15.6.09

JUNG LEU ALLAN KARDEC?


Figura 1: Carl G. Jung

No livro "A Vida Simbólica", a Vozes publicou textos do volume I das obras completas, que intitulou "Sobre o Ocultismo".
Nele se encontram os seguintes textos:
- Sobre fenômenos espíritas (conferência feita na Basiléia em 1905)
Neste texto Jung faz uma breve história do Espiritismo, cita Swedenborg, as irmãs Fox, Aksakof, admira-se com Crookes, e cita O Livro dos Médiuns, que leu em alemão, mas considera as mensagens publicadas por Kardec triviais. Ele reduz os fenômenos espíritas à esfera do psicológico e critica vigorosamente os adeptos do Espiritismo. Destaco ainda a percepção de Jung do Espiritismo como religião e movimento religioso. Ele narra muito brevemente os estudos que fez com oito médiuns (um dos quais afirmava ser um "trapaceiro americano" e os demais pessoas de boa fé).
- Prefácio a "Fenômenos Ocultos" - 1939
O livro que Jung prefaciou publica três de seus trabalhos. Ele está menos virulento, mas ainda reticente quanto à questão da imortalidade da alma, que considera ser uma necessidade psicológica e afirma que o médico deve orientar o seu paciente a observar a presença ou ausência delas na consciência, da mesma forma que fala da necessidade do uso de sal na dieta.
- Psicologia e Espiritismo (Prefácio a um livro escrito por Stewart White - 1948)
Nesse livro o psiquiatra suíço cita Rhine (pesquisador da Parapsicologia) e discute de certa forma a posição do autor que defende a existência dos espíritos. Para Jung os espíritos são "fatores inconscientes personificados". Dos autores espíritas e estudiosos do Espiritismo, ele cita Zöllner, Richet, Flammarion, Schiaparelli, Oliver Lodge, e curiosamente Eugen Bleuler. Vê-se que o tema de alguma forma o fascina, porque mesmo sendo contrário ele continua a estudar os livros espíritas e a tentar explicar os fenômenos com sua teoria do inconsciente.
- Prefácio e Contribuição ao livro de Fanny Moser (1950)
Mais um prefácio a um livro de fenômenos espíritas. Jung recebe o convite com algum entusiasmo e faz menção aos trabalhos da "American Society for Psychical Research" e ao ceticismo da época discutido por Kant duzentos anos antes da publicação de seu texto. Embora ainda considere que os fenômenos não provam a imortalidade da alma, Jung aceita posições da Parapsicologia e deixa ao futuro o alargamento dos horizontes com relação ao estudo da Psique.
Em seguida ele narra um caso pessoal, em que ele esteve em Londres e descobriu para sua surpresa que havia se hospedado em um local assombrado. Ele relata fenômenos, como mau cheiro (que considera alucinatório!!!), barulho de pingos de água sem chuva ou torneira aberta, sussurros seguidos a um torpor, sons de batidas, um cão que andaria pelos cômodos, assustado, duas hóspedes que deixaram o local com medo das assombrações. No quinto dia ele viu o rosto de uma senhora sem a parte esquerda que o fixava com o único olho. Ao voltar, Jung desafiou o Dr. X a dormir uma noite no "quarto assombrado". Ele escreveu-lhe narrando ter ouvido passos à noite, ter fechado a porta com a ajuda de uma cadeira apoiada na fechadura, que se espatifou, sem qualquer ventania, o que o levou a dormir sobre um caramanchão... O dono da casa terminou demolindo-a e vendendo-a porque ninguém desejava hospedar-se lá, devido à fama de assombrada.
Suas explicações aos fenômenos continuam contando com o apoio da teoria do inconsciente, mas Jung já aceita que há fenômenos inexplicáveis desta forma e ainda cita um caso de um parente que viajou e sonhou com um assassinato de uma mulher no seu quarto de hotel, que realmente havia acontecido.
- Prefácio a um livro de Jaffé (1958)
É um texto rápido no qual o Psiquiatra Suíço destaca a análise psicológica dos temas próprios da fenomenologia espírita, mas deixa claramente que a autora evitou a questão da realidade dos fenômenos e da sobrevivência da alma, questão esta que parece incomodá-lo.
Quem tiver lido o livro "Memórias, Sonhos e Reflexões", escrito anos depois, sabe que Jung narrará, próximo da morte, fenômenos que aconteceram com ele e que ele admite não ser capaz de explicar com o apoio da teoria do inconsciente.
Este livro mostra bem a trajetória vivida pelo psiquiatra do ceticismo à dúvida.



6 comentários:

Anônimo disse...

Parabens, pelas matérias. Gostei das referências a Jung. Li o "Memórias, sonhos e reflexões", sob sugestão de minha terapêuta, e me afinizeis muito com ele. Acho que suas colocações sobre o inconsciente muito nos ajudam no auto-conhecimento e reflexão sobre nossa existências e dificuldades. Outro dia li numa revista a uma frase que diziam ser dele, apesar de não citarem a fonte, que é a seguinte: "O livre-arbítrio é a nossa oportunidade de passar bem ou mal por aquilo que temos que passar". Abraços Roberta

Anônimo disse...

Uma possível fonte da citação da Roberta sobre Jung está no final da versão inglesa:- "Free will is doing gladly and freely that which one must do." (from "C. G.Jung, Emma Jung and Toni Wolff: A Collection of Remembrances" edited by Feme Jensen).

Anônimo disse...

Nos comentários acima, uma pessoa fez uma citação em português e outra citou a possível fonte em inglês, mas os textos dizem coisas diferentes (foi uma tradução livre? Licença poética?):

"O livre-arbítrio é a nossa oportunidade de passar bem ou mal por aquilo que temos que passar".

"Free will is doing gladly and freely that which one must do."
(Livre arbítrio é fazer feliz e livre aquilo que se deve fazer.)

Jáder Sampaio disse...

Eu traduziria como "Livre arbítrio é fazer com felicidade e liberdade o que deve ser feito"

Jáder

Anônimo disse...

Jung é ótimo,assim como Einstein, Nietzche etc....O problema é q os centros espíritas baianos deixaram de discutir espiritismo para discutir psicologia junguiana.

Jáder Sampaio disse...

Prezado anônimo,

Se me permite, há uma diferença entre Jung e outros grandes autores da humanidade, como Niezstche: ele chegou muito perto das teses espíritas, como a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos. Nos interessa também entender o que nós espíritas chamamos de "animismo", e que foi bastante desenvolvido na obra de Jung.

Concordo com você que não há espiritismo sem Kardec, e que Allan Kardec é o filósofo que merece toda a nossa atenção se desejamos conhecer e praticar o espiritismo.

Fraternalmente,

Jáder