12.7.11

REENCARNAÇÃO E CRISTIANISMO

Figura 1: Constantino queimando livros de Arius. Ilustração de um compêndio de lei canônica . Fonte: Wikipedia (inglês) verbete "First Council of Necaea"


Vez por outra recebo a visita de leitores evangélicos e católicos no blog. Eles deixam alguns comentários que nem sempre publico, por fugirem totalmente ao tema tratado ou por entender que se prestam a um diálogo de surdos.

Recentemente recebi um comentário no qual o autor afirma que o espiritismo "nega pelo menos 40 verdades da fé cristã" e que "a crença na reencarnação é incompatível com o cristianismo ou doutrina cristã". Ele questiona por que o movimento sonega ou esconde este fato dos seus adeptos.

Também recentemente um professor de religião de uma de minhas filhas ensinou que o espiritismo não faz parte do cristianismo, porque, entre outras coisas, não acredita na doutrina da trindade, embora os espíritas se considerem cristãos.

1. A Questão da Trindade

A questão da trindade não era pacífica no início do cristianismo, tanto é que foi convocado um concílio no ano 325 para tratar do tema, o Concílio de Nicéia. Se a trindade foi objeto de discussão, em um encontro de representantes do cristianismo, é sinal que se tratava de um tema polêmico. Desconheço um concílio ou sínodo católico para discutir se a existência de Deus é um princípio cristão, posto que é ponto pacífico e universal.

Ário ou Arius (ou ainda Arrius, como prefere Rodrigues) foi um dos membros da escola de Alexandria que negava que Deus e Jesus participassem de uma mesma substância. Sobre o Concílio de Nicéia, pode-se ler o livro "A Esquina de Pedra", escrito por Wallace Leal V. Rodrigues, editora O Clarim, que entremeia uma narrativa romanceada a informações sobre o concílio e a época. Ao final deste livro ele insere uma nota na qual faz referência ao livro "History of the First Council of Nice", de Hilton Hotema, e cita o seguinte:

"Além de Constantino e Eusébio de Cesaréia, apenas 300 bispos votaram no esquema de Constantino e que estes eram ... 'homens iletrados e simples, incapazes de compreender o que se passava'... Esses prelados ignorantes, aflitos de refressarem às suas cidades e temerosos de serm tomados por hereges, concordaram com o imperador, ansiosos de ver terminado o Concílio." Segundo o autor, 1800 bispos participaram do Concílio.

Outra afirmação do Prof. Hotema é com a vitória de Constantino, Arius foi considerado herege e excomungado. Seus escritos se tornaram escassos porque foram destruídos, como era habitual à época. Isto se pode ver na figura 1.

O que se pode concluir é que a trindade não era doutrina oficial da igreja antes do ano 325. Se ela for considerada condição sine qua non para ser considerado cristão, muitos dos cristãos, mártires e talvez pais da igreja dos primeiros séculos serão considerados hereges.

O livro "Cristianismo, a mensagem esquecida", de Hermínio Miranda o tema é abordado e ele faz referência a um teólogo contemporâneo, Hans Küng, que propõe seja Jesus considerado homem e que haja entendimento entre as religiões, e que a adesão ao credo niceano não seja o critério para a identificação do cristão. Nesse livro, o tema também é tratado, ao contrário do que afirma nosso crítico. E a reencarnação, pode ser considerado um ponto polêmico da comunidade cristã dos primeiros séculos?
2. A Questão da Reencarnação

A reencarnação, tão contrária a alguns dogmas católicos, é ainda mais bem tratada na literatura espírita que a questão da trindade. Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, dedica um capítulo inteiro a explicar passagens que sugerem: que a reencarnação era conhecida pelos judeus e que pode-se interpretar diversas passagens envolvendo os ensinos de Jesus como sendo favoráveis à tese reencarnatória.

Dois dos discípulos de Kardec escreveram livros sobre a reencarnação (Denis e Delanne), mas Denis acrescenta muita informação ao debate, ao mostrar em seu Cristianismo e Espiritismo, como a reencarnação era crença conhecida em meio aos judeus (através de citações de textos originais), com muitos exemplos, e defender a tese da doutrina secreta, ou do sentido oculto dos evangelhos. Ele cita passagens dos pais da igreja favoráveis à reencarnação, e a famosa dúvida de Santo Agostinho. Nele vemos a questão da reencarnação presente na comunidade e nos teólogos de Alexandria, antes do século IV.

Fosse a reencarnação um fenômeno pontual, não teríamos o episódio medieval dos cátaros, que foram vítimas de genocídio em função dos interesses da igreja, como nos mostra Hermínio Miranda em seu livro "Os Cátaros e a Heresia Católica"?

Outra fonte que trata desta questão é o livro "A reencarnação segundo a Bíblia e a Ciência", escrito por José Reis Chaves. Este mesmo autor trata rapidamente do concílio de Nicéia no seu "A Face Oculta das Religiões".

3. Concluindo

Se admitirmos uma visão histórica, o espiritismo é uma releitura do cristianismo, em sintonia com muitos estudiosos do pensamento e vida de Jesus, de dentro e fora da igreja católica. Desta forma, não se trata de sincretismo, posto que desde o seu primeiro livro ele se propõe a fazer uma leitura racional dos evangelhos e elege o cristianismo como uma referência ética.

Se reduzirmos o cristianismo à igreja e seus dogmas, entendemos que teremos o catolicismo, que é algo muito menor que o pensamento e a comunidade cristãos. Com certeza, há tensões diversas entre o pensamento espírita e o católico, ou seja, espiritismo não é catolicismo; contudo, o cristianismo não se subsume ao catolicismo e às doutrinas evangélicas queiram seus membros admiti-lo ou não.

Por fim, não se oculta nada da comunidade espírita. Via de regra, o espiritismo é um conhecimento público, e cada vez mais acessível, mas cabe ao que se diz espírita e ao que se diz crítico do espiritismo estudá-lo.

11 comentários:

Sérgio Cabelera disse...

É muito interessante esse tipo de argumentação pseudo-contraditória tantas vezes aventada por muitos que jamais se deram ao trabalho de ler (nem digo estudar!) uma só obra básica da DE e, ainda assim, se acham cheios de conhecimentos sobre a temática e sugerem questões tão velhas e batidas, além de absolutamente infundadas.

No livro O espiritismo segundo a biblia, jose reis chaves (ex-seminarista) tb aborda alguns desses pontos "contraditórios" do espiritismo com a bíblia. também é interessante o livro As traduções Bíblicas, no qual o autor pontua uma série controvérsias existentes nessas diversas "versões" do livro sagrado. Igualmente o metrstre lyonês apresenta-nos tb divergencias entre as traduções desse mesmo livro que podem ser acessadas nos textos da igreja grega comparado à igreja latina. Enfim, muitos são os pontos desconhecidos por tantos que insistem em negar que o Sol nasce para todos e que Deus não privilegia ninguém, seja de que fé for.

Matéria + Consciência + Mente = Ciência Noética disse...

Eu sou católica, mas aprecio muito a filosofia do espiritismo, pois há mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, como já dizia Willian Sheakespeare.
O ideal é que estejamos sempre abertos para novos conhecimentos, sem críticas destrutivas.
Percebo em minha religião que há muita prepotência quando se discute alguns mistérios bíblicos; como se o catolicismo mostrasse que somente "essa religião está correta".
Não é bem por aí...não é esse o caminho.
O que fazer então?
Pensar que pelo menos temos um pensamento em comum: "Fazer o bem sem olhar a quem". Essa é uma regra que devemos assumir com responsabilidade e devoção!!!
Um abraço!

Matéria + Consciência + Mente = Ciência Noética disse...

Eu sou católica, mas aprecio muito a filosofia do espiritismo, pois há mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, como já dizia Willian Sheakespeare.
O ideal é que estejamos sempre abertos para novos conhecimentos, sem críticas destrutivas.
Percebo em minha religião que há muita prepotência quando se discute alguns mistérios bíblicos; como se o catolicismo mostrasse que somente "essa religião está correta".
Não é bem por aí...não é esse o caminho.
O que fazer então?
Pensar que pelo menos temos um pensamento em comum: "Fazer o bem sem olhar a quem". Essa é uma regra que devemos assumir com responsabilidade e devoção!!!
Um abraço!

Ricardo disse...

Acrescentaria como fonte para importantes esclarecimentos o livro 'Analisando as traduções ´bíblicas" de Severino Celestino.Paz a todos!

Jáder Sampaio disse...

Grato pelos comentários. Tenho uma enormidade de amigos católicos e evangélicos, a quem muito admiro e respeito. São pessoas especiais.

Um abraço

Jáder Sampaio

Janaina disse...

Aqueles que se utilizam de "rótulos" religiosos para atacar a quem não lhes compartilham das mesmas ideias, fere o princípio básico do cristianismo que é: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo".

Juliana disse...

Oi Gostei muito do seu blog
Gostaria de convidar a acessar e a comentar o blog
http://palestraspatrick.blogspot.com/
Vamos divulgar a boa nova para todos os cantos.

abraços
Juliana

Thiago disse...

A Juliana foi ao ponto: o maior mandamento. "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo" deve ser o norte de qualquer avaliação cristã.

Antes que qualquer um lance ataque ao espiritismo, tomando o texto bíblico por referência e validador, lembro-o dessa regra maior. Que o cristão interprete a mensagem bíblica como prefira, desde que sob esse prisma. Não tem como dar errado.

Gostei muito desses seus dois últimos posts.

Abraços.

Amaisqallan disse...

... o episódio medieval dos Cátaros, que foram vítimas de genocídio em função dos interesses da igreja, como nos mostra Hermínio Miranda em seu livro "Os Cátaros e a Heresia Católica" : Os Cátaros já falavam da reencarnação 700 anos antes de A. Kardec. Porém os Maniqueus, cristãos gnósticos que antecederam os Bogomilos e os Cátaros a ensinavam 700 anos antes deles na Pérsia (hoje Irã) :
E tiveram destino igual ao dos Cátaros - foram dizimados impiedosamente por uma cruzada organizada por Agostinho, bispo da igreja romana. E 700 anos antes dos Maniqueus, os Essênios ensinavam sobre a reencarnação. Eles se tornaram os primeiros cristãos (gnósticos), seguidores de João Batista e de Jesus, e passaram tal ensinamento para os cristãos dos séculos I, II e III.
Os Essênios de Israel foram dizimados pelas tropas romanas durante a guerra que houve no ano 70 DC.
A igreja romana (ortodoxos)formou-se no século IV (325 DC), e passou a perseguir os verdadeiros cristãos dos primórdios, e baniram o ensinamento da reencarnação e
também os cristãos originais que a ensinavam, a partir de então. Mas os cristãos gnósticos não desapareceram, atuaram e atuam até o momento em faternidades discretas, espalhadas por todo o mundo, aguardando o momento certo para revelarem os mistérios milenares que envolvem a reencarnação.

Um pequeno servo disse...

Prezado Jader,

muito bom seu trabalho. A partir de hoje, seu blog fará parte do meu.

Grande Abraço,
André

Chicoxavierecia.blogspot.com

Widukind disse...

Interessante o tema abordado. Tenho escrito sobre isso em meu sitio: www.widukind.net