5.3.18

O QUE ACONTECEU NO SEMINÁRIO "A GÊNESE: O RESGATE HISTÓRICO"?


Quase cinco horas da manhã, saí correndo de casa para não perder o voo das seis e vinte rumo a São Paulo. Tem coisas na vida que se não participarmos pessoalmente, nos arrependemos, e pensei com meus botões que esse seminário era uma delas.

Os quase quinze anos de ENLIHPE tiveram por fruto um grande número de amizades com pessoas dedicadas e estudiosas do espiritismo da região da capital paulistana e de outros lugares no Brasil. Eduardo Monteiro tinha razão, é preciso que nos vejamos pessoalmente, para criar vínculos que a internet não cria, e às vezes até atrapalha.

Fiquei acompanhando os bastidores da organização, mercê dos amigos trabalhadores que se empenharam em traduzir o livro de Simoni Privato, trazê-la ao Brasil para apresentar o resultado de suas pesquisas e dialogar sobre seus achados com os brasileiros. Inicialmente o evento seria no auditório da USE. Como ele lotou, foi para outro espaço, que também ficou pequeno. Escolheu-se, por fim, o Teatro Gamaro, que comportou confortavelmente as 450 pessoas que foram. Sabe-se lá quantas acompanharam a transmissão simultânea da Rede Amigo Espírita...

O interesse dos participantes era óbvio. A incansável Julia Nezu montou uma mesa com representantes de federativas (São Paulo, Minas Gerais, Amazonas e Amapá) e de associações espíritas presentes (Associação Jurídico Espírita do Rio de Janeiro e da Bahia; Instituto Espírita de Estudos Filosóficos e Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas). Outras organizações espíritas estavam presentes, como a CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana), Jornal Correio Fraterno, Instituto Espírita de Educação e TV Mundo Maior. Meu amigo Jáder Antunes foi colhido de surpresa, porque pensava que iria assistir confortavelmente no público, mas cumpriu o pedido da organização. A simpaticíssima presidente da Federação Espírita Amazonense, nos saudou um um abraço do tamanho de seu estado. A presença de Heloísa Pires atraiu aplausos dos presentes, uma vez que sua presença simbolizava todo o trabalho de Herculano Pires, da Paidéia (a editora das obras dele, e de outras), dela própria e de sua família, talvez menos conhecida fora de São Paulo, mas envolvida no trabalho de memória e divulgação do pensamento de Herculano. 

Uma carta do presidente da Confederação Espírita Argentina, Gustavo Martinez, foi lida, apresentando Simoni e desejando sucesso ao evento. Ao se preocupar com qual edição de A Gênese publicar, ele acabou sendo o desencadeador e o apoiador de todo o trabalho que a pesquisadora nos apresentou.  Nossos irmãos latino-americanos, mesmo sem tantos adeptos como o Brasil, são estudiosos e interessados no pensamento kardequiano, o que dá gosto de ver. Recordei-me da visão de futuro de Herculano, de Deolindo e de outros intelectuais espíritas do meio do século XX, que mantinham o intercâmbio e divulgavam o trabalho dos autores de língua hispânica no Brasil. 

Fiquei pensando em alguns professores do meio acadêmico, que têm uma visão do espiritismo como algo minúsculo, místico, assistencialista apenas baseados na imagem criada pela grande imprensa e no diz-que-diz que ouviram de alguém. Não têm noção de quanto trabalho esse pessoal idealista faz, de quanta produção intelectual é realizada, do impacto social das sociedades espíritas. Fiquei pensando também nas pessoas que se restringem à sua casa espírita, que não acompanham nada do que acontece fora de seu minúsculo espaço. Confesso que mesmo estando estudando o espiritismo há tantas décadas, ao ver tudo isso, me senti pequenino. Há muito o que estudar e aprender com Allan Kardec, para não dizer dos demais autores espíritas.

Tenho certeza que o público tinha muito mais do que a mesa pôde apresentar. Escritores, jornalistas, autores, membros de federativas locais. Tanta gente que abracei e com quem conversei rapidamente nos intervalos... Tantas notícias. Tantas realizações desse pessoal desde a última vez em que estive em São Paulo. 

Simoni preparou um novo seminário para seu público, mais rico do que o que apresentou na Confederação Espírita Argentina em 2017. Notei que ela conversou muito com os organizadores e analisou as perguntas que chegaram via internet. Preparou com cuidado o que ia falar e fez um trabalho bem interessante, mesmo para quem já havia lido o livro e assistido o seminário argentino. 

Chamou a atenção de todos a forma serena, mas clara e argumentada, como ela apresentou seu trabalho. Muitos olharam para si mesmos e questionaram-se se não teriam sido mais duros nas palavras caso estivessem em seu lugar. Simoni, contudo, não queria que a retórica fosse mais sonora que os fatos que ela levantou. O trabalho dela fala através dos documentos e argumentos. A síntese final deixa clara sua tese e como é sustentada.

Não vou escrever muito sobre a apresentação da diplomata, porque desejo que os leitores do Espiritismo Comentado assistam o vídeo acima e concluam por si. 

Dois depoimentos enriqueceram o evento. A falta de um parágrafo sobre o corpo de Jesus em "A Gênese" publicada em esperanto, e uma verdadeira aula sobre direito autoral dada por Manoel Felipe Menezes, do ministério público do Amapá, e sobre a Convenção de Berna, da qual o Brasil é signatário.

Após toda essa nova informação que nos chega, considero que devemos manter o diálogo racional e aberto ao contradito, essência do espiritismo kardequiano, mas temos por dever a análise comparativa entre as quatro primeiras e a quinta edição de A Gênese, o que a própria mesa sugere ao apagar das luzes. 

4 comentários:

Dayenne Reis disse...

Boa noite. O texto não se refere a impressão do autor sobre o seminário mas sim uma descrição do que ele viu no seminário. Grata.

Jáder Sampaio disse...

Que título sugere?

Fabiano Henrique disse...

O depoimento sobre a ausência de um parágrafo na versão em esperanto poderia ser melhor tratado. Antes de trazer esse assunto à baila, o tradutor deveria ser convidado para prestar esclarecimentos. A impressão que fica é que ele foi acusado sem chance de defesa. É constrangedora essa "caça às bruxas", que certos companheiros de movimento vêm fazendo, como se fossem donos da verdade, verdadeiros inquisidores.

Tenho todos os motivos para crer na idoneidade do samideano Affonso Soares. Sua folha de serviços aos movimentos Espírita e Esperantista é extensa e fala por si. O autor do tal "depoimento" eu desconheço.

Affonso Soares traduziu A Gênese diretamente do original francês, como consta na ficha técnica do livro: "El la franca lingvo tradukis".

A chave da questão está na edição francesa usada para a tradução em esperanto, o que não é o indicado. A festejada edição em português do Celd baseia-se na 4ª edição francesa e tem a mesma organização da em esperanto. Mas o título da seção é diferente.

Antes de acusar e levantar suspeitas, é prudente fazer um trabalho de Crítica Textual apurado, comparando-se todas as edições lançadas enquanto Allan Kardec estava encarnado. Do contrário, corre-se o risco de se cometer injustiças.

Jáder Sampaio disse...

Fabiano,

O colega esperantista, no seminário, apenas pediu a inclusão do parágrafo que falta. Já o vi em outras manifestações, ele não faz acusações. Affonso Soares é um trabalhador dedicado, não só ao esperantismo, mas ao espiritismo. O fato é que falta o parágrafo, e penso que a FEB simplesmente irá inseri-lo e encerrar a questão.

As edições de A Gênese enquanto Kardec estava seguramente encarnado (da 1a. à 4a. edições) foram comparadas por diferentes estudiosos, em diferentes países. Elas são iguais. Não houve qualquer modificação.

Existem modificações na 5a. edição, cujas análises estão sendo feitas, uma vez que há o risco de não terem sido feitas por Allan Kardec. Os argumentos estão postos no livro da Simoni Privato. Ela fez um estudo muito sério e abrangente, recuperou documentos perdidos, e defende uma conclusão honesta e corajosa. Penso que ela merece ser lida e ouvida também. Estou seguro que se ela estiver errada em algum ponto, irá reconhecer os novos fatos, assim como o Noleto na FEB, porque acredito que são pessoas compromissadas com a verdade.

Não transformemos uma questão história em uma questão institucional recente.

Fraternalmente,

Jáder Sampaio