2.4.14

Alma, Espíritos e espírito: qual a diferença para Allan Kardec?


Ilustração de Gustave Doré de A Divina Comédia. Dante e Virgílio estão no sexto ciclo.

Um dos temas que costumam causar polêmica na obra de Kardec é a dupla definição de espírito/Espírito que ele faz em “O livro dos espíritos”.

Na questão 23 ele define espírito (com e minúsculo) como o “princípio inteligente do universo”. Esta definição não constava da primeira edição do livro, bem como a discussão sobre Deus, espírito e matéria (questão 27), na qual Kardec tenta distinguir “o princípio de tudo o que existe, a trindade universal”.

Essa trindade assemelha-se à de um dos autores espirituais de “O livro dos espíritos” quando encarnado: Platão. Ele propõe como trindade o demiurgo (o criador do mundo), a matéria e as ideias puras.  

Observa-se que neste início do livro, Kardec define espírito “em princípio” ou como princípio, não como ente.  Este “princípio inteligente do universo” não existe separado da matéria, embora possa estar ligado a uma forma material tão sutil, que para nós “é como se não existisse” (questão 186)

Prosseguindo , ele faz uma nova definição na questão 76, mas agora está falando dos Espíritos, com a letra “e” maiúscula. Estes, sim, são entes, seres que se encontram na natureza, no mundo espiritual, como define Kardec.  Ele define, portanto, como “seres inteligentes da criação” e ainda redige uma nota que os leitores desavisados costumam não dar muita atenção: “A palavra Espírito é empregada aqui para designar as individualidades dos seres extracorpóreos, e não mais o elemento inteligente do universo”.

Neste momento, Kardec passa a tratar dos seres humanos desencarnados, que existem no mundo espiritual com um períspirito que os delimita à percepção dos demais e dos médiuns. Perceba o leitor que, a partir da questão 76, ele passa a usar a palavra Espírito com maiúscula, mesmo quando ela aparece no meio da frase, para deixar claro que não está se referindo ao princípio inteligente, mas aos seres inteligentes.

Uma curiosidade: na primeira edição de O Livro dos Espíritos, Kardec usa sempre a palavra francesa esprit ou esprits com letra minúscula. Na segunda edição é que encontramos a distinção de esprit e Esprit ou Esprits. Confiram no site do IPEAK:



Por fim resta-nos distinguir Espíritos de almas. Kardec emprega a palavra Espírito para tratar dos desencarnados e alma  (questão 184) para tratar do Espírito dos encarnados.

Concluindo:

O espírito é um elemento universal, de essência distinta da matéria (e de Deus, obviamente)

Os Espíritos são seres inteligentes, desencarnados, que só existem ligados a um envoltório semimaterial denominado períspirito.


As almas são os Espíritos encarnados.

3 comentários:

Alexandre disse...

Oi Jader, oi Amigos,

Eu gostaria de acrescentar um comentário sobre a distinção entre os conceitos de alma e Espírito (com E maiúsculo).

Embora no Livro dos Espíritos, encontremos aquela definição de que "a alma é um Espírito encarnado", essa definição, na verdade, não distingue os conceitos de alma e Espírito. Só se entende a afirmação acima se previamente tivermos os conceitos de alma e Espírito.

A gente encontra uma definição filosófica muito importante, na minha opinião, feita por Kardec em O Que É o Espiritismo, item 14 do Capítulo 2. Kardec apresenta definições filosóficas para os conceitos de alma e Espírito, onde o segundo é definido em termos do primeiro. Eu não vou transcrever aqui o item 14 para não abusar do espaço, mas sugiro fortemente que os interessados no assunto leiam e percebam a lucidez de Kardec.

Um abraço,
Alexandre F. Fonseca

Jáder Sampaio disse...

Excelente contribuição, Alexandre. No item 7 do capítulo 2, Kardec diz: "Os Espíritos não são, como supõem muitas pessoas, uma classe à parte na criação, porém as almas, despitas do seu invólucro corporal, daqueles que viveram na Terra ou em outros mundos."

No item 14, que você citou, ele afirma: A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

Ele privilegia a alma como "locus" de produção das funções psicológicas, e na observação ele reafirma:

A alma é assim um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo.

Para Kardec, portanto, o conceito de Espírito envolve o "espírito ou alma" e o perispírito, como havíamos argumentado anteriormente.


Anônimo disse...

Estava fazendo uma pesquisa para um documentário e eis que encontro maravilhas. Voltaremos!

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