30.5.09

ENTREVISTA COM ASTRID SAYEGH 5

Figura 1: Mais uma turma de Filosofia Espírita

EC - Dora Incontri fundamentou sua proposta teórica no Espiritismo Kardequiano e criticou o pensamento niilista de alguns autores existencialistas e pós-modernos. Como você analisa este projeto?
ASTRID (IEEF) - Considero esse projeto de um valor inestimável. Dora Incontri é um Espírito muito lúcido e bem atualizado; o niilismo que caracteriza o existencialismo materialista exerce grande influência no pensamento da sociedade pós-moderna, daí a necessidade de conhecermos essas tendências de forma a saber combatê-las com fundamentos sólidos . O Espiritismo não pode estar a parte do momento histórico, e justamente por ser uma filosofia racional, essa razão iluminista deve continuar a serviço de uma crítica do momento histórico, de modo a superá-lo.

EC - Kardec utilizava um proto-conceito de classes sociais? Em caso afirmativo, ele é partidário da luta de classes ou da colaboração de classes?

ASTRID (IEEF) - Sob hipótese nenhuma os Espíritos se colocam a favor da luta de classes, pelo contrário, segundo a Lei da Igualdade, em O Livro dos Espíritos, todos os homens são naturalmente iguais, e as diferenças de classe são convenções. Existe sim diversidade de aptidões e de graus de conquista,mas dia chegará em que os homens não mais se olharão como castas de sangue mais ou menos puro, mas como Espírito mais ou menos puro. Embora os Espíritos admitam que seja impossível a igualdade absoluta de riquezas, longe de afirmar que exaltem a luta de classes, pelo contrário, em essência somos todos da mesma natureza, e um dia viveremos com as diferenças de forma harmoniosa.

EC - Herculano entendia que o Espiritismo é uma doutrina existencialista? Como se pode conciliar esta proposta com o pressuposto existencialista de que a existência antecede a essência?

ASTRID (IEEF) - Segundo Jean Paul Sartre, o mais conhecido filósofo contemporâneo, o homem veio do nada e volta para o nada. Efetivamente, surgimos no mundo como existentes, em meio a uma situação dada, de modo a então elaborarmos a nossa essência no mundo. Do ponto de vista espírita, poderíamos afirmar que a essência é que antecede a existência, potencialmente, e que no mundo tornamos essa potência ato; em outros termos, é na existência que revelamos nossa essência e a ela nos ajustamos.

EC - Alguns antropólogos brasileiros têm defendido a idéia de que Chico Xavier aproximou o pensamento de Kardec ao Catolicismo no Brasil. O que você pensa disto?

ASTRID (IEEF) - Na verdade, não foi Chico Xavier, mas Emmanuel que, por ter sido padre, certamente tem esse religiosismo muito presente em seu Espírito. No entanto, não considero essa questão comprometedora absolutamente, pois a atitude de reverência a Deus, termos que denotam paixão e não apenas a frieza da razão, nos contagiam muito mais que conceitos e raciocínios. Não vejo nada de misticismo como comentam alguns, pelo contrário, sinto a expressão de um Espírito fervoroso que, acima da expressão conceitual, pela nobreza de sentimento que o caracteriza-se, necessita expressar o seu interior de forma metafórica. Linguagem metafórica é uma coisa, igrejismo e dogmatismo, com todo respeito, é outra. Alguns filósofos inclusive consideram atualmente a linguagem metafórica como recurso mais adequado de se dizer as coisas espirituais.
Defendo a idéia de que o racionalismo puro também acaba por ser dogmático e não nos torna espíritas de fato, mas ardor e entusiasmo são geradores de mensagens autenticamente evangélicas e de conduta nobre. Eu diria que a mensagem de Emmanuel é antes evangélica cristã e não católica; seus livros nos induzem a educar os sentimentos, e não consta, absolutamente, nenhuma evidência de formalismo religioso.

2 comentários:

Ricardo Marçal disse...

Sensacional!

Alexandre disse...

Aí vão alguns comentários sobre a última questão.
1. O catolicismo é um dos fatores mais marcantes da cultura brasileira. Quando o espiritismo chega ao Brasil, ele passa a assentar-se, relacionar-se e imiscuir-se com a nossa cultura. Lembre-se o caso - entre muitos outros - de Olympio Telles de Menezes, pioneiro da imprensa espírita, que se declarava espírita e católico ao mesmo tempo.
A antropóloga Marion Aubrée diz, com razão, em uma entrevista, que o kardecismo é assimilado e interpretado diferentemente nos diferentes países onde aportou. Espiritismo "puro" não existe. Inútil negar a influência católica no espiritismo nacional. E ingênuo achar que trouxe apenas fatores negativos.
2. Se há grandes diferenças e divergências entre espiritismo e catolicismo, ambos, por outro lado, guardam também muitas similitudes, principalmente por nutrirem-se da tradição cristã. E não só no Brasil. O "Evangelho segundo o espiritismo" de Kardec é grandemente tributário do pensamento católico.
3. Tenho a impressão de que o recorrente repúdio de espíritas ao legado católico - não me refiro aqui à resposta de Astrid, que é ponderada - tem muito a ver com briga entre gente da mesma família. Estimo que a grande maioria dos espíritas brasileiros vieram do catolicismo. (Emmanuel não é um estranho no ninho, muito pelo contrário.)
4. A alegação - que vem sendo repetida por alguns autores - de que Emmanuel, por ter sido padre, "catolicizou" o espiritismo brasileiro me parece descabida. Primeiro: leiam, por exemplo, os livros "Emmanuel" e "A caminho da luz". Entre os autores de Chico Xavier, ele é um dos mais ferozes críticos do catolicismo. Se partíssemos deste dado, a suposta vida de Emmanuel como padre poderia cortar pelo outro lado: "com conhecimento de causa, ele critica a igreja católica etc..."
Acho importante perceber que, para justificar uma opinião, a alegação da outra vida não é, ao menos no caso em questão, argumento válido.
Aqui, não me refiro à resposta da Astrid, mas a autores que atacam Emmanuel porque teria sido padre algumas centenas de anos atrás! Se, por um prodígio, conhecêssemos todas as vidas de Emmanuel, poderíamos selecionar esta ou aquela para defender este ou aquele ponto de vista, ao gosto do freguês. Em suma, acho que, em si, o legado católico não constitui demérito ao espiritismo, que faria justiça ao reconhecê-lo. Afinal, o espiritismo decorre da tradição cristã e da modernidade. Esta, normalmente, é valorizada, e aquela muitas vezes é rejeitada.

Alexandre.