17.9.08

Letargia e Catalepsia

Figura 1: Yvonne Pereira, médium brasileira, quase foi enterrada na tenra infância por ter sido considerada morta pelos médicos (letargia).


Allan Kardec utilizou alguns conceitos próprios de sua época para a exposição de teses espíritas. Alguns deixaram de ser usados pelas respectivas áreas da ciência, o que exige do leitor da codificação um resgate do sentido dos termos na época e do contexto teórico no qual eles foram utilizados para uma compreensão clara do raciocínio do codificador e dos espíritos que dialogaram com ele.

Letargia e Catalepsia são conceitos associados à tese da emancipação da alma e que com o passar do tempo foram ganhando novos sentidos até caírem em desuso na Medicina e na Psicologia.

É possível que o sentido utilizado por Kardec tenha sido obtido nas teorias do magnetismo animal desenvolvidas depois de Mesmer, especialmente na obtenção do sonambulismo provocado.

Letargia, em “O Livro dos Espíritos” significa em estado de “perda temporária da sensibilidade e do movimento”, em que o corpo parece morto, no qual os sinais vitais se tornam quase imperceptíveis, a respiração reduz-se bastante e a pessoa pode ser tomada como morta.

Catalepsia em Kardec é uma espécie de letargia parcial, que atinge apenas alguns órgãos do corpo e que pode não prejudicar a comunicação com o seu portador, que poderia ter este estado induzido pelo magnetismo animal (passes, como dizemos hoje).

Alguns fenômenos parapsicológicos (humanos, mas não estudados convenientemente pela Psicologia) podem ser encontrados concomitantemente a estes dois estados. Um deles é a hiperestesia, ou seja, uma ampliação paradoxal da capacidade dos sentidos. Há registros de casos de sonâmbulos que, em estado cataléptico, eram capazes de descrever o que acontecia a uma distância muito superior à capacidade de nossos órgãos, ou de descrever, por exemplo, percepções que eles alegavam ter de órgãos internos do organismo de pacientes que lhes eram trazidos.

Kardec analisou situações de quase-morte na Revista Espírita. Há diversos casos de letárgicos, pessoas que chegaram a ser consideradas mortas pela medicina da época como a Sra. Schwabenhaus (Revista Espírita, 1858) ou que passaram por situações de claro risco de morte, ou como o Dr. D. (Revista Espírita, 1867), que ficou mais de meia hora debaixo d’água e foi resgatado e retomou a consciência.

Outro caso apresentado por Kardec é o da jovem cataléptica de Souabe, que após um evento traumático (morte da irmã), entrou em um estado entre cataléptico e letárgico e passou a ser capaz de descrever pessoas enterradas, bastando ser levada próxima ao túmulo e a descrever a aparência de pessoas idosas que a visitavam quando eram jovens e sem modificações do tempo e das doenças.

Eles narram histórias envolvendo o contato com pessoas desencarnadas e descrições do plano espiritual. Por esta razão, Kardec teorizou que os sonâmbulos, letárgicos e catalépticos perceberiam o plano espiritual, ou dariam notícias de eventos à distância porque perceberiam com a alma, semi-liberta do corpo (emancipação) que transmitiria suas sensações espirituais ao cérebro.

Posteriormente, o hipnotismo e a neurologia dariam um outro sentido à letargia e à catalepsia, que hoje se encontram em desuso (muitos hipnotizadores ainda os utilizam), substituídas pelo conceito mais preciso de “coma”, mas os estranhos fenômenos descritos por Kardec continuam acontecendo, como se pode ler no livro “Vida além da Vida” do Dr. Raymond Mood Jr. e nos estudos de experiências de quase-morte, que se transformou em linha de pesquisa de médicos e parapsicólogos modernos.

6 comentários:

ANTONIO INACIO disse...

MUITO BEM ESCRITO , O AUTOR DÁ SINAIS DE SER UM ESTUDIOSO SÉRIO.
UMA LEITURA AGRADÁVEL

SEJA MAIS UM SOLIDÁRIO disse...

Estava procurando algo sobre Letergia e Catalepsia para meus estudos e encontrei esse blog sugerido pela pesquisa Google, achei perfeito e tudo postado de forma clara para que não reste muitas dúvidas ao leitor.
Parabéns

Anônimo disse...

pessoal isso está ERRADO, passe não é um fluido animal como disse o texto. estão errados por tanto não tirem informações deste blog, pois assim como tem este erro terão muitos outros que na leitura rápida não os encontraremos. cuidado!!!

Jáder disse...

Amigo, eu não afirmei que o passe é um fluido animal. Magnetismo animal é uma teoria que remonta a Mesmer e que faz parte da formação de Kardec e do vocabulário que ele usa.

No capítulo XIV de A Gênese, Kardec classifica os fluidos em humanos e espirituais e trata da sua interação (parágrafo 33), ou seja, amplia a teoria mesmeriana do magnetismo animal.

Você pode ler sobre o magnetismo animal na Revista Espírita, organizada por Allan Kardec (outubro de 1858, maio de 1859, outubro de 1859, janeiro de 1860, etc.)

Recomendo também a leitura do livro "Mesmer, a ciência negada e os textos escondidos" publicado pela Lachâtre e o livro "Magnetismo Espiritual", publicado pela FEB.

Quanto a pessoas usarem meus textos como sendo a verdade, junto minha voz a sua. Não o façam. Estudem antes, pergutem o que não entenderem, avaliem com a obra espírita.

Lamento muito que você tenha tomado uma posição tão extremada e supostamente paladina, sem antes dialogarmos.

Anônimo disse...

Não nenhuma dúvida quanto ao embasamento doutrinário contido nas colocações do autor. São bastante esclarecedoras e simples de serem compreendidas. É claro que o que aqui está postado não constitui um tratado sobre letargia e catalepsia, mas, de qualquer forma é bastante esclarecedor. Parabéns Jader.

Jáder disse...

Obrigado pelo incentivo, amigo. Você tem razão, não tenho pretensão, nem conhecimento suficiente para fazer um tratado, mas aquilo que publico normalmente é objeto de estudo e consulta.