15.9.15

FRANCESES E BRASILEIROS DE DIVERSOS ESTADOS SE ENCONTRARAM NO RIO DE JANEIRO




Reinauguração do monumento na Praça Professor Rivail, em Niterói

Passados alguns dias do término do 1º. Encontro de Cultura e Pesquisa Espírita – XII Colóquio França-Brasil, somente agora consigo comunicar minhas impressões do evento.

A primeira impressão positiva foi a presença de mais de 200 pessoas dispostas a passar o final de semana discutindo o surgimento do espiritismo no Brasil e na França. A grande maioria foi de pessoas do Rio de Janeiro, local de realização, mas tivemos presenças notáveis de outros estados e países.
César Perri fez a conferência de abertura, na qual tratou dos 150 nos de “O Céu e o Inferno”, com sobriedade e erudição. Ele nos explicou uma velha dúvida, que é a ausência de uma introdução deste livro. A introdução de Kardec existiu nas primeiras edições, e foi recuperada na nova edição da FEB, traduzida por Evandro Noleto Bezerra.


Mesa de abertura: Da esquerda para a direita - Profa. Telma (UERJ), Pedro Nakano, César Perri, Paulo Sérgio, Nely, Roberto e o Diretor da Rádio Rio de Janeiro

Jorge Brito e Evandro Noleto fizeram uma mesa meticulosa, que demonstrou o cuidado de ambos com a recuperação das obras elaboradas por Kardec. Jorge é bibliófilo e tratou das edições e dos editores na França e no Brasil. Foram tantas informações que não consegui registrar, embora estivesse anotando as conferências para esta matéria que agora escrevo. Penso que este é um dos DVDs que devem ser comprados por quem se interesse pelo ´processo  da formação do espiritismo.


Marion Aubrée

Fiquei muito sensibilizado com a simpatia da Dra. Marion Aubrée. A antropóloga fez um trabalho em parceria com o Prof. Laplantine sobre o espiritismo no Brasil e na França, propondo a ideia da reexportação das ideias espíritas do nosso país para o berço do espiritismo. Ela dedicou muitos anos de sua vida estudando os dois movimentos, visitou instituições e participou ativamente do evento até seu encerramento. Já publiquei anteriormente algumas críticas que fiz ao livro “A mesa, o livro e os espíritos”, mas isso não impede a simpatia pelos esforços de Marie Jeanne. Com um olhar externo, ela pontuou muitos pontos que às vezes preferimos não ver no movimento espírita brasileiro, como os misticismos envolvendo a mediunidade de cura.
A conferência de abertura do sábado de manhã foi feita pela Dra. Nadja do Couto Valle. Uma aula de história da filosofia, que é seu campo, até a época de Kardec. O texto que Nadja publicou no livro “Em torno de Rivail: o mundo que viveu Allan Kardec” é uma síntese desta palestra, mas a fala foi ainda mais rica e cheia de informações. Outro DVD que vai interessar muito aos estudiosos da filosofia espírita.

Houve uma boa conexão entre a conferência da Dra. Nadja e a mesa que mediamos, composta pelo Dr. Alexander e pelo doutorando Marcelo Gulão, que trataram do método de Kardec. Ambos mostram como o trabalho de Kardec foi cuidadoso, e, de certa forma, considera-lo apenas como codificador não revela a dimensão de pesquisador e pensador que esteve presente na construção de sua obra. Citei o livro “A temática espírita na pesquisa contemporânea”, que contém um artigo de Alexander e Klaus sobre a metodologia de Kardec, e o capítulo que publiquei do livro “O espiritismo, as ciências e a filosofia”, que mostra como Kardec empregou a hermenêutica em seu trabalho e como ele antecipou em meio século algumas das ideias da fenomenologia de Husserl. Os livros foram muito procurados pelos presentes, quase se esgotando, tal o interesse do tema.

O Prof. François Gaudin fez uma palestra interessantíssima sobre Maurice Lachâtre, que é conhecido no Brasil apenas pelo episódio do auto-de-fé de Barcelona, mas que tem uma longa trajetória de atuação em favor das ideias socialistas e de parceria com Allan Kardec. Lachâtre, por exemplo, fundou um banco de trocas com Rivail, que chegou a ter 500 participantes, mas de vida curta. Gaudin nos apresentou a inclusão do espiritismo nos dicionários e enciclopédias de Lachâtre, que foram muito vendidos em sua época.


Luciano Klein Filho

Dos brasileiros tivemos a presença bem humorada e muito erudita de Samuel Magalhães e Luciano Klein Filho. Ambos trataram das origens do espiritismo no Brasil, especialmente no Amazonas e no Ceará, terra de Bezerra de Menezes. Ambos estudam e pesquisam seus temas há muitos anos, têm livros publicados, e conhecem com detalhes espíritas como Bezerra de Menezes e Ana Prado. A recuperação da história do espiritismo no Amazonas mostra o quão pouco conhecemos em geral da história do nosso país e do nosso movimento.

A mesa francesa, composta por Vincent Fleurot e Olivier Geneviéve, que encerrou a tarde de sábado, mostrou o esforço conjunto entre Niterói e Lyon para homenagear publicamente a memória de Allan Kardec. Hoje existe um menir de Allan Kardec em Lyon, que foi construído próximo ao local de nascimento do fundador do espiritismo, na rua Sala. Em Niterói, cidade irmã, se construiu um monumento na praça Allan Kardec, que foi restaurado e visitado como parte do Encontro, nas sexta feira pela manhã. As camisas do encontro têm representados os dois monumentos.


Dora Incontri

Não pude assistir as conferências de Dora Incontri e Yasmim Madeira, em função dos horários de voo de retorno a Belo Horizonte. Dora enfrentou alguns problemas com a projeção das imagens que ela havia planejado, mas seu domínio e conhecimento prevaleceram no pouco que pude assistir de sua conferência sobre o diálogo entre espiritismo e universidade.

Nos intervalos, onde um encontro pessoal aconteceu, quando pudemos conhecer pessoalmente pessoas como Cláudia Bonmartin, pioneira da reconstrução do espiritismo em Paris e Europa, Mauro Camargo, escritor radicado em Santa Catarina, Darcy, pioneira das Comeerjs de décadas atrás e atuante na CEERJ, e muitas pessoas que foram participar do evento, jovens, estudantes de pós-graduação, trabalhadores de frente do movimento espírita do Rio de Janeiro, entre muitas outras pessoas. Foi muito bom encontrar e conhecer pessoalmente muitos dos atores da nova relação que se estabeleceu  no final do século XX, entre França e Brasil, espíritas.

2 comentários:

adolpho nogueira disse...

Excelente matéria. Apenas para registrar o rápido equívoco do autor, que, por descuido, registro como sendo o estado do Ceará a terra natal de Adolpho Bezerra de Menezes Cavalcanti. Ele nasceu em Pernambuco.

Jáder Sampaio disse...

Amigo, obrigado pelo comentário atento e respeitoso. Perdoe-me, mas Bezerra de Menezes não nasceu eu Riacho do Sangue? Este município pertencia a Pernambuco, àquela época? Luciano Klein Filho (Bezerra de Menezes, Fatos e Documentos), afirma que hoje a Fazenda Santa Bárbara, onde Bezerra de Menezes nasceu, pertence ao município de Jaguaretama - Ceará. Jaguaretama fica na fronteira entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, como se pode ver na página 26 do referido livro.