5.10.18

OS DOIS CONCEITOS DE NATUREZA EM ALLAN KARDEC




Estivemos atendendo a um pedido da Aliança Municipal Espírita de Belo Horizonte, ao estudar com os amigos do Cenáculo Espírita Thiago Maior sobre “A natureza da alma e suas transformações”. Em princípio seria uma revisão de dois capítulos do livro de Allan Kardec chamado “O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o espiritismo”.

Dois significados diferentes para a palavra natureza

Ao trazer ao título a questão da natureza fomos rever quais significados são utilizados por Kardec para essa palavra. Resolvemos usar a lógica de uma técnica usual dos tradutores, verificar o sentido das palavras ao longo da obra de um mesmo autor.

O dicionário Houaiss enumera treze sentidos diferentes com que essa palavra pode ser usada, mas nos interessam dois específicos que aparecem sob a rubrica da filosofia: a natureza como essência, como substância do ser (a natureza de Deus ou do homem, por exemplo) e “tudo quanto existe no cosmos sem intromissão da consciente reflexão humana”, ou seja, os planetas, os ecossistemas, etc.

A natureza como essência

Ao procurar em Allan Kardec qual sentido ele empregava, encontramos textos com os dois significados, logo em “O Livro dos Espíritos”. Ele fala em “natureza da alma” (introdução, item II), natureza do espírito (introdução item IV) e natureza de Deus (questão 11). Em todos esses casos, ele trata de “essências”, e não faz sentido falar em cosmos. Isso nos leva a entender que, em princípio, Kardec é dualista, porque entende que existem duas substâncias diferentes: o espírito (com é minúsculo) e a matéria (que pode ser ou não percebida pelos cinco sentidos).

Alguns espíritas entendem que Kardec é monista, porque o espírito não se apresenta sem o seu perispírito (é o que ele denomina como Espírito, com E maiúsculo, porque se encontra individualizado, capaz de ser identificado pelos médiuns, e que se encontra na questão 76 e seguintes), mas é bastante claro que Kardec e os Espíritos com quem ele dialoga falam de duas substâncias distintas que interagem, como na questão 27:

“Há, então, dois elementos gerais do Universo, a matéria e o espírito? “Sim, e acima de tudo Deus, o criador, pai de todas as coisas...”

A natureza como “cosmos sem intromissão da consciência humana”

Em outras situações, Kardec usa a palavra natureza como cosmos (e não como Universo, que seria formado a partir do espírito e da matéria). 

Na introdução de O Livro dos Espíritos, se encontra frases como “estamos longe de conhecer todos os agentes ocultos da Natureza”, e na questão 9 se encontra “Não podendo nenhum ser humano criar o que a Natureza produz...”. Nesses dois exemplos, a palavra natureza não significa essência, mas o universo material, descrito pela física, química e biologia, e suas leis.

Alguns tradutores de O Livro dos Espíritos, como Guillon Ribeiro e Evandro Noleto Bezerra perceberam essa diferença de significado, e traduziram com uma pequena diferença: quando entendem que a palavra natureza é cosmos, a escreveram com maiúscula, mesmo no meio da frase, e quando entendem que é essência, publicam em minúscula (exceto no início da frase, claro).

Quando levei a questão para dois amigos da LIHPE, um deles me perguntou se havia consultado o original francês. Olhei essas passagens e mais algumas em três diferentes edições francesas que encontramos no IPEAK e na edição bilíngue de Canuto Abreu. Para nossa surpresa, a distinção feita não é de Allan Kardec, que escreve natureza sempre em minúscula (exceto onde a gramática exige maiúscula), mas dos tradutores. 

Não me parece que os tradutores tenham agido como "traidores", como diz a expressão italiana "traduttore traditore", mas mereceria uma nota de rodapé nos livros, para que os leitores saibam exatamente o que foi feito, com a finalidade de transmitir o que pensava Allan Kardec e os Espíritos com quem dialogava, e deixando claro o risco do tradutor haver se equivocado em sua interpretação do texto que traduz. Não sei dizer, também, se no passado era considerada a diferença entre natureza e Natureza, como hoje é considerada a diferença de significado de estado e Estado.

Concluindo


Essa questão dos sentidos diferentes para palavras iguais, usada por Kardec em diversas situações, mais detidamente a questão da palavra natureza, não foi estudada por mim à exaustão, ou seja, só consultei uma dúzia de trechos da obra kardequiana. Merece ser ampliado, para termos uma boa compreensão dos seus livros e artigos.

Outra questão que fica relevante é a troca da palavra Natureza pela palavra universo, entre a quarta e quinta edições de A Gênese, ou seja, Allan Kardec não emprega essas duas palavras como sinônimas. Isso merece ser estudado mais detidamente.

Outra questão que se nos impõe é distinguir o conceito de princípio inteligente, ou espírito, como princípio ou substância (como diziam os gregos, e nos lembrou o Sílvio Chibeni) de princípio espiritual ou seja, uma dimensão espiritual nos animais, por exemplo, sem todas as faculdades encontradas no Espírito.

Para algumas pessoas pode parecer preciosismo, mas muitos espíritas acabam fazendo o que os Espíritos que se comunicaram com Kardec pedem que não seja feito: ficar brigando por causa de palavras. Explicar e justificar os significados, com abertura para o contradito, modifica a atitude de estudos dos interessados no espiritismo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Um bom tema para estudo é a semântica da palavra ressurreição na Bíblia que poderia em alguns trechos ser substituída sem problemas por reencarnação. LEANDRO SOARES

Mauricio Antonio Brandão disse...

Jáder - uma questão sobre a qual já ouvi várias pessoas discutindo é sobre a colocações de várias notas de rodapé nas traduções e mesmo certas alterações contextualizadas, como nas traduções de Herculano Pires das obras de Allan Kardec - eu considero interessante, mas já li e já ouvi muitas críticas que Herculano Pires com certo preciosismo mexi demais na tradução.

Por sinal, a tradução do Evandro é recente. Seria válido um contato com ele para ver a opinião sobre a questão.

abraços

Jáder Sampaio disse...

Maurício,

O que aprendi em um curso de tradutor é de tentar ao máximo possível fazer a tradução ao pé da letra, a menos que haja diferenças entre o emprego de palavras e expressões entre a língua fonte e na língua objeto.

Neste caso, ainda não sei dizer ao certo, o tradutor mexeu por sua conta e risco e não sinalizou ao leitor. Parece razoável entender que há dois sentidos para o emprego da palavra natureza e que merecem ser distinguidos. Como Kardec tem um papel muito importante no espiritismo, se o tradutor vai mexer no texto, deveria sinalizar, na minha opinião.

Quanto ao Herculano, não sei dizer se se trata de preciosismo ou da sua experiência na filosofia. Lembro da oposição forte que ele fez a um tradutor que desejava trocar a expressão espírito mau, por espírito "menos bom". Acho que Herculano tinha razão, porque não era um impasse de tradução, mas uma interpretação que o autor colocava no texto de Allan Kardec, sem avisar ao leitor.

Com relação ao Evandro Noleto Bezerra, tive uma ótima impressão dele e de seu trabalho no Congresso França-Brasil, parece-me uma boa ideia perguntar-lhe por que manteve as mudanças de Guillon Ribeiro e se ele entende que a mudança é justificada e se merece uma nota de fim de página.

Um abraço

Jáder Sampaio