5.11.15

PEDRO, TU ME AMAS?


Vista aérea de Cafarnaum nos dias de hoje. O espaço coberto é considerado ser o local da casa de Pedro e vê-se ao fundo o Mar de Tiberíades, também chamado de Lago de Genesaré.

Há mais de três décadas, no tempo da máquina de escrever, preparei um estudo sobre Simão Pedro para fazer na sociedade espírita de mesmo nome em Belo Horizonte. Tendo aceito este ano para falar nas comemorações da casa espírita em Caeté-MG, combinamos que o mesmo tema seria abordado.

Como se tratava de uma palestra biográfica, que vai seguindo os episódios que envolvem o apóstolo ao longo da narrativa dos evangelhos e do livro de atos, aproveitei a oportunidade para revisitar o texto, consultando a tradução de Haroldo Dutra de “O novo testamento”.

Gostaria de compartilhar com os leitores algumas reflexões sobre o episódio narrado por João, do encontro de Jesus, após a morte, com Pedro, em Cafarnaum.

O episódio é bem curioso, e aparenta ser uma espécie de história contada pelos apóstolos e não um acontecimento real. Uma das razões é geográfica. Pedro estava em Jerusalém após a crucificação de Jesus. O rabi retorna da morte e apresenta-se diversas vezes aos apóstolos e a outras pessoas. De repente, o episódio narrado por João acontece em Cafarnaum, na Galileia, a mais de cem quilômetros de caminhada da capital da Judeia. Pedro já está novamente instalado, pescando, com barcos e redes, juntamente com outros discípulos. Concluído o evangelho de João, temos o livro dos Atos, com Pedro novamente em Jerusalém, no episódio mediúnico do dia de Pentecostes. Teria ele se deslocado, mesmo tendo visto Jesus após a morte, no episódio que envolve o ceticismo de Tomé, e depois voltado novamente a Jerusalém para construir a primeira comunidade cristã?

O segundo motivo é literário. O episódio soa a história, porque Jesus aparece novamente aos discípulos, reedita a pesca do dia em que converteu os primeiros quatro, e reedita a negação de Pedro, após a refeição da manhã, fazendo-o repetir três vezes uma declaração de amor fraternal. É uma espécie de texto de regeneração dos apóstolos, e principalmente de Pedro, após os eventos da crucificação.

O terceiro motivo é hermenêutico. Um episódio tão marcante deveria aparecer em mais de um evangelho, e encontrei apenas no evangelho de João, considerado espiritual.

A leitura do texto traduzido por Haroldo é interessante. Jesus pergunta três vezes a Pedro:

- Simão, [filho de] João, tu me amas mais do que a estes?

Ante as três respostas afirmativas do apóstolo, Jesus faz três pedidos convergentes, mas diferentes:

- Alimenta meus cordeiros.
- Apascenta minhas ovelhas.
- Alimenta minhas ovelhas.

Alimentar e apascentar são verbos relacionados a cuidados. Apascentar (e não pacificar), envolve as ações de conduzir e vigiar no pasto, pastorear, ou como lemos na tradução de Haroldo, “todas as funções do pastor, tais como guiar, levar ao pasto, nutrir, cuidar, vigiar”.. Alimentar, segundo as notas da tradução de Haroldo Dutra, pode ser entendido como levar para pastar, oferecer pasto.

No antigo testamento, o profeta Ezequiel (capítulo 34) diz ter ouvido de Deus uma profecia contra os pastores de Israel. Com a leitura do capítulo, percebe-se logo que ele não fala de ovelhas, cordeiros e pastores, mas do povo e dos sacerdotes. Ele acusa os pastores de comer a gordura, servir-se da lã e matar o cevado, mas não apascentar o rebanho (v. 3), ou seja, aproveitarem-se das leis que obrigam o povo de Israel a sustentá-los, mas não cumprir com o seu trabalho de dar assistência religiosa.

Ezequiel escreve que as ovelhas de Deus passaram a servir de pasto às feras e foram entregues à rapina. Considerando os sacerdotes ineptos para cuidar do povo, Ezequiel escreve que o próprio Deus distinguiria a ovelha gorda da ovelha magra (v. 20) e que Davi se tornaria pastor de Deus e apascentaria o rebanho (v. 23), ou seja, ele institui um novo cuidador ao mesmo tempo em que traz de volta a si uma função que era atribuída aos sacerdotes.

A passagem de João parece fazer uma referência ao capítulo 34 de Ezequiel. Pedro é convidado por Jesus a ser o pastor das ovelhas e cordeiros, ou seja, a executar uma função sacerdotal no lugar dos sacerdotes do culto judeu.

Tendo ou não acontecido como está escrito, a passagem do Evangelho de João marca a construção de uma ekklesia cristã, de caráter religioso e comunitário, o que justifica as descrições da comunidade de Jerusalém que encontramos no livro dos Atos dos Apóstolos. Nesta comunidade não apenas se estudavam os evangelhos, mas também se redistribuíam alimentos e outros bens entre os que necessitavam. O episódio das viúvas helenistas e da instituição de diáconos (Atos, capítulo 6) ilustra bem esta função. 

2 comentários:

José Luiz disse...

Pedro foi um imenso coração, imagino sua dor ao negar Jesus. Numa atitude puramente humana. Foi um bravo no final.

Simone Vieira disse...

Uma reflexão muito importante. Somos muito "Pedro".