19.6.15

DISCURSO VAZIO




Quando estudava em São Paulo, navegava muito pela internet à noite, após as aulas e o cansaço das leituras, e atraiam-me os grupos de discussão de temática espírita.

Recordo-me de um participante em especial que escrevia um fraseado todo emocional, repleto de apelos e metáforas, mas vazio de conhecimento. Parecia-me um arroubo sem significado, mas eu percebia que os membros do grupo se interessavam pelas postagens.

Uma amiga que fiquei conhecendo e que eventualmente encontrava no grupo, comentou-me.

- Você viu?
- Sim, por que?
- Nossa! É um espírito evoluído, não acha?

Não me lembro do que respondi, mas não achava. Anos de ambiente acadêmico treinaram-me em examinar frase a frase o sentido do que é dito em busca de inconsistências, imprecisões, entre outros problemas. Mais importante que pequenos pontos problemáticos sempre foi avaliar a contribuição dos trabalhos como um todo, sua consistência argumentativa e metodológica, se não se tratava apenas de um ajuntamento de citações sem sentido.

Um belo discurso sem conteúdo consistente assemelha-se a uma caixa de presente ricamente embrulhada, mas vazia. Causa uma grande impressão, seguida de uma decepção, quando aberta.

Talvez nossas reuniões públicas tenham criado este desvio. As pessoas assentam-se para ouvir uma preleção de uma hora, de forma passiva. O expositor, preocupado com o que vai falar neste tempo, prepara uma espécie de colcha de retalhos, entremeados em exortações com uma linguagem poética, mas, infelizmente, vazias de sentido, sem conexão com a realidade, com algumas histórias interessantes, que descansam a audiência do amontoado de frases. Um simulacro de erudição.

Quando se pergunta aos que assistiram a palestra qual foi o assunto e o que foi discutido, as pessoas respondem: - Não sei ao certo, mas foi tão bonito!

Recomendo a atenção de dirigentes, coordenadores e dos espíritas em geral, não para ficar obsessivamente à cata de pequenos erros nas exposições dos companheiros de doutrina, vigiando os gracejos, nem ficar vigiando o horário das reuniões com precisão de segundos e outras pequenezas. Estejamos prontos para um trabalho mais difícil, da análise da exposição como um todo, de seu papel e contribuição para o público, para que o discurso vazio não se torne a tônica do nosso trabalho.


Um comentário:

José Lourenço de Sousa Neto disse...

Gostei muito de ler isso, Jaider. Vc foi muito feliz na abordagem.
Acho que todos nós, que procuramos fazer alguma coisas nessa área das exposições, deveriam ler advertências como esta mais vezes.
Grande abraço,
Lourenço