10.8.19

YVONNE PEREIRA, AS IRMÃS DE SION E OS DETALHES DE SUAS NARRATIVAS



Estamos estudando o livro “A Tragédia de Santa Maria”, ditado por Bezerra de Menezes a Yvonne Pereira e publicado pela Federação Espírita Brasileira, em nossa reunião de sábado.

Fiquei encarregado do capítulo 4 da segunda parte, que, a princípio, seria apenas uma mera narrativa do encontro dos personagens Esmeralda e Bentinho, via correspondência em Portugal e pessoalmente na Suíça.

Inicialmente é a descrição de um piano Pleyel para concertos, que é o tipo tocado por Chopin, por exemplo. Segundo o site do fabricante, ele começa a ser fabricado em 1807 (pleyel.com), ou seja, é provável que fosse comercializado e disponível em Portugal nos anos 1880.



Ao ler com cuidado, observam-se alguns detalhes muito curiosos. Primeiro é a descrição de flores e árvores da Quinta Feliz, em Coimbra-Portugal. Tive a curiosidade de procurar uma por uma na internet, e todas elas são encontradas no país lusitano. Algumas são trazidas de outros lugares, e são encontradas lá na época dos eventos da novela.

Depois, quando os personagens vão à Suíça, passar férias, a vegetação descrita é diferente e muito coerente com altitudes maiores e clima mais frio. Não há nenhuma flor igual à da primeira descrição. Algo muito difícil de ser feito apenas com imaginação, especialmente por uma pessoa que nunca saiu do Brasil.

O mais curioso, no entanto, é uma pequena frase escrita por Bentinho. Ele havia sido informado que Esmeralda iria estudar no “Educandário das Freiras de Sion em Paris”. À primeira vista, pareceu-me muito estranho. Freiras de Sion? Lembrei-me inicialmente do Sionismo, que era um movimento para a formação do estado de Israel. Olhando no dicionário, vi que Sion é uma palavra que originalmente designava uma fortaleza próxima a Jerusalém e que passou a ser usada para significar “a terra prometida dos Judeus”.

O que algo Judeu teria a ver com a igreja? Freiras de Sion? Saí à procura da expressão “Nossa Senhora de Sion”, em busca de alguma ordem religiosa católica, e da explicação do nome. Deu para descobrir muita coisa.

Théodore Ratisbonne era um descendente de judeus da cidade de Estrasburgo que se converteu ao cristianismo em 1827, ano em que batizou-se. Os textos consultados apontam para uma conversão pessoal, simultânea à conversão de outros amigos. Posteriormente ele converteu também seu irmão Alphonse, estudou e foi ordenado padre em 1830.



Alphonse o convenceu a fundar um espaço para a educação (catecumenato, segundo alguns autores) de filhas de judeus convertidos, em 1842, ano em que se encontrava em Paris. Eles fundaram, então a ordem de Nossa Senhora de Sion, com o objetivo de converter judeus à fé cristã. A ordem foi reconhecida por Roma em 1842. 

Nesse ponto da história, estava achando que havia algum erro na narrativa do médico dos pobres-espírito. Esmeralda não era descendente de judeus, mas uma filha de latifundiário brasileiro em estudo na Europa. Por que ela estudaria em uma instituição dessa ordem?

Entre 1843 e 1884, a ordem foi crescendo e criou uma espécie de segundo objetivo. Criou 13 internatos de elite, em decorrência da reputação de Madre Rose Valentin. Os internatos lhe davam recursos para que ela pudesse dar consecução ao seu objetivo maior que era a conversão de judeus. (E assim o foi até o Concílio Vaticano Segundo, no século 20).

Bezerra de Menezes estava certo. Havia em Paris uma ordem das freiras de Sion e um internato para moças da elite!

Passados alguns anos, o governo francês promoveu reformas de laicização do ensino, especialmente o fundamental, que envolveu gratuidade e a obrigatoriedade do primário. Algumas das irmãs foram, então, convidadas a fundar uma instituição de ensino aos moldes franceses no Rio de Janeiro, pela nobreza brasileira com o apoio da princesa Isabel. Elas vieram em 1888.

Encontrei uma escola das Irmãs de Sion em Paris, mas parece ter sido fundada no século 20, em parceria com outra ordem religiosa. 

A questão dos detalhes da literatura produzida por Yvonne Pereira, em contato com os autores espirituais é impressionante. Autores contemporâneos que fazem literatura com temas históricos, como Ken Follet, têm um número enorme de consultores, que são especialistas em aspectos pontuais da história e que o permitem escrever sem cometer equívocos. Yvonne tinha apenas lápis, papel e a assistência dos espíritos que lhe contavam as histórias.

5.8.19

CONVERSANDO SOBRE O CONVERSANDO



Fui convidado pelo Lourenço para fazer o Seminário "Conversando com os Espíritos" no Cenáculo Espírita Thiago Maior. Interessado e responsável, meu amigo leu o livro, e foi lendo os demais que escrevi, organizei ou psicografei. Acho que ele se tornou um bom especialista do que escrevi.

Nas atividades de preparação, Lourenço fez uma lista de questões sobre o livro, bem interessantes, do tipo que faz pensar. Esbocei as respostas de cada pergunta e levei, mas quando iniciamos o seminário, ele se tornou uma espécie de simpósio, porque na primeira hora e meia o público presente me sabatinou. Parte do público havia lido o livro, parte não. Então a segunda parte ficou para uma exposição mais sistemática do conteúdo, e não deu tempo para tratar das perguntas do Lourenço.

Agora que praticamente passaram os encargos com a organização do 15º Enlihpe, vamos publicar aos poucos as perguntas "lourencianas" e nossas respostas e comentários. Espero que sejam úteis aos interessados em mediunidade e espiritismo.


30.7.19

VOLUNTÁRIOS À VENDA! POUCOS EXEMPLARES.



Estive recordando da minha tese de doutorado, realizada em uma instituição espírita de Belo Horizonte para o 1º Encontro das Casas Espíritas do Entorno do Hospital Espírita André Luiz. 

Na parte teórica estudamos três gigantes dos estudos da motivação: Abraham Maslow, David McClelland e Josph Nuttin. Dos três capítulos, ainda hoje o mais citado é o de Maslow, porque mostramos que ele desenvolveu uma teoria muito mais ampla que as citadas em palestras motivacionais e manuais de administração. Bastou que tivéssemos lido todos os seus livros e artigos disponíveis.

A tese trata da motivação e sofrimento psíquico de voluntários e depois escrevemos sobre os mecanismos de defesa que eles desenvolvem nos grupos espíritas. Esse trabalho "virou" capítulo de livro e foi comunicado em congresso nacional.

Ela trata também da história da creche estudada, suas estruturas organizacionais ao longo do tempo, sua cultura e todas as atividades que se fazia àquela época. Isso foi a base para um diálogo de muitos meses com os dirigentes da mesma.

Aproveitamos para sintetizar as pesquisas que antropólogos realizaram sobre o movimento espírita no Brasil, as que falavam das atividades sociais espíritas,e propusemos um ethos e visão de mundo para o movimento espírita brasileiro. Eu nunca tentei publicar esse artigo em separado. Uma pena!

A tese tornou-se livro e esse esgotou-se em pouco mais de dois anos. Para minha surpresa, encontrei alguns lugares que ainda estão vendendo o livro novo e usado. Seguem os links desses lugares para quem se interessar:

Amazon do Brasil

https://www.amazon.com.br/Volunt%C3%A1rios-J%C3%A1der-dos-Reis-Sampaio/dp/8560114173

Estante Virtual

https://www.estantevirtual.com.br/livros/jader-dos-reis-sampaio/voluntarios

Livraria Universo Espírita

https://www.livrariauniversoespirita.com.br/livros/estudos-e-pesquisas/voluntarios-sampaio-jader-dos-reis/



27.7.19

15º ENLIHPE: EURÍPEDES VELLOSO


Teremos nos dias 24 e 25 de Agosto, em Fortaleza-CE, na sede da Federação Espírita do Estado do Ceará o 15º Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo.

Vamos divulgar no Espiritismo Comentado algumas das atividades, trabalhos e expositores que estarão presentes. Começarei a falar de Eurípedes Velloso de Mattos, conhecido na intimidade por Lipa.

Eurípedes é licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás e assessor responsável pelo Centro de Memória da Federação Espírita do Estado de Goiás.  

O Centro é uma expansão do Projeto Memória, que começou com a publicação de dois livros que recuperam registros, recordações, histórias e imagens do movimento espírita do estado de Goiás. Seus títulos são: Os Primórdios do Espiritismo em Goiás e Raízes Espíritas: Região Metropolitana, ambos publicados pela federativa. Já escrevemos sobre eles no Espiritismo Comentado em: https://espiritismocomentado.blogspot.com/search/label/Mem%C3%B3ria%20Esp%C3%ADrita%20do%20Estado%20de%20Goi%C3%A1s

Para nossa grata surpresa, Lipa acaba de publicar o livro A Peregrinação do Verbo, pela Federação Espírita do Estado de Goiás. Nesse livro ele faz referência à visão de Jesus no universo dos evangelhos de João: "E o verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). A peregrinação do verbo é a mensagem cristã, que circula pelo mundo depois de Jesus, seus divulgadores e sua expressão no meio espírita. Folheando o meu original, vejo que o autor trata das expressões do pensamento e da arte cristãs em diversos momentos da história, incluindo aí o movimento espírita na França e no Brasil. 


O que é e o quais são os projetos para o Centro de Memória em Goiás? Este é o desafio do seu assessor na mesa sobre instituições espíritas ligadas à memória e história, que se fará no final da tarde de sábado e que contará também com o Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo - Eduardo Carvalho Monteiro e com o Instituto de Pesquisa Espírita do Ceará.

Os livros de Lipa estarão à venda e poderão ser autografados pelo autor no 15º ENLIHPE.

22.7.19

A HISTÓRIA DA PESQUISA DA EDIÇÃO DEFINITIVA DE "A GÊNESE"




Incorporei este post no Espiritismo Comentado para o participante que ainda não se inscreveu nas apresentações de Simoni Privato. Aqui ela nos mostra como foi a origem e a busca bibliográfica da pesquisa para responder a questão da edição definitiva de A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo.

16.7.19

15 ENLIHPE EM FORTALEZA-CE: SAIU A PROGRAMAÇÃO





15º ENLIHPE      

Tema central: Allan Kardec: 150 anos depois

PROGRAMAÇÃO – 24/08/19


Abaixo o link para inscrições gratuitas:



Sábado

08:00            Recepção, credenciamento e entrega de material

08:25 Abertura

Palavras iniciais:
Federação Espírita do Estado do Ceará
União das Sociedades Espíritas de São Paulo
Federação Espírita do Estado do Espírito Santo
Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo – Eduardo Carvalho Monteiro
Liga de Pesquisadores do Espiritismo

Trabalho 1 - Reuniões Mediúnicas voltadas à pesquisa espírita conforme orientações de Allan Kardec – Luana Poltronieri de Souza e Raphael Vivacqua Carneiro

Trabalho 2 – Os livros dos espíritos: uma análise comparativa entre a 1ª, 2ª e até a 16ª edições – Luis Jorge Lira Neto

Intervalo da manhã e autógrafo de livros: Os monumentos gêmeos: Allan Kardec entre Niterói e Lyon – Olivier Geneviève e Paulo Sérgio Manhães Peixoto e do livro “O espiritismo da França ao Brasil: estudos escolhidos” – USE-SP e LIHPE  (20 minutos)

Oficina 1: A cientificidade do trabalho de Allan Kardec – IPCE - Maurício Mendonça

Almoço

Palestra: “Em busca de Yvonne Pereira: o trabalho de recuperação da memória da médium fluminense” - Pedro Camilo

Trabalho 3- Comparando informações mediúnicas após Allan Kardec: o caso de Camilo Castelo Branco – Jáder dos Reis Sampaio

Intervalo da tarde e autógrafos: Livros sobre Yvonne Pereira de autoria de Pedro Camilo

Oficina 2: Busca e tratamento das fontes da história do espiritismo – Luciano Klein Filho e Samuel Nunes Magalhães

Homenagem: Deolindo Amorim

Mesa de instituições: Centro de Memória da Federação Espírita de Goiás, Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo – Eduardo Carvalho Monteiro, Instituto de Pesquisa Espírita do Ceará.

18:30 Encerramento das atividades do dia

Autógrafos: Livros da série Memória Espírita do Estado de Goiás - Eurípedes Veloso de Matos

18:45 Reunião presencial-administrativa da LIHPE





PROGRAMAÇÃO – 25/08/19

Domingo

8:00   Abertura

Conferência de Prof. Convidado: O que é e como funciona o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG – Alexander Moreira-Almeida

Oficina 2: Trabalhando com as fontes históricas de centros espíritas: um estudo de caso - Angélica Almeida

Trabalho 4 – As pioneiras: a atuação feminina nos primórdios do espiritismo do Amazonas Lenara Barros Muniz P. Nunes e Joselita Cármen A. A. Nobre

Intervalo e autógrafo de livros: O espiritismo em perspectivas.

Mesa sobre livro: Espiritismo em Perspectivas – Autores: Marcelo Gulão, Humberto Schubert, André Seal, Adriana Gomes, Angélica Almeida e Alexandre Caroli

11:55 Encerramento



Apoio institucional

Federação Espírita do Estado do Ceará
União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo
Federação Espírita do Estado do Espírito Santo
Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo – Eduardo Carvalho Monteiro


                        

4.7.19

DO TRATAMENTO DE UM CÂNCER À FORMAÇÃO DO MOVIMENTO DA FRATERNIDADE EM BELO HORIZONTE - MG





Marcelo Orsini entrevistou Ed Soares, filho de Jair e Ló, em 2017, em um vídeo de pouco mais de 40 minutos. Jair e Ló são personagens importantes, praticamente considerados fundadores do Movimento da Fraternidade. Ló tinha um diagnóstico de câncer, do qual teria sido curada pela Irmã Scheilla em reunião mediúnica de materialização. Além das curiosidades sobre as materializações que se iniciaram em sua casa, no bairro Santa Tereza, Ed fala pontualmente do surgimento e desenvolvimento do Movimento da Fraternidade.

Ed explica que Chico Xavier participou de algumas das reuniões do grupo, como assistente, e os espíritos assinam o verso de documentos da fundação do Hospital André Luiz. Talvez algumas das narrativas de livros como “Missionários da Luz” e “Nos domínios da mediunidade” façam referências a essas reuniões.

A entrevista remete aos dois livros com o mesmo título escritos por Ranieri e Dante Labate (Materializações Luminosas) sobre a fenomenologia e a memória dos grupos envolvidos.

É interessante a relação de tutela que se estabelecia entre a administração das casas espíritas e a espiritualidade, de cuja diminuição se queixa o entrevistado.

Este vídeo é uma fonte histórica muito interessante, porque reproduz não apenas os relatos, mas também a compreensão e a organização dos atores sociais dos anos 1950 e seguintes, possibilitando um entendimento maior da constituição do movimento espírita nos grupos que se filiaram ao Movimento da Fraternidade.

Agradeço ao Leandro Soares a divulgação dessa entrevista.

3.7.19

III CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOLOGIA E ESPIRITISMO




A ABRAPE - Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas organizou este ano o III Congresso Brasileiro de Psicologia e Espiritismo: Psicologia, Espiritualidade e Ética nas Relações Humanas. A programação é variada e contém muitos trabalhos sobre religião e religiosidade. Há também abordagens psicológicas de temas espíritas.

A psicóloga Ercília Zilli, da ABRAPE, é mestre em ciência da religião, o que mostra esse empenho no diálogo interreligioso do evento. Por muitos anos a formação dos psicólogos, marcada pelo materialismo subjacente a instituições de ensino superior e pesquisa, não contemplava disciplinas sobre religião, religiosidade e espiritualidade, como se não fossem senão uma ilusão ou algo pouco relevante para o entendimento psicológico do ser humano. Mais recentemente, tanto na psicologia como na saúde em geral estas questões têm sido objeto de pesquisa e formação dos profissionais da área.

O congresso, portanto, é uma oportunidade de se aprender sobre o judaísmo, o cristianismo, o culto Iorubá e, obviamente, o espiritismo. Nesta perspectiva, ele interessa aos psicólogos em geral, não importa a filiação religiosa ou mesmo seu ateísmo.

Vamos tratar de alguns conceitos de psicologia humanista que vimos empregando no diálogo com espíritos desencarnados em reuniões mediúnicas, nos últimos 30 anos. Eles foram tratados no livro Conversando com os Espíritos, base dos seminários que temos realizado nas casas espíritas no último ano.

Penso que o evento é voltado aos psicólogos espíritas, mas é do interesse dos espíritas em geral. 

A organização agradece a divulgação do evento nas mídias sociais.

27.6.19

O LEGADO DE ALLAN KARDEC





Conheci a Simoni Privato inicialmente na leitura de seu livro em espanhol. Até onde sei, ela havia sido consultada pelo presidente da Confederação Espírita Argentina (CEA) sobre que edição do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo", de Allan Kardec, deveria ser publicada em espanhol. Um debate no movimento espírita francês, antigo, ocorrido no século XIX, justificava a questão.

Em vez de dar uma resposta rápida, considerando a seriedade da missão que lhe foi confiada, ela começou a estudar a história das diferentes edições de A Gênese, pesquisou documentos na Biblioteca Nacional da França e, de repente, se viu em meio a uma aventura intelectual: vasculhar no passado as migalhas de pão deixadas pelos documentos para recuperar a história de um livro e de um movimento intelectual francês do século XIX, após a desencarnação de seu fundador.

O livro dela, hoje publicado em português pelo Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo - Eduardo Carvalho Monteiro, em parceria com a USE-SP, não apenas fundamenta sua resposta à CEA, mas conta o que ela descobriu em meio à busca por livros, documentos, revistas e muitas outras fontes históricas que compilou.

Esta é a primeira de uma série de vídeos que ela deve fazer sobre sua aventura, e deve visar atrair os interessados a assistir e comentar tudo o que descobriu e deduziu. Nele ela fala um pouco de si mesma, apresenta de forma discreta suas credenciais, que mostram onde adquiriu expertise para fazer o que se propôs. Compartilha conosco um pouco de suas lutas e dificuldades e assegura o total desinteresse econômico de sua empreitada, realizada por amor e dedicação ao espiritismo e à importância que ela dá à doutrina para sua vida, e para a dos que desejam compartilhar sua ética.

Como gostei do trabalho, compartilho com os leitores do Espiritismo Comentado, que passam a poder acompanhar a exposição da pesquisa pela própria autora a partir de agora.

13.6.19

ESPIRITISMO NO SHOPPING CENTER




Todos nós sabemos que o principal lugar de espiritismo é o centro espírita. Todavia, para que o movimento espírita possa ter novos membros, são necessárias iniciativas de divulgação da doutrina para o público em geral. Como uma pessoa pode se interessar por alguma coisa que desconhece?

Por essa razão, cada vez mais o movimento espírita cria espaços de divulgação voltados ao grande público, seja via internet, seja organizando eventos em auditórios de escolas, teatros e hotéis, seja levando o livro espírita para além das livrarias em centros espíritas.

Tem muitos anos que frequento livrarias, e há uns trinta anos, os livros espíritas só eram encontrados em livrarias de centros espíritas e em sebos. Alguém dava uma “limpa” em casa, e alguns livros iam parar nas prateleiras empoeiradas. 

Aqui em Belo Horizonte, um dos lugares em que eu achava livros raros era o “sebo do Amadeu”, lugar obrigatório para os estudantes que tinham dinheiro a menos. Sempre conversava com ele, que conhecia os livros espíritas, e à época eu procurava o “História do Espiritismo”. Amadeu me dizia que todo mundo só conhecia os livros de Sherlock Holmes, escritos pelo Conan Doyle, mas que ele sabia que o livro que eu procurava existia. Comprei lá muitos livros de Leopoldo Machado, amarelados, hoje muito raros porque não houve reedição.

Há algum tempo, eu estava passeando com a família no Boulevard Shopping, em Belo Horizonte-MG, quando entramos na livraria Leitura. As meninas sempre têm alguma coisa para comprar na papelaria, e tanto eu como minha esposa gostamos de olhar os livros expostos, às vezes comprar algum. Encontrei a Maria, da editora Lachâtre, no meio das estantes com os livros na “vertical”. Não consegui me conter e perguntei:

- O “Conversando com os Espíritos” está exposto? 

Conversando com os espíritos, como os leitores do Espiritismo Comentado sabem, é o nosso último livro. Trata do atendimento ou diálogo com espíritos em sofrimento, através da mediunidade. Faz uma aproximação entre a relação de ajuda da psicologia humanista e a atividade que fazemos há muitos anos nas reuniões mediúnicas espíritas.



Incansável, a Maria consultou o sistema e informou que havia três na loja, mas que deviam estar no estoque. Terminamos as compras, despedimo-nos, e ela ainda estava às voltas com o livro.

À noitinha chegou a foto dos três livros na estante, no meio de livros espíritas e espiritualistas. 

Não sei se os frequentadores da Leitura “acham” meu livro na estante. Ele está escondidinho, no meio de muitos livros espíritas e “nem tanto”. Na verdade, quando vi, estava no meio dos “nem tanto”, o que deve causar uma má impressão inicial aos espíritas.

Ainda falta um pouco de boa vontade para nossos livros ficaram expostos na área nobre, ao alcance das vistas, reservada geralmente para os “best sellers”, romances, biográficos e clássicos.

Contudo, quando o leitor for ao shopping tomar um sorvete, assistir ao cinema, comer uma pizza, fazer compras ou simplesmente passear, acho que vai se lembrar que já existem muitos livros espíritas aguardando serem comprados nas grandes livrarias. Inclusive os nossos.

10.6.19

DESCARTES E KARDEC NA REVISTA REFORMADOR




A revista Reformador publicou este mês, junho de 2019, o nosso ensaio “René Descartes e Allan Kardec: conceito e atributos de Deus”. Esse trabalho argumenta que há um possível diálogo entre as ideias que Kardec trocou com os espíritos e alguns conceitos do “pai do racionalismo” francês.

Descartes parte do “cogito”, postulado principal de seu sistema filosófico, para concluir a existência de Deus, na segunda meditação cartesiana. O artigo trata também da questão 7 de O livro dos espíritos, cuja questão foi reescrita na segunda edição francesa, na qual Kardec discute uma questão antiga da filosofia que associa Deus ao conceito de infinito. 

Ainda nesse trabalho tratam-se das três substâncias (ousias) cartesianas existentes, como descritas pelo filósofo francês: a res infinita ou res divina (ou Deus, como afirma Kardec); a res cogitans (ou espírito, com e minúsculo, como pensa Kardec) e a res extensa (ou matéria, em Allan Kardec). 

A revista mensal publicada pela Federação Espírita Brasileira (Reformador) pode ser assinada em formato digital ou impresso. A anuidade atual da assinatura digital é de 50 reais e pode ser feita em https://www.souleitorespirita.com.br/loja2/ Mais informações no mesmo site. O formato digital pode ser lido em computadores, notebooks, smartphones e outros aparelhos digitais de imagem.

Mais informações em http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/contato/

30.5.19

CURIOSIDADES: ALLAN KARDEC E MADAME JAPHET




Estive procurando informações sobre Celine Japhet, e esbarrei em uma curiosidade. Na revista "The spiritualist and journal of psychological science" de 13 de agosto de 1875, Alexander Aksakof publicou um texto escrito no castelo de Krotofka, na Rússia, em julho do mesmo ano.

O texto é bastante interessante para os estudiosos de Allan Kardec, e trata das acusações de Mme. Japhet a Kardec, tendo sido reproduzido depois no livro "Nineteenth Century Miracles", escrito pela espiritualista Emma Hardinge Britten.

Uma informação nova aos interessados na biografia de Kardec é dada pelo cientista Russo: que Rivail publicou "O livro dos espíritos" com os nomes que teve em suas duas reencarnações anteriores. 

Segundo Aksakof, o nome Allan foi informado por Madame Japhet e o nome Kardec pelo médium Roze. 

Outro dado curioso é que Rivail foi introduzido ao círculo de Mme. Japhet por Victorien Sardou, em 1856.

Outra curiosidade é que ela trabalhava como sonâmbula e era induzida ao transe empregando objetos "mesmerizados" pelo Sr. Roustan, um magnetizador que a acompanhou em Paris desde 1846, época em que ela se tornou sonâmbula profissional. 

Aksakof diz que Japhet alega ter psicografado três quartos de "O livro dos espíritos" e que um quarto se deve a Madame Boudin, médium de outro círculo. É curioso que ela chame Baudin de senhora, e que a identifique sem falar de sua irmã. No mesmo texto, Alexander apresenta a indignação de Madame Japhet, que desejava ter notoriedade a partir da publicação de O Livro dos Espíritos. Ele lamenta que ela tenha sido lembrada por Kardec apenas na última página do primeiro número da Revue Spirite.

Fui lá conferir, e encontrei uma versão um pouco diferente dos lamentos da médium para o pesquisador russo.

"Os primeiros médiuns que concorreram para o nosso trabalho foram as senhoritas B..., cuja boa vontade jamais nos faltou. O livro foi quase todo escrito por seu intermédio e em presença de numeroso público que assistia às sessões, nas quais tinha o mais vivo interesse. Mais tarde os Espíritos recomendaram uma revisão completa em sessões particulares, tendo-se feito, então, todas as adições e correções julgadas necessárias. Essa parte essencial do trabalho foi feita com o concurso da Senhorita Japhet, a qual se prestou com a melhor boa vontade e o mais completo desinteresse a todas as exigências dos Espíritos, porque eram eles que marcavam dia e hora para suas lições. O desinteresse não seria aqui um mérito especial, desde que os Espíritos reprovam qualquer tráfico que se possa fazer da sua presença; a senhorita Japhet, que é também uma notável sonâmbula, tinha seu tempo utilmente empregado: mas compreendeu que lhe daria uma aplicação proveitosa ao se consagrar à propagação da doutrina." Allan Kardec, Revista Espírita, janeiro de 1858.

Na publicação da segunda edição de "O livro dos Espíritos", Kardec escreveu na Revista Espírita de março de 1860, que as mudanças anunciadas no artigo de janeiro de 1858 foram efetivamente realizadas na segunda edição do livro, o que mostra que, de fato, Japhet deu um grande concurso à revisão e ampliação de O livro dos espíritos, mas ela parece superestimar sua participação como médium.

23.5.19

FEB PUBLICA A PRIMEIRA EDIÇÃO DE "A GÊNESE"




Há algum tempo se discute qual seria a última edição do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo" publicada por Allan Kardec. Após muita pesquisa e discussão, a Federação Espírita Brasileira publicou em "Edição Histórica Bilíngue" (Português e Francês) o texto da primeira edição francesa de Kardec. 

A tradução foi realizada por Evandro Noleto Bezerra. psiquiatra maranhense que traduziu toda a obra disponível de Allan Kardec para o português.

A editora publicou um aviso, explicando que o texto das quatro primeiras edições desse livro são, na verdade, reimpressões, uma vez que o texto não foi alterado por seu autor.

A quinta edição foi publicada em 1872 - após a desencarnação de Allan Kardec (1869) e foi traduzida por Guillon Ribeiro para a língua portuguesa. Ela apresenta alterações cuja autoria é questionada por alguns estudiosos, como Simoni Privato, cujo livro apresentamos neste blog. 

Com essa última publicação da federativa brasileira, os interessados no estudo do texto kardequiano poderão comparar as quatro primeiras edições com a quinta, e ainda conferir o texto original francês.

18.5.19

ESPIRITISMO: CRENÇA COMPARTILHADA OU DOUTRINA FILOSÓFICA?




Há uma diferença entre crenças compartilhadas e doutrinas filosóficas. As primeiras se baseiam em um corpo de ideias, racionais ou não, com ou sem base empírica, propostas ou mantidas por pessoas consideradas autoridades por um grupo. Um exemplo famoso de crença compartilhada é o “senso comum” ou conhecimento popular, que é um conjunto de crenças aprendidas em sociedade que são passadas entre gerações e aceitas pelos membros dos grupos sociais.

Recordo-me das famílias que atendíamos no Lar Espírita Esperança, e com as quais conversávamos sobre noções de puericultura. Muitas mães, oriundas “da roça”, aprenderam em suas comunidades que se deve tratar do umbigo do recém-nascido com teias de aranha, fumo de rolo ou outras substâncias, que a medicina mostra trazerem riscos de saúde para o neonato, infecções ou outros problemas. Indicávamos o uso de álcool, com base na autoridade médica, mas muitas mães recusavam, dizendo que demorava muito para cair o umbigo.

Nas nossas cabeças, tratava-se de uma disputa de autoridades. Quem deveria ser considerado? Muitas mães achavam que suas mães, avós, vizinhas e outras pessoas “experientes” sabiam o que fazer. Nós acreditávamos na medicina, porque os médicos baseiam suas práticas em conhecimentos verificados, registrados e comparados, com uma casuística muito maior que a do conhecimento popular. Entre nós e elas havia apenas uma disputa de autoridades, mas espera-se do conhecimento médico uma decisão se possível consensual, com base em estudos, observações e comparações estatísticas.

Quando pensamos no Espiritismo, vemos um corpo imenso de proposições, a partir dos estudos de Allan Kardec. Que proposições devemos aceitar como espíritas? O próprio Kardec nos ensinou que muitas delas partiram de observações, outras de raciocínios filosóficos, outras de consenso entre espíritos considerados superiores, que se comunicavam por médiuns diferentes. Mais à frente, quando publicava a Revista Espírita, Kardec dá mostras de levar em consideração a análise e a crítica oriunda dos diversos grupos e leitores do periódico.

Como avança o pensamento espírita? Deveria ser da mesma forma. Novas proposições deveriam ser analisadas racionalmente, as observações que fundamentam essas proposições deveriam ser explicitadas e compartilhadas. Com certeza, a reputação dos médiuns é importante, sua participação voluntária (sem qualquer contrapartida econômica) no trabalho mediúnico também, mas sua reputação em si não deveria assegurar a veracidade ou não da sua produção mediúnica.

Qualquer médium é capaz de ser enganado por espíritos, de substituir as ideias de espíritos comunicantes por suas próprias ideias (sem o perceber), de não entender direito o que lhes é intuído e registrar algo originalmente certo de forma equivocada. Os médiuns são pessoas, então mesmo que tenham seu compromisso com a reforma íntima, têm seus sentimentos, suas vaidades, seu orgulho pessoal, e suas emoções podem muito bem interferir em questões que deveriam ser solucionadas de forma racional, como todos nós o fazemos em nossas vidas.

Quanto maior o respeito que tenhamos a um médium, cabe a um estudioso espírita perguntar-se sempre qual é o fundamento do que se afirma em nome do espiritismo. A assertiva respeita a razão? A proposição entra em contradição com o corpo doutrinário? Nesse caso, o que justificaria uma mudança de posição até então adotada? Que argumentos foram construídos? A interpretação do que diz o Espírito está correta? Onde mais encontramos ideias de mesmo teor? Há alguma base na observação ou experimentação científicos?

Alguns espíritas e algumas casas espíritas, contudo, não avançam em nível de análise. Escolhem autores e expositores e aceitam em bloco tudo o que afirmam em nome do espiritismo. Têm uma noção superficial do sentido dos conceitos, não fazem análise racional do que dizem, não consideram importante verificar a origem das teorias que esposam. Afirmam que o espiritismo é também uma filosofia, mas desconhecem o que é filosofia. Quando são questionados, geralmente respondem algo que se resume na expressão latina: magister dixit, ou seja, “o professor disse”. Outra expressão latina também ilustra bem essa forma de trabalhar: “Roma locuta, causa finita” ou seja, “Se Roma falou, a causa está encerrada.” É uma forma de pensar composta de dogmas, ideias indiscutíveis, mesmo que pensem o contrário.

O professor, ou Roma, pode ser um expositor famoso, um médium prestigiado, um dirigente de casa espírita, ou um “guia espiritual”. Todos os cuidados com o conhecimento propostos pelo velho Kardec são esquecidos, e o que passa a valer é uma espécie de referendo grupal das opiniões. O membro da casa espírita passa a se preocupar mais com a conformidade ou não de uma ideia com as dos demais membros que com sua realidade ou coerência. É algo como: creio porque todos creem nisso também. A crença coletiva passa a ser mais importante que a verdade, a razão e até mesmo o bom senso.

Pensemos nisso. Estudar o espiritismo é algo que exige da pessoa interessada mais que a compreensão e a fé; exige compromisso com a razão e com a busca da verdade.

13.5.19

UMA EXORTAÇÃO RECENTE DE RAUL TEIXEIRA AO ESTUDO





Muitos leitores do Espiritismo Comentado pedem notícias de Raul Teixeira. Ele tem uma história de dedicação em nossa casa e em muitos dos companheiros de outras casas que conhecemos acompanhando-o em suas viagens por Minas Gerais.

Raul sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em 2011, em um avião, durante uma viagem internacional. Tendo sofrido sequelas, Raul compreende o que lhe dizem, mas ficou um bom tempo sem conseguir expressar-se, em função das lesões que o AVC causaram no cérebro.

Como sempre foi uma pessoa com vontade pétrea, Raul iniciou sua recuperação e vem fazendo o tratamento possível, que envolve diversos profissionais da área de saúde, como fisioterapeutas e fonoaudiologistas, por exemplo.

Quem já o viu após o acidente, sabe como o progresso obtido foi grande, ao vê-lo e ouvi-lo nesse vídeo. Ele consegue expressar-se de forma a recordarmos do grande expositor, até mesmo com seu senso de humor.

Nos pouco mais de cinco minutos em que fala, Raul convida os presentes a estudar o espiritismo, como condição sine qua non para serem espíritas. Critica os que dizem não ter tempo para estudar o espiritismo, mas, de forma contraditória, ocupam posições de direção nas casas espíritas. Critica os "espíritas de oitiva", aqueles que baseiam sua análise na opinião de expositores, como "fulano falou" ou "beltrano disse". 

De fato, como julgar se a posição de um expositor é coerente ou não com o pensamento de Allan Kardec, se espelha os ensinamentos de Jesus, se ele não estuda seus livros? 

O estudo não se resume à leitura isolada em casa, pode ser realizado em grupo, nas reuniões mediúnicas, em grupos de estudo na casa espírita, até mesmo usando o recurso das mídias sociais, desde que o objetivo seja a ampliação dos nossos conhecimentos do espiritismo e a reflexão da nossa vida em família ou em outros grupos sociais.

Agradeço aos companheiros dar voz a quem sempre teve uma vida dedicada e coerente com a doutrina espírita.


23.4.19

QUAL FOI O PRIMEIRO CENTRO ESPÍRITA DE MONTES CLAROS?



Conscientes da necessidade de preservação da memória do movimento espírita, alguns estudiosos têm tido a iniciativa de participar de instituições com essa finalidade e fazer comunicações de seus trabalhos.

Recebi de Wesley Soares Caldeira um artigo da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros (Minas Gerais), no qual ele compartilha com o leitor suas pesquisas sobre a origem do espiritismo na cidade.

É um texto agradável, que explica o surgimento e o desenvolvimento de algumas das principais cidades do Norte de Minas Gerais e os olhares de autores famosos que lá estiveram, como Auguste de Saint-Hilaire.

Wesley nos mostra que a constituição de algumas das cidades pólo da região é contemporânea à publicação dos livros de Allan Kardec na França. A cultura regional é predominantemente católica e os evangélicos só chegariam a Montes Claros no século XX (Batistas em 1912 e Presbiterianos em 1945).

Dos iniciadores do espiritismo em Montes Claros, Wesley cita Augusto Dias de Abreu, ourives, que se mudou para a cidade em 1884 e que teve por filho Olympio Dias de Abreu, um dos primeiros espíritas de destaque.

"Augusto fundou o primeiro núcleo de estudos e vivência espírita da cidade, isso em 1885." (p. 99)

Caldeira encontrou em Nelson Vianna dois outros associados de Augusto. O primeiro é Eusébio Alves Sarmento, farmacêutico e também fundador da União Operária de Montes Claros entre diversas outras realizações. O segundo é o Capitão Daniel Pereira da Costa, comerciante, fazendeiro e Delegado de Polícia. Daniel desencarnou sem herdeiros e deixou seu vasto patrimônio para a Santa Casa de Misericórdia e para os moradores de rua da cidade, dissuadido que foi pelo tabelião de deixar os bens para uma sociedade espírita de São Paulo.

Wesley recuperou os nomes dos fundadores do primeiro centro espírita: Euzébio Sarmento, Augusto Dias de Abreu, Professor Cícero Pereira (muito conhecido na capital), Tenente Ulisses Pereira (PMMG?), Ezequiel Pereira e José Versiani dos Anjos. Eles teriam fundado o primeiro centro espírita (realmente espírita e não de cultos de matriz africana), que dissolveu-se posteriormente, "pelo falecimento de alguns e mudança de outros" (p. 102)

Fica ainda a dúvida para se vasculhar nos cartórios e jornais antigos: qual seria o nome desse centro espírita? Quando foi fundado? O que aconteceu com seu patrimônio, se é que tinha? Que atividades realizou? As novas questões para a continuidade da pesquisa estão sugeridas.

18.4.19

A PÁSCOA E OS ESPÍRITAS


Ícone de Barnabé

Um estudo que o Hermínio Miranda começou a fazer em vida e chegou a publicar diversos livros, foi sobre os cristãos primitivos. Como era o cristianismo nos primeiros séculos após a desencarnação de Jesus? Tenho estudado há algum tempo os escritos dos primeiros cristãos aceitos pela igreja e há um autor chamado Barnabé, que não é o colega de Paulo de Tarso em Antioquia, mas que se considera que seja um instrutor de Alexandria, que escreveu o seguinte sobre o jejum, que era palco de discussões entre os cristãos judaizantes e não judaizantes:

“... “Eis o jejum que eu escolhi”, diz o Senhor. “Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui!” (Carta de Barnabé, 3:3-5)

A posição dele é clara. Em vez de atos exteriores, rituais, justificados pela tradição, atos interiores, ações em consonância com as mais caras ideias do Cristo, como a caridade moral e material, atos de justiça social e de reconhecimento do próximo, do que foi abandonado pelo mundo.

Jesus se pronuncia diversas vezes sobre isso, nas querelas com os fariseus e saduceus, tão voltados à letra morta, às exterioridades, às aparências de santidade. Pessoalmente gosto muito do diálogo com a mulher samaritana. Jesus a encontra em um poço e dá mostras de ser profeta, de saber coisas sobre a vida dela, como os seus cinco maridos. Ela então lhe faz uma pergunta sobre a religião judaica, que era objeto de disputa entre judeus e samaritanos:

“Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde é necessário adorar. Jesus lhe diz: Crede em mim, mulher, porque vem a hora quando nem neste monte nem em Jerusalém adorareis ao Pai. (...) Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade. João 40:20, 21 e 24

Este é um primeiro ponto a se discutir sobre o espiritismo e a páscoa. Herdeiro de valores construídos na forja do cristianismo, a relação dos espíritas com a religião ou a religiosidade é essencialmente interior e pessoal.

A Deusa Eastre também marcava a primavera no hemisfério norte. 
Como estamos no sul, aqui seria o outono.

Contudo, vivemos em sociedade. Herdamos uma salada de tradições, algumas dos cultos de deuses antigos, outras judaicas, todas exteriores. O coelho da páscoa, que povoa nossas televisões e a fantasia dos pequenos parece ser oriundo do culto da deusa germânica Eastre. O ovo vem de uma história desta mesma deusa que transformou uma ave em lebre. O ovo está presente na ceia pascal dos judeus. O cordeiro vem dos sacrifícios aos deuses e do episódio pascal judaico, que recorda a saída do Egito, quando se matou um cordeiro e passou seu sangue nos umbrais das portas.

Todos esses símbolos foram reapropriados pelo catolicismo e foi-lhes dado um significado cristão, ou, melhor dizendo, católico. O cordeiro hebraico passou a simbolizar a morte de Jesus no calvário para tirar os pecados dos homens. Convenhamos, isso não faz o menor sentido para o pensamento espírita. Nosso maior interesse no calvário é a demonstração inconteste da vida após a morte e da mediunidade dos que perceberam Jesus, e reconheceram que ele nos ensinou que a vida não termina no túmulo.

Refeição de páscoa judaica

Como ficamos nós, espíritas, então? Resta-nos, portanto, duas coisas:

1. Pensar no sentido da imortalidade da alma e da mediunidade, que se mostram após a desencarnação de Jesus, o que podemos fazer em família ou nos centros espíritas.

2. Aproveitar o feriado para estar junto com a família. Não vejo problemas em trocarmos ovos de páscoa com nossas crianças, em escondermos os ovos para os pequenos acharem, em deixar marcas de talco que lembram pés de coelho, em pintarmos cascas de ovos, como os católicos ucranianos, nem em fazermos juntos uma refeição, mas que isso seja uma grande brincadeira, um daqueles momentos mágicos de acolhimento que os pequenos guardarão para a idade adulta e a vida, e não um ato religioso (para que não fique dúvida, o centro espírita não é o local adequado para isso). 

Penso até que podíamos nos lembrar das “crianças sem ovos de páscoa”, das pessoas sem família, sofrendo de solidão, e abrir nossas portas a elas, ou visitá-las durante a páscoa, em memória de Jesus, se desejamos fazer algo diferente, em recordação à bela reflexão de Barnabé.