16.4.11

VANDIR, CHICO E A POBREZA.


Foto: Vandir Dias e Chico Xavier



Acho que já contei aos leitores que quando era universitário procurei o DA do Instituto de Ciências Exatas para pedir ajuda para fazer uma campanha de natal. A reação já era esperada: os representantes discentes disseram que não queriam "amansar o cordeiro".


Olhei com estranheza. Eles esperavam que as pessoas se indignassem com sua condição e fizessem uma revolução político-econômica no Brasil. Lembrei dos assistidos da casa de Célia, às voltas com a sobrevivência e a violência, o alcoolismo e o abandono, abandonando a escola por não ter dinheiro para comprar cadernos. Lembrei das crianças escaldadas pelos pais, da mãe que não queria tomar o remédio do médico que a atendeu em 2 minutos exatos, dos filhos de muitos pais desconhecidos, e de toda a luta que principalmente as mães empreendiam por seus filhos.


O discurso de "ensinar a pescar" já existia no movimento espírita e nossa casa tinha algumas frentes de promoção social ligadas a algumas frentes de assistência social.


Há alguns meses recebi o livro abaixo, presente do Sr. Carlos a pedido do Dr. Ademir Xavier. Coloquei-o na fila, curioso, mas com muitas atividades por fazer. Há uma ou duas semanas pude começar a lê-lo e não parei mais.





Capa do Livro: Vandir Dias: Voluntária do Amor



A autora, uma jornalista, escreve de forma clara e direta. Vandir é uma jovem da região de Monte Carmelo, franzina e doente, que tem contato com o Espiritismo e com Chico Xavier, ainda solteira.


A dor a atraiu ao meio espírita e ela apreendeu como ninguém a paradoxal lógica da caridade do médium mineiro.


Tendo mudado para Campinas, no interior paulista, com dificuldades financeiras e família em formação, ela inicia seu trabalho alimentando os pobres.


Uma frase de Chico parece tê-la marcado: "não basta doar, é preciso ir onde estão os pobres". Vandir resolve criar uma sopa na região do Grameiro, à época uma grande ocupação de migrantes de todo o Brasil, sem qualquer infra-estrutura ou ação do governo.


Vera Longuini foi muito feliz ao recuperar as notícias da época e descrever o Grameiro. Eu revi nesta leitura a população do Bairro Cabana nos anos 70/80 em nossa capital, especialmente os trechos de ocupação.


Neste ponto o livro é uma aula de política. Um europeu veria no Grameiro uma cena de guerra, mas nós já estamos acostumados com a pobreza, e só vemos um lugar inóspito e sem higiene. Por muito menos as pessoas se organizam em mutirões para socorrer quem perde a residência por causa de uma chuva ou intempérie, mas ninguém se incomoda com quem nunca teve onde morar.


Os pobres de Vandir necessitavam de tudo. Sem terra, sem casa, sem comida, sem estudo, sem nada. Sub-cidadãos; sub-humanos. Uma tarefa muito superior às costas de uma frágil esposa de classe média, cujo único recurso são os amigos, o verbo e a disposição para realizar.


Vandir chegou a montar uma estrutura no meio da favela do hoje próspero município, distribuindo sopa a duas mil pessoas, roupas e medicamentos. Seu trabalho era a demonstração cabal da incapacidade do estado e da indiferença da sociedade. Aos poucos, como uma Madre Tereza, ela agrupa ao seu redor toda uma comunidade de simpatizantes, pessoas que se importam, e que com suas possibilidades e compromissos, vão construindo o Movimento Assistencial Espírita Maria Rosa (nome de um espírito que se comunicava por Vandir), que tem na escolha do nome a mão de Chico.


A autora não esconde as dificuldades, a violência, as relações com o poder público, as transformações que Campinas vai sofrendo e aponta o deslocamento da miséria nos anos 70. Vandir é uma mulher perceptiva, vai entendendo as mudanças e alterando sua ação no passar do tempo. Desloca-se do Grameiro para o Jardim Campineiro. Os casos emocionam e fazem pensar.


É impossível não admirar esta pequena grande mulher, esta andorinha, como a alcunhou o amigo Eduardo Carvalho Monteiro. Ela não solucionou os problemas da comunidade de Campinas, mas mudou a trajetória de muitas famílias, mais que isso, ela fez com que muitas pessoas se importassem.


Não desejo escrever muito para que o leitor do EC se interesse pelo livro. Ele descreve uma das heranças que Chico Xavier legou ao Brasil, que o tornou merecedor da indicação ao Nobel da Paz.


Mais um dado, o MAE Maria Rosa mudou. Ele acompanhou o surgimento dos postos de saúde nas comunidades atendidas, das escolas públicas e de outras ações sociais que os governos brasileiros implementaram nas últimas décadas, redimensionando suas ações e suas finalidades.


Os interessados podem acessar o site do MAE Maria Rosa, hoje no http://www.maemariarosa.org.br/ e neste mesmo site encomendar o livro, que está sendo vendido por apenas quinze reais. Pedidos para maemariarosa@gmail.com, aos cuidados de Ademir Xavier.

5 comentários:

léia mendes disse...

sou uma das filhas da dona sebastiana ,amigíssima da tia vandir,sou filha daquela que sol ou chuva estava presente na vida daquelespobres nessecitados de fome ou frio ,mas que encontravam conforto quando minha mãe fazia sua visita e os cadastravam para receber e suprir suas nacessidades,e eu muito pequena acompanhava minha mãe,entre tanta bondade e carinho nas suas visitas,não sabia nem ler nem escrever,mas sabia o valor da bondade.

Jáder Sampaio disse...

Léia,

Seja bem-vinda a este espaço. Você não imagina como ficamos felizes quando alguém se emociona pela lembrança de um ente querido, que a recuperação da história faz presente mais uma vez.

Um abraço fraterno.

Jáder Sampaio

wagner disse...

Vandir Dias... A dama da caridade tive o prazer de ti conhecer, obrigado por tudo que você fez pela minha familia na decada de 70, vc é luz!!! Obrigado pela sua existencia.

Vera Longuini disse...

Fico feliz que tenha gostado do livro. Pode ter certeza de que ele foi elaborado com base em muitas pesquisas e depoimentos e da minha própria vivência, uma vez que frequento a casa desde antes dos 10 anos de idade, onde era levada por minha mãe, Maria Helena Badolato Longuini, uma das voluntárias ... O trabalho continua no MAE Maria Rosa, agora sob o comando de Celina Dias, filha da Vandir, que deve estar orgulhosa de sua pimpolha.... No próximo ano o MAE Maria Rosa comemorará 50 anos. Estamos programando uma nova edição, ampliada, do livro.... Grande abraço Vera Longuini

Jáder Sampaio disse...

Vera,

É uma bela história, muito bem contada! Não conheci a Vandir, mas sua história me fez recordar dos trabalhos sociais que nosso centro espírita fazia aqui em Belo Horizonte, na minha adolescência.

Desejo muito sucesso na ampliação do livro, e espero que se lembre do Espiritismo Comentado para podermos divulgá-lo, quando vier à luz.

Um abraço fraterno

Jáder