17.4.15

FESTA DE NATAL EM BELO HORIZONTE


Crianças no chão do auditório do Lar Espírita Esperança



Fui assediado por uma memória que teima em permanecer na mente. Junto com ela veio um sentimento bom, uma saudade alegre, que vou correr o risco de compartilhar com o leitor.

A Associação Espírita Célia Xavier faz há anos uma grande festa de Natal. É um esforço que envolve todas as reuniões (mais de oitenta, creio) e que gera cestas de natal para serem distribuídas pela comunidade que de alguma forma tem laços conosco. Cada reunião se responsabiliza por um item da cesta básica e fazem-se centenas de cestas. Creio que em seu auge, já chegou a milhares.

Para que a entrega das cestas não seja apenas uma entrega comum, a mocidade fazia uma peça teatral e cantava com o público. Dois meses treinando, e um domingo inteiro apresentando das oito da manhã às dez da noite, para um auditório cheio, com cerca de trezentas pessoas. Creio que com as deficiências de cenário, iluminação, roteiro e atores, éramos sem dúvida o grupo de teatro amador mais bem sucedido de Belo Horizonte (risos).

A experiência era notável. Geralmente vinham os pares de mãe e filho, ou mãe e amiga para ajudar a buscar a cesta, que chamávamos de farnel. Como era uma festa de natal, enquanto saía um grupo e chegava outro, cantávamos "Noite Feliz", o que evitava que as trocas se tornassem um momentâneo vozerio.

Quando iniciávamos o trabalho, Marlene Assis acolhia os visitantes, fazia-os levantarem-se, soltar o corpo, cantarem. Era mágico. Via mulheres entrando agarradas à sua bolsa, temerosas, olhando ao redor, mineiramente desconfiadas. Aos poucos elas estavam sorrido, muitas já com as falhas dos dentes, chinelo da havaianas, como se por um momento único pudessem voltar a brincar como crianças.

As peças costumavam fazê-las emocionar-se. Os roteiros eram histórias evangélicas, e os personagens eram galileus, romanos, judeus, homens e mulheres, que viveram há dois mil anos. Era comum ver o público chorar, olhar curioso e compartilhando cada cena com o coração.

Apesar da disciplina da saída, acontecia de alguém ir falar com os artistas, agradecer. "A cesta é um cafezinho que damos a vocês que nos visitam, dizia Marlene. O presente de verdade é esta festa."

Ao final nos reuníamos, exaustos, para comemorar o dia e fazer uma oração.

Houve no grupo quem criticasse o que fazíamos. Entendiam que se tratava de assistencialismo, que não promovia as pessoas. É verdade. Contudo, há horas que se deve parar de examinar apenas com a razão, e ampliar o olhar, para ver o significado das nossas ações para as pessoas.

Muitos anos depois, um espírito de nossa reunião, que era identificado como "Companheiro de Trabalhos", escreveu um conto no qual uma destas mães era a narradora. Para minha surpresa, minha colega do lado, na reunião, recordou-se da peça que acontecera daquele ano e me confessou: Eu fiz o papel de Maria.

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