11.11.12

COMO NÓS, ESPÍRITAS, PODEMOS NOS PREPARAR PARA A MORTE?


Noite estrelada, de Van Gogh - Vista da noite da janela do seu sanatório, pintada de memória


Discutíamos o tema separação entre a alma e o corpo no Centro Espírita Simão Pedro, em Belo Horizonte, e um dos participantes fez a pergunta que intitula nossa matéria.

Seguramente, o conhecimento espírita nos dá um quadro de referências que pode ser extremamente útil no mundo dos espíritos. Uma vez desencarnados, se em condições medianas, temos alguma noção clara da continuidade da vida, do reencontro dos afetos, do papel do pensamento, etc. Contudo, o ser humano é mais que conhecimento, porque os sentimentos e as sensações, desempenham um papel tão ou mais importante que o saber em assuntos vivenciais.

Irmão X tem um trabalho importante chamado “Treino para a morte”, publicado no livro Cartas e Crônicas, psicografado por Chico Xavier. É uma boa leitura para se pensar em ações práticas para a morte. Em resumo, ele mostra muitas situações em que viver a vida é fundamental para se preparar para a morte.

Uma das questões importantes na nossa cultura é nos habituarmos a falar sobre a morte. Ela ainda é um tabu, um assunto proibido, que fica ainda mais difícil de conviver quando cruza o nosso caminho, através da perda dos relacionamentos afetivos. Recordei-me das gerações anteriores a minha, que considerava que não se devia falar sobre a morte porque “a atrairia”. Muitos diziam também que cemitério não é lugar para criança. Frequento uma clínica de hemodiálise, na qual a morte está sempre “batendo ponto”, e o assunto é visto como perturbador, ao ponto de não se comunicar aos pacientes que um colega querido se foi, impedindo-os de prestar as últimas homenagens e de dar um abraço de conforto na família, o que seria possivelmente agradável ao que se foi, em um momento tão difícil.

Preparar-se para a morte, então, começa com conversar sobre ela, em aceitar sua realidade e a finitude do corpo, levar a sério a ideia que estamos aqui por um período e que ele pode findar-se a qualquer momento. A proximidade da morte, com as doenças ou a idade avançada, pressupõe sabedoria para entender os limites do corpo e para preparar o grande momento.

Acertar-se com os desafetos que colecionamos em momentos impensados é também um bom exercício, principalmente se aconteceu a partir de futilidades e vaidades feridas. Os assuntos que varremos para “debaixo do tapete” (quem não os tem?) são uma boa fonte de perturbação no mundo dos espíritos.

O desapego gradual dos bens materiais é também um bom exercício para a morte. Não estou pregando que nos tornemos Franciscos de Assis, da noite para o dia, mas que identifiquemos aquelas coisinhas com que nos prendemos e saibamos abrir mão delas aos poucos. Nossa dirigente já desencarnada, Ada Eda Magalhães, quando começou a perceber a proximidade da visita da morte, passou a presentear aos amigos com as lembranças que ela colecionava de suas viagens ao exterior. Os enfeites de casa, os livros, pratos, iam de suas mãos para as mãos dos amigos queridos. Ela não dilapidou a herança dos filhos e netos, mas só pude perceber sua sabedoria neste ato quando, após sua desencarnação, passei pela sala de minha residência e vi um de seus objetos, que me remetiam às melhores recordações dos anos em que mantivemos nossa amizade “intergeracional”. Ela certamente irá perceber, onde estiver, os pensamentos de carinho dos amigos que ficaram.

O desapego não é algo que se refere aos objetos, há também os cargos e as pessoas. Viver é desapegar-se. Os pais que não aprendem a mudar seu comportamento ante os filhos que crescem e ganham autonomia, tornam-se fonte de perturbação na vida deles. Os trabalhadores que se aferram a um cargo, uma patente militar, uma distinção, não se preparando para a aposentadoria, ficam como um cão faminto diante de seu osso já roído e sem nenhuma fibra de carne. Nossas realizações valem pela recordação de as termos concluído, pela gratificação do reconhecimento, quando ele vem dos demais, mas principalmente do que nós sentimos ao terminar nossa tarefa. Elas moram no passado e não no presente, agrilhoando-nos. Aprender a desligar-se de algo que fizemos por muitos e muitos anos não é exercício fácil, especialmente no mundo masculino, na nossa cultura.

Perceber que a morte do corpo nos espreita, é a realidade da vida. Ele começa a morrer quando nasce, só não sabemos ao certo quando isto se dará. Então, viver bem a vida é a melhor preparação para a morte, que deixará de ser o bicho papão da noite da existência e se transformará no misterioso casulo de lagarta, portal de uma nova realidade.

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