7.5.14

O PERÍODO RELIGIOSO




Dezembro de 1863. Allan Kardec dava mostras de alguma tristeza quando publicou  “Período de Luta” na Revue Spirite. Os últimos anos não haviam sido fáceis. Após o acolhimento inicial de seu primeiro livro espírita, diversos grupos começaram a se organizar pela Europa ou a enviar correspondências para o autor da boa notícia. Queriam trocar informações, queriam orientações de funcionamento, queriam diálogo. Os anos subsequentes ao abril de 1857 foram muito frutuosos, e ele havia revisto e ampliado “O livro dos espíritos”, publicado um livro introdutório para os iniciantes, impresso um guia, espécie de manual, que explicava o que é mediunidade e como organizar sessões experimentais. Sua maior realização, entretanto, havia sido a publicação de uma revista mensal, para a qual não faltavam assinantes de diversas partes do continente e fora dele.

Após o sucesso inicial do Espiritismo, termo que ele cunhou para distinguir a doutrina desenvolvida em diálogo com Espíritos que comunicavam através de médiuns, Kardec começou a enfrentar as críticas e até pequenas agressões verbais que surgiam de diferentes segmentos da sociedade. A princípio ele acreditava que o estudo científico-filosófico da vida após a morte poderia ser uma alternativa ao desgastado pensamento religioso, e que religiosos de diversas designações poderiam se interessar e tornarem-se estudiosos dos ensinamentos espirituais.

A igreja, contudo, havia dado o que considerava ser um golpe de misericórdia na doutrina nascente: inserira no index prohibitorum seus dois livros mais populares, fechando as portas do Espiritismo aos católicos fiéis. A Europa, contudo, já não era mais o grande feudo cultural do século XVI, e os livros continuavam sendo procurados, as assinaturas continuavam chegando, a correspondência aumentava.

Após tanto desgaste pessoal, e diante do aumento de trabalho, entrevendo a dificuldade das instituições antigas reverem seus dogmas e abrirem mão de seu poder secular, Kardec comunica em apenas uma linha que reveria a linha de trabalhos adotada até então:

“A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso.” 

Em apenas quatro meses, um novo livro seria publicado: Imitação do evangelho segundo o espiritismo, que na segunda edição já apresentava o título que o transformaria no livro mais vendido de Kardec nas terras brasileiras, ao longo dos séculos XX e XXI. Kardec começa a publicar sobre o cristianismo e o Cristo, dando bases a uma proposta ética do movimento nascente.


Dali para o futuro, todos os livros passariam a tratar diretamente dos ensinamentos de Jesus à luz do conhecimento espírita. Estava consolidado o período religioso.

2 comentários:

Eduardo Cormanich disse...

Interessantíssimo o texto, e mais ainda o tema.

Poucos compreendem realmente as motivações positivistas que impulsionavam a busca de Kardec, por uma "verdade" a respeito da realidade espiritual. É claro que, em algum momento, seria necessário um comentário mais aprofundado da moralidade, e dos ensinamentos evangélicos.

O que pareceu ser, no seu texto, o "período religioso", talvez precise ser melhor compreendido, para que, também nós espíritas não caiamos nas mesmas armadilhas religiosas, como o dogmatismo, fundamentalismo e até mesmo uma desvalorização de outras religiões.

Obrigado pelos esclarecimentos e pela oportunidade.

SOSTENIBILE disse...

Jáder, texto bem pertinente.
Por alguma dificuldade ou resistência na compreensão do corpo teórico do Espiritismo, alguns criticam o fato da Doutrina dos Espíritos ser, como o próprio Kardec afirmou, uma religião em seu sentido filosófico.
Apenas para destacar o caráter religioso e cristão, segue uma afirmação de Kardec publicada na Revista Espírita, em abril de 1866:
“Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, abrimos o caminho para o Espiritismo Cristão, e fomos instituídos, pois, em desenvolver os seus princípios, assim como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.
O problema de interpretação é visível em dois extremos: de um lado aqueles que não conseguem compreender o Espiritismo como religião por não ser institucionalizada e sem hierarquia clerical etc. e de outro lado aqueles que pretendem "Igrejificar" e mistificar o Espiritismo. Ambas as posturas são tão incoerentes quanto.