4.2.14

AS PESSOAS COMUNS PODEM LER A BÍBLIA?



O "Livro dos Mártires" é uma obra simpática à reforma que, além da história dos mártires do cristianismo primitivo, narra os detalhes dos debates entre católicos (chamados de papistas) e reformadores da igreja (chamados de protestantes) que levaram principalmente estes últimos à fogueira, na Inglaterra e Escócia dos séculos XV e XVI.

Muito curioso o debate inquisitorial que se estabeleceu entre o Mestre Latimer e Buckenham, prior dos Beneditinos. À época, católicos romanos resistiam à ideia de permitir a tradução da Bíblia do latim para os idiomas usados na Europa. Latimer, percebendo os abusos dos príncipes da igreja, tornou-se simpatizante desta proposta reformista. Buckenham tenta demovê-lo deste ponto de vista (o que é raro no livro, de ordinário o que se buscava era a constatação da heresia, sem debates, para enviar hereges para o poder temporal, que lhes daria a fogueira, às vezes com um toque de sadismo da parte de padres e militares, às vezes não).

Buckenham desenvolve um argumento curioso:

“Primeiro apresentou-se Buckenham, o prior dos beneditinos, declarando que não era oportuno que as escrituras fossem apresentadas em inglês para evitar que os ignorantes corressem o risco de abandonar a sua vocação. O lavrador, por exemplo, quando tomasse conhecimento de que no evangelho “Nenhum homem que, tendo posto as mãos no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus”, poderia talvez abandonar sua vida de lavrador. Da mesma forma, o padeiro, quando soubesse que um pouco de fermento altera a massa toda, poderia eventualmente deixar nosso pão sem nenhum fermento, e assim, nossos corpos sofreriam.”

A réplica de mestre Latimer foi irônica, e ridicularizou o exemplo do padeiro. “No mínimo se exigiria que ela (as escrituras em inglês) tivessem uma história muito longa na língua inglesa para permitir que os ingleses ficassem loucos a tal ponto que o lavrador não ousasse olhar para trás e o padeiro deixasse de fermentar seu pão – Toda fala – disse ele – tem suas metáforas e significações figuradas.”

Quinhentos anos se passaram e a igreja católica não foi capaz de impedir as traduções da Bíblia para todo o mundo (felizmente), nem o desenvolvimento das ciências e das filosofias ocidentais, mesmo perseguindo e queimando os tradutores, quando o braço secular o permitia, caçando hereges e constrangendo da forma possível. Contudo, vejo hoje uma sociedade e uma juventude que após os textos virulentos de desconstrução do pensamento cristão pelos niilistas, como Nietzsche, ou pelos socialistas materialistas, como Engels e Rosa Luxemburgo, tem se tornado cada vez mais desconhecedora do pensamento cristão, e quando se arvora a criticá-lo, confunde o literal com o metafórico, entre outros problemas.


Como o pensamento cristão é fundamental para a ética espírita, precisamos incentivar o estudo dos evangelhos nas sociedades espíritas, para que os espíritas não se tornem ignorantes do cristianismo, e, portanto, presas fáceis à argumentação cética e niilista, nem tenham que se abster do uso da razão e das ciências para continuarem espíritas (o que seria o fim do espiritismo proposto por Kardec).

7 comentários:

Dilmar Gomes disse...

Amigo Jader, perfeita tua análise.
Um abraço. Tenhas um bom dia.

Alessandro A. R. disse...

Prezado, o que mais me incomodou ao estudar o espiritismo foram os dogmas cristãos adotados pela doutrina, pois uma coisa é dizer que podemos nos comunicar com os mortos, que é uma prática que pode ser verificada em várias religiões e até fora delas, e outra é dizer que Jesus é o governador da Terra e que o Espiritismo é o consolador prometido. Eu sinceramente não consigo crer nessas coisas pois pra mim não tem como provar isso, sendo assim, classifico isso como dogmas. O Chico Xavier disse que o Brasil seria a pátria do Evangelho. Ele acertou! Só que, pelo que vejo hoje, consultando dados do Ibope, noto que o número de espíritas cresceu pouquíssimo enquanto que o número de evangélicos subiu bastante e isso me faz pensar que as pessoas estão cada vez mais crentes na bíblia, que pra mim é um livro que foi escrito a muito tempo atrás pra conter a verdade, um livro que relata coisas que são impossíveis de acontecerem nos dias de hoje, que esteve na mãos dos Romanos e Católicos que, como todos sabem, eram intolerantes e sedentos por poder, então estas coisas só me fazem desacreditar nos textos bíblicos. Eu penso que não preciso assumir o título de cristão para ser uma boa pessoa e nem vou tentar provar isso, basta consultar a história da humanidade e procurar os bons e os maus elementos e você encontrará eles em todas as nações e religiões.

Jáder Sampaio disse...

Alessandro, tudo bem? Agradeço seus comentários. A questão da influência cristã no espiritismo começa com Allan Kardec, e não com Emmanuel ou Humberto de Campos via Chico Xavier. A questão do consolador, por exemplo, rigorosamente não é dogmática, porque Kardec argumenta em defesa da ideia e não "fecha questão". É um assunto tratado de forma racional e não apenas pela fé, que costuma ser a base do dogma religioso (verdades para crer). A questão dos evangélicos, na minha opinião, é uma pseudo-questão, porque ao mesmo tempo em que eles crescem, o número de católicos diminui. O número de ateus e agnósticos cresceu um pouco também na nossa sociedade brasileira. Dê uma olhada ampla nos dados do IBGE. O que me incomoda mais, não é que as pessoas se digam ou não cristãs, mas que elas conheçam cada vez menos o cristianismo. eu vejo isto na população universitária que temos e com quem trabalhei como professor por muitos anos, na presença cada vez mais escassa na grande mídia dos temas cristãos (a não ser nos nichos, como os programas evangélicos), etc. Quanto à análise dos evangélicos, não dá para desenvolver em um comentário, mas o movimento cristão primitivo (primeiros séculos) é muito diferente da igreja católica medieval. Recomendo como texto introdutório, o livro A Esquina de Pedra, de Wallace Leal V. Rodrigues, o Paulo e Estêvão, de Emmanuel, o Cristianismo e Espiritismo, de Léon Denis e o Cristianismo, a mensagem esquecida, de Hermínio C. Miranda. Podemos continuar com a conversa se quiser, mas seria bom que fosse um tema por post, ok?
Um abraço.

Alessandro A. R. disse...

Te agradeço pela resposta, bem formulada, e pelas referências literárias a respeito do cristianismo.

Eu li as obras básicas do Kardec, uma atrás da outra, com bastante empolgação, mas depois de um tempo algumas coisas (como as que eu citei) começaram a me incomodar. Kardec pode até não ter fechado a questão do consolador, mas como ele deu ênfase nisso, hoje em dias se vê muitos espíritas repetindo suas palavras, gerando revolta em outras religiões, pois as outras pensam que o consolador é o espirito santo. Eu penso o mesmo, pois muitos são consolados fora do espiritismo. Posso estar enganado, eu admito, mas esta é minha impressão.

Errei em citar o Ibope em vez do IBGE. Concordo que o número de católicos diminuiu mas acontece que "Entre os católicos é comum ter pessoas não praticantes, que se declaram católicos. E nas outras religiões não, o que se declara é um participante mesmo. Essa é a grande diferença. O evangélico, por exemplo, participa muito mais. É fiel aos princípios da igreja" (Cláudio Crespo - IBGE).

Eu não vejo problema em desconhecer o cristianismo. Existem pessoas que conhecem e nem por isso são tocadas pelo ensinamentos do Cristo. Acho que esses ensinamentos e tantos outros, criados pelo homens, formam um conjunto de ideias que definem o conceito de bom caráter que devemos seguir.

Pelo que sei a única fonte histórica do cristianismo se encontra na bíblia, certo? É certo que os livros espíritas exploram bem esse assunto, mas estes acabam não sendo aceitos fora do meio espírita, então a palavra está ali na bíblia e as pessoas as entendem da maneira que querem, gerando várias interpretações.

Desculpe por me estender no teu blog, apesar do assunto não ter sido esgotado. Não é o meu desejo dizer que estou certo e você errado e acredito que você pense o mesmo. O que eu penso, com sinceridade, é que um livro, seja histórico ou religioso, nem sempre apresenta toda a verdade, apesar disso, acho interessante a leitura, pois abre a mente para várias possibilidades.

Jáder Sampaio disse...

Anderson, é um prazer conversar com você. Creio que a mediunidade é consoladora, seja o espírito santo em denominações evangélicas ou carismáticas, seja através do Espiritismo. Kardec defende em O Livro dos Mèdiuns que há "espíritas sem o saber", o que mostra que não é uma questão de rótulo, concordo plenamente com você. No entanto, quando Kardec advoga que o espíritismo é consolador, ele está defendendo que o espiritismo faz recordar o cristianismo primitivo, que foi esquecido, como se vê claramente no caso da igreja medieval. Isso não significa que possamos desrespeitar as demais religiões, especialmente em seu esforço ético e humanitário.

Esse fenômeno dos católicos que vão uma vez por ano à igreja, é mais recente. A sociedade brasileira do século XIX era toda marcada pelo catolicismo, suas práticas, ritos, missas, etc. Mesmo até a metade do século XX, não dá para comparar o alcance do catolicismo na sociedade e o conhecimento (mesmo que ingênuo) que as pessoas tinham dos evangelhos. Mesmo atualmente, mais de 20% dos católicos vão à missa semanalmente, foi o que li na pesquisa do IBGE. Os evangélicos vão mais às suas comunidades (80 ou 90% vão semanalmente, se não me falha a memória). Os evangélicos, contudo, são apenas 20% da oopulação brasileira, enquanto os católicos são quase 50%, se não me falha a memória.
Quanto ao desconhecimento do cristianismo, é algo curioso, porque o que fundamenta a ética? O cristianismo tem por base a continuidade da vida após a morte (assim como o espiritismo), então toda a lógica de viver se transforma. O que é um bom homem, para uma sociedade de consumo, e o que é um bom homem ante uma concepção cristã-espírita da vida? São respostas muito diferentes, não dá para responder apenas com base em um senso-comum. Kardec, por exemplo, propõe a defesa do fraco contra o forte nas virtudes do homem de bem, em O Livro dos Espíritos. Por que eu faria isso, se fosse apenas um trabalhador em uma sociedade de consumo? O importante seria que eu trabalhasse, educasse meus filhos, juntasse dinheiro, respeitasse os contratos que fiz, etc. Veja que só em uma concepção cristã (e espírita) isso e outras propostas para o homem de bem, fazem sentido. E assim mesmo, Kardec diz que as pessoas não precisam ser espíritas para serem homens-de-bem.

Jáder Sampaio disse...

Se você aceita que Jesus é "modelo e mestre da humanidade", com afirmam os espíritos em O Livros dos Espíritos, o que ele fez, disse e viveu, passa a ser importante. Se não é importante, como você advoga, concorda que ele não é mais que uma pessoa comum, como qualquer outra? Não é essa a visão Kardequiana.

A Bíblia não é a única fonte histórica do cristianismo. Estou estudando os documentos dos primeiros cristãos, que foram traduzidos para o português recentemente e estão sendo amplamente disponibilizados pelo Vaticano. Há também os relatos de historiadores, os debates com os filósofos que trataram pró ou contra a questão do cristianismo, os documentos de comunidades cristãs primeiras que têm sido descobertos até o século passado.

A questão da interpretação é importante, por isso Canuto Abreu escreveu o livro "O Evangelho por fora", que trata da hermenêutica e da exegese dos evangalhos. O fato de haverem diferentes interpretações, de não mais haver uma leitura considerada oficial, não significa que se deva abandonar o estudo, pelo contrário. Freud e a psicanálise têm diferentes compreensões no movimento psicanalítico, nem por isso os psicanalistas desistem dele. Mesmo em áreas de conhecimento mais empíricas, como a física, há diferentes modelos e teorias explicativas para fenômenos menos conhecidos, nem por isso se desistiu de fazer física. Na psicologia, então, quantas escolas e abordagens. Você diria que as universidades devem parar de estudar psicologia por causa disso?

Uma coisa com a qual concordamos: não lemos a Bíblia como se fosse a "Palavra de Deus", como os nossos colegas de outras denominações cristãs. São os relatos das pessoas que conviveram com Jesus, que tentaram entender o que ele dizia, e que com todas as suas limitações, fizeram história...

Enfim, não é porque temos olhos diferentes que não podemos apreciar a beleza de uma mesma paisagem

Alessandro A. R. disse...

Muito boa a resposta, mas apesar disso eu tenho uma opinião um pouco diferente acerca do homem de bem. Não sou a favor do consumismo e do materialismo. Acredito que o homem de bem deva pensar no bem da sociedade onde vive, no meio ambiente, mas como todos sabem o governo é capitalista e dá poder aos empresários e a mídia que nos induz a comprar coisas que não precisamos. Não nego que o cristianismo auxilia na formação de um bom caráter mas não posso dizer que seja o único caminho correto pois senão eu estaria sendo injusto com aquele que forma seu caráter sendo budista, por exemplo. Como você citou, Kardec acredita que as pessoas não precisam ser espíritas para serem bons. Ele disse também para que a gente estude outras visões religiosas e até veja a opinião daqueles que são contra o espiritismo. Eu o admiro por isso. Não acho que Jesus seja uma pessoa como qualquer outra porque ele foi um dos poucos revolucionários do bem que esse mundo de bilhões de almas conheceu. Eu desconheço outras fontes antigas do cristianismo. Vou dar uma pesquisada sobre o assunto. Quanto a interpretação você está coberto de razão pois acontece em todas as áreas.