguia contra a milenar instituição representada localmente por uma pequena matriz no centro, com um coreto gracioso.

Chico Xavier é conhecido por sua perseverança teimosa, sua capacidade de continuar onde muitos nem mesmo teriam iniciado. William James diria que isto faz parte da psicologia dos grandes e notáveis religiosos. Toda muralha, contudo, tem suas rachaduras e incorreções, então, o povirello de Pedro Leopoldo queixou-se a Emmanuel.

- Meu irmão, vou encerrar a reunião. Apenas eu venho e trabalho sozinho. Fico lendo para as paredes e os vizinhos já me consideram louco. Não há sentido em continuar!

O orientador espiritual pediu-lhe que retornasse uma vez mais. Emmanuel pediria ao mestre que Chico pudesse ver mais, com os olhos da alma, e entender o que fazia.

Passada uma semana, chega o Chico, na reunião que seria a derradeira, como falam os mineiros, assenta a mesa, enche as folhas de papel e inicia as últimas leituras. Emmanuel aproximou-se, impôs as “mãos espirituais” sobre a cabeça do jovem médium, e seu campo de visão espiritual se abriu. Ao redor da mesa um anfiteatro, com espíritos “assentados” acompanhando com interesse a leitura dos textos evangélicos.

Chico olhou detidamente as fisionomias e não reconheceu ninguém. Não eram parentes dos filhos da terrinha mineira. Seus traços não lhe eram familiares. Perguntou então ao orientador.

- Quem são eles? Eu não os reconheço.

- São espíritos que estão em contato com o evangelho de Jesus explicado a partir dos novos conhecimentos trazidos pelo mestre lionês e que retornarão à carne para divulgá-los.

Geraldinho se referiu a eles como a Turma de 1931.



Voltemos à Casa de Chico Xavier. Influenciada pela narrativa, ao mesmo tempo em que criava os novos espaços de uma casa que seria museu e centro espírita, a arquiteta preservou o espaço da mesa em que Chico psicografava, quando estava em sua casa, e transformou os barracões, que eram quartos para receber os espíritas que vinham dos muitos lugares, especialmente de São Paulo, passar alguns dias com ele. Da mesa veem-se as fileiras desniveladas de cadeiras, envolvendo o espaço de grata lembrança com um anfiteatro pequenino, capaz de acolher uma centena de almas encarnadas, prontas a participar da simplicidade das reuniões, de leitura, comentários e preces.

Fui convidado à mesa, como acontecia no passado e as lágrimas escorreram no canto do olho. Ali também o espaço tempo fez duas dobras, e enquanto Adriano Calsone falava dos tempos áridos, mas laboriosos do mestre francês e nos fazia recordar/aprender sobre a “femme forte” do espiritismo, a mesa insistia em nos puxar para os tempos do lápis que corria solto pelas folhas de papel, um olhar ao lado nos levava aos anos oitenta do século passado, com a grata memória dos jovens da Comebh, alguns já senhoris, com os filhos crescidos, outros já sem o corpo físico, e nos assentos do anfiteatro viam-se os olhares interessados, perdidos no tempo, imaginando Rivail e Amélie enfrentando suas lutas, com um silêncio significativo, às vezes recortado por risos discretos, emoções denunciadas pelos olhos ou ternura estampada na face.

Voltamos para casa com uma sensação de paz na alma, de alegria suave, de satisfação pelos encontros e abraços, de surpresa pelo espaço tão mágico, preservado pelo afeto de pessoas que conheceram e valorizaram o jovenzinho pobre de Pedro Leopoldo.

18.3.17

LIVRARIA DA UNIÃO TEM LIVROS DA LIHPE



A Livraria da União Espírita Mineira está com todos os livros da Série Pesquisas Brasileiras sobre o Espiritismo para venda. Eles podem ser encontrados na Rua Guarani 313, no centro de Belo Horizonte - MG.

Esta série agrupa os trabalhos apresentados nos encontros da Liga de Pesquisadores do Espiritismo e revistos por seus autores após avaliação.

Os espíritas mineiros têm agora mais facilidade de acesso aos livros da LIHPE!

11.3.17

EC FAZ DEZ ANOS!



O Espiritismo Comentado completa hoje dez anos! Acima estão as bandeiras de todos os países que já acessaram o blog. Talvez alguns países tenham visto por acidente, mas agradeço as comunidades espíritas norte-americana, europeia, japonesa, sul americana e africana, que nesta ordem têm acessado o blog, às vezes com a ajuda do tradutor. O instrumento do Google encontra também muitos acessos da Rússia e países vizinhos, da China e da Índia. Seriam apenas rastreadores de tráfego?

Neste tempo, foram quase 900 mil visualizações de páginas de quase mil postagens! É como se tivéssemos uma reunião de estudos virtuais com frequência média de 900 pessoas.

Os textos que tratam de mediunidade intuitiva (http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/2009/01/mediunidade-intuitiva.html) e da interpretação do ramo de videira encontrado em O livro dos espíritos (http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/2009/05/que-significa-o-ramo-de-videira-que-os.html) são os mais lidos do blog, e já foram escritos há onze anos...

Uma vez vi um filme chamado "Nunca te vi, sempre te amei", que trata de uma amizade entre um inglês e uma norte-americana, sustentada por correspondência, desde o período da guerra. Não me lembro bem do filme, mas eles ficaram décadas sem nunca se terem visto, sempre presentes na vida uns dos outros. Agradeço as pessoas que se enquadram neste modelo e se tornaram mais que leitores ao longo destes dez anos. Um dia espero conhecê-las em "três dimensões". 

Hoje é dia do Seminário "Novos Estudos sobre a Reencarnação" na Sede Federativa da União Espírita Mineira, e estão todos convidados a participar. Acho que ainda há vagas (poucas) e as inscrições são gratuitas. Vamos autografar o último livro publicado pela LIHPE em parceria com o CCDPE-ECM e a USE-SP.

Com dez anos de trabalhos, acho que precisamos parar para pensar. Enviem sugestões para o blog no nosso grupo do Facebook https://www.facebook.com/groups/espiritismocomentado/?fref=ts  para que possamos melhorar nossos trabalhos. 

Muito grato, pessoalmente, por estar com vocês durante todo este tempo.




9.3.17

MEDIUNIDADE E CIRCUITOS ELÉTRICOS



Gerador de corrente contínua tipo shunt



O jornal de estudos espíritas acaba de publicar um artigo que explica a analogia que André Luiz fez entre circuitos elétricos e mediunidade no livro "Mecanismos da mediunidade", publicado originalmente em 1959. O livro foi psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira. Os capítulos pares foram psicografados pelo Chico e os ímpares por Waldo. Como muitos dos conceitos de eletricidade ensinados por eles não são estudados na escola em nível de ensino médio, o livro é de difícil leitura e interpretação pela maioria das pessoas de boa vontade que frequentam a casa espírita.

O autor do artigo, Alexandre Fontes da Fonseca, é físico e professor da Unicamp. Ele tenta explicar de forma didática e compreensível o que diz André Luiz sobre mediunidade em alguns dos capítulos do livro.

Sua primeira contribuição é mostrar que o livro faz apenas analogias com eletricidade e hipnose. Ele não faz física do  mundo espiritual, como pensam alguns leitores. Embora André Luiz fale de ondas mento-eletromagnéticas, ele não diz que a mente produz ondas eletromagnética, mas que algumas das características das ondas eletromagnéticas como a variedade de frequências, a transmissão sem a necessidade de fios, sua recepção à distância e sua capacidade de gerar correntes elétricas em condutores com características especiais são muito parecidas com um espírito comunicante que produz o fenômeno mediúnico pelo pensamento, sem que ninguém seja capaz de percebê-lo com os cinco sentidos.

Algumas das comparações explicadas por Alexandre no artigo

Diferença de potencial: a existência de pensamentos distintos entre espírito e médium, para que seja possível a comunicação.

Capacidade de junção: combinação de fluidos entre médium encarnado e comunicante desencarnado (conceito kardequiano)

Fios do gerador: atitude de aceitação ou adesão do médium

Circuito mediúnico: Na combinação de fluidos citada acima, circula uma "corrente mental" (isto também é uma analogia, e não uma descrição física)

Gerador "shunt": Tipo de circuito no qual uma bobina corretamente instalada aumenta a corrente do gerador, e instalada de forma errada, diminui a corrente do gerador. É uma analogia do papel da concentração do médium durante a comunicação, segundo o articulista. 


Quem estiver interessado em entender melhor o artigo dele, basta acessar o Jornal de Estudos Espíritas no link a seguir:
https://drive.google.com/file/d/0BwP5l2F8N4s3TWJoMmRKWTRQaVk/view

8.3.17

UMA HISTÓRIA DE AMÉLIE GABRIELLE BOUDET




Ao contrário do livro "Em nome de Kardec", fui obrigado a ler "Madame Kardec: a história que o tempo quase apagou" em migalhas. O texto de Adriano continua leve de se ler e agradável. Ele transforma a narrativa em uma espécie de seriado de suspense, no qual cada capítulo é uma história.

Conhecemos mais de Allan Kardec que de sua esposa, em função, talvez, do livro "Obras Póstumas" e pelo acesso à Revista Espírita. Obviamente a visibilidade do escritor é muito maior que a de seu editor ou revisor, o que é uma das primeiras surpresas do livro. Amélie participou ativamente de toda a obra kardequiana, revendo e relendo para o marido.

Sua história como mulher francesa no século XIX mostra que ela foi muito além do esperado pelas convenções sociais da época. Após a desencarnação de Rivail, ela se tornou (se é que já não era) administradora dos bens do casal, que não eram desprezíveis, em função de heranças recebidas das famílias.

Seu compromisso com o trabalho do marido e seu tirocínio quanto às decisões que os homens das instituições criadas para dar continuidade ao trabalho de Kardec são pacientemente recuperados por Calsone. Uma das principais fontes usadas são os escritos de Berthe Fropo, amiga de Amélia. Ela coloca no papel sua visão sobre as decisões da Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, que, salvo engano, foi fruto de uma transformação da Sociedade para a continuação das obras de Allan Kardec.

Do ponto de vista da história, Calsone tenta mostrar, sempre que possível, a visão dos dois lados, mas não esconde sua simpatia por Berthe e Amélie. Sei por experiência própria que quando há conflito, as posições se polarizam, e mesmo quem tem razão, costuma exorbitar em algumas situações.

Calsone faz uma releitura do episódio do Processo dos Espíritas, e atribui aos interesses comerciais de Leymarie, sua associação inadvertida com o "médium" farsante, que produzia fotografias espíritas. Na medida em que se vai lendo, vê-se que Leymarie não tinha a formação necessária para entender o alcance do trabalho de Kardec. Entendendo o espiritismo mais como movimento a ser tornado público que como doutrina filosófica, sem o mínimo conhecimento das ciências, ele vai fazendo associações com Roustainguistas (Guérin), Teosofistas (Blavastsky) e outros espiritualismos, não importa seu método de desenvolvimento da teoria, nem suas contradições com o exposto por Kardec em seu trabalho. Não sei se exagero, mas Calsone parece perceber o efeito dos títulos que vão sendo concedidos a Leymarie, e de sua indiferença ante a adoção de adornos, como bandeiras cheias de imagens com significados simbólicos de Guérin. 

Tudo isso não passou despercebido aos espíritas com melhor formação, como Delanne e Denis, que se dispuseram à criação do órgão "Le Espiritisme" e da "União Espírita Francesa". Calsone mostra com perfeição que a criação de uma nova instituição espírita não foi bem vista pelos membros da Sociedade, muito menos a comercialização de um novo órgão de divulgação, visto como concorrente à Revue.

Na leitura do livro, entendi melhor o significado do apoio que a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, aqui do Brasil, deu à "União Espírita Universal" (elemento pré-textual de A Gênese, traduzida em 1882), bem como dos conflitos e divisões que foram descritos por Canuto Abreu no movimento espírita do Rio de Janeiro no seu livro "Bezerra de Menezes: subsídios para a história do espiritismo no Brasil até o ano de 1895". 

Não vou falar sobre os pais e a infância de Amélie, o processo de herança, sobre as acusações de destruição de documentos, nem sobre a sucessão de Leymarie e os processos judiciários que afetaram o movimento espírita profundamente. Isso fica para o leitor interessado, já que não quero ser acusado de fazer "spoiler"...

Livro: Madame Kardec: a história que o tempo quase apagou
Autor: Adriano Calsone
Editora: Vivaluz
282 páginas

6.3.17

O PAI NOSSO DE ANTONINA


Uma aula sobre oração? Ficou pensando Antonina com seus botões...

Ela se recordou de uma aula que assistiu quando tinha a idade de seus alunos. Engraçado como estas coisas vêm à cabeça, mesmo passados muitos anos.

Antonina tem poucos alunos, apenas cinco, mas o desafio de facilitar a aprendizagem não é menor. Conceitos abstratos, mesmo para crianças de 11 e 12 anos, que geralmente gostam de ser chamadas de pré-adolescentes, com uma experiência escolar limitada, aprovações forçadas e desempenho grupal baixo, são de difícil apreensão. Uma vez acreditando que não são capazes de aprender, desistem muito facilmente.

A ideia que ela teve foi associar Allan Kardec com Jesus Cristo... Kardec escreve em "O Livro dos Espíritos" que o objetivo da prece pode ser "louvar, pedir ou agradecer". Jesus ensinou aos apóstolos a oração dominical (do latim "dominus", significando senhor) como um exemplo de prece.

Ela imprimiu textos com a oração dominical, um para cada aluno. Imprimiu sete, por segurança. E montou um kit com três canetas marca-texto de cores diferentes. Amarelo para pedir, azul para agradecer e verde para louvar.

Chegado o grande momento, ela explicou a dinâmica da aula. Iriam estudar frase a frase a oração, e iriam identificar se a frase tinha o objetivo de louvar, pedir ou agradecer. Cada um iria marcar a frase com a cor respectiva, depois de conversarem em grupo.

As canetas fizeram um enorme sucesso. Os alunos nunca as tinham visto! Parecia mágica a história de colorir uma palavra para destacá-la...

As discussões foram longe. 

- Santificado seja o vosso nome! 

Depois de discutir, concluiu-se que se tratava de louvar a Deus.

- O pão nosso de cada dia nos dai hoje!

- Antonina! Ele está pedindo! Vamos marcar de amarelo?

Frase a frase foram analisando a oração. No final da tarefa alguém falou:

- Não tem nenhuma frase de azul... Falou Cícero.

- Ele não agradeceu nada? Perguntou Artur.

- Não é preciso usar as três classificações para se fazer uma prece. Como ela sai do coração, vai depender do que estamos sentindo e vivendo na hora. Explicou Antonina. E emendou:

- Vocês sabem de onde vem o Pai Nosso?

Ela mostrou um Novo Testamento.

- Uma Bíblia! Falaram os três meninos...

- Depois de Mateus, vem Marcos! Aqui passa de Mateus para Lucas. Esta Bíblia está errada? Perguntou Cícero.

- Não! Explicou Antonina. Você passou as páginas rápido demais. Explicou.

- Este livro não é a Bíblia inteira, é apenas o Novo Testamento...

Os meninos tinham um contato anterior com a Bíblia, talvez pela grande influência evangélica em sua comunidade.

Antes de terminar a aula, houve um apelo:

- Você vai trazer mais estas canetas?

E Antonina, tocada, deixou cada um ficar com um kit.