15.6.15

ENTREVISTA EXCLUSIVA COM LYGIA B. AMARAL



Lygia Barbiére Amaral é uma escritora carioca de romances espíritas, que reside em Caxambu-MG. Ela vai passar alguns dias em Belo Horizonte, quando fará palestras e lançará seu livro "Castelos de Marzipã". Aproveitamos o ensejo para conhecê-la melhor, e ela nos concedeu a entrevista abaixo.

EC – Lygia, obrigado por nos receber. Como você começou a escrever? Por ofício?

Lygia - Acho que escrevo por necessidade. Desde muito pequena eu tinha necessidade de escrever minhas coisas numa caderneta, ideias, personagens, pequenas histórias. Tinha um verdadeiro elenco de bonecas, de vez em quando montava “cenários” e pedia para minha mãe passar uma semana sem limpar o quarto, até que eu terminasse aquela “história”.  De verdade, eu não consigo ficar sem escrever. É este o meu “TOC”. Não consigo sair de casa sem a minha caderneta, gosto de registrar tudo o que acho interessante. Às vezes uma explicação em uma palestra, um diálogo ouvido por acaso, uma frase. Como tenho memória visual, quase sempre sei  onde escrevi o quê e uso muito esses arquivos na hora de compor minhas histórias. Tem gente que fica intrigado, não resiste e pergunta: “nossa, por que você escreve tanto?” E eu digo simplesmente “porque eu gosto”.  Necessidade física e espiritual também. Penso que um dia assumi na Espiritualidade o compromisso de usar esse dom com amor e responsabilidade, a fim de poder ajudar o maior número possível de pessoas. Sabe-se lá de onde vem essa minha ligação tão forte com as palavras. Mas é realmente o que eu tenho tentado fazer através de meus livros. 

EC – Seus livros tratam sempre de temas com alguma ligação com a psicologia e com problemas atuais. Você é psicóloga ou médica? Qual é sua formação?

Lygia - Que interessante você fazer esta interpretação. Quase fui médica. Se tivesse feito vestibular para medicina, seria psiquiatra. Mas cortei o dedo na véspera da inscrição e cheguei à conclusão de que não suporto ver sangue, que não dou conta de ver pessoas passando mal. Também tinha paixão por psicologia, sempre adorei. Mas naquela época ainda havia muito preconceito, meu pai dizia que psicólogo não tinha futuro. E havia também a questão com a escrita, que sempre foi muito forte, acabei optando pelo jornalismo. Hoje acho que segui direitinho o caminho de linhas tortas traçado por Deus, que havia todo um propósito naquilo que por alguns anos ficou parecendo um caminho torto. Como jornalista aprendi a técnica do texto dissertativo, a fazer entrevistas e pesquisas, trabalhei minha timidez. Trabalhei cerca de cinco anos direto como repórter. Então decidi estudar roteiros. De cinema, de Tv, cheguei a cursar várias oficinas de roteiro, inclusive a da Rede Globo, onde era preciso fazer concurso para entrar. Quis então saber mais sobre isso. Queria entender mais de estrutura, de regras, como se monta, como se estabelece a interação com o público. Foi quando entrei para o mestrado em teatro na Uni-Rio, que acabou se prolongando para um mestrado em Letras, na PUC, onde estudei especificamente a estrutura dramática dos folhetins e das telenovelas brasileiras a partir do modelo criado por Ivani Ribeiro e Janete Clair.  No meio disso tudo, uma pessoa muito especial (Deus sempre coloca pessoas especiais nos momentos-chave do nosso caminho) me chamou e perguntou se eu já havia pensado em escrever romances espíritas. Sem que eu pedisse nada, essa pessoa analisou meu currículo e chegou a essa conclusão. Mais do que isso, foi essa pessoa quem me incentivou a escrever e me colocou no mercado há quase vinte anos.




EC – Como você escreve seus romances? Senta e escreve intuitivamente? É mediunidade?

Lygia - Ai, Jader... Quem dera! Acho que seria bem mais simples – para mim que tenho quatro filhos e uma vida super corrida, se fosse assim. Mas não é. Trabalho com pesquisas. Com entrevistas, escrevo e reescrevo muitas vezes cada capítulo até achar que estar bom. É claro que existe proteção, inspiração, amigos espirituais. Mas eles não escrevem o texto para mim. Podem, sim, me ajudar em alguma pesquisa, me intuir onde achar o que preciso ou até me inspirar a procurar algum livro, em algumas vezes encontro exatamente a pessoa de que precisava para me dar as informações necessárias naquele momento. Mas se eu não fizer a minha parte não acontece. Se eu desanimar, eles podem até colocar na minha frente a mensagem de ânimo que estou precisando, que às vezes pode ser até a correspondência eletrônica de algum leitor. Mas escrever para mim ou através de mim não faz parte do programa....

EC – Que escritores do movimento espírita mais a influenciam?

Lygia - Kardec, Kardec, Kardec. Não faço nada sem ele. Depois vem o trabalho do Chico: Emmanuel e André Luiz são fundamentais. Tem também o Leon Denis, que me traz toda uma base filosófica. Também aprendo muito com os livros do Divaldo; gosto muito do trabalho do Haroldo Dutra Dias – nossa, que medo de esquecer alguém! Entre os romances, sou fã incondicional do Eça de Queiroz, psicografado pela Wanda Canuto... Ouve-se tantos comentários desmerecendo os romances espíritas, mas se pensarmos por outro lado, tem muita gente boa no espiritismo atualmente, muitas pessoas que fazem um trabalho sério. Cabe ao leitor a pesquisa, o discernimento, a base para decidir que informações deve efetivamente acolher. Mas penso que se olharmos pelo lado otimista, nunca se teve acesso antes na história a uma variedade tão grande de títulos, temas e informações ligadas ao espiritismo. É maravilhoso aprender a caminhar sobre esse universo!

EC –Como tem sido a acolhida de seus livros pelo movimento espírita? Há muita desconfiança?

Lygia - Graças a Deus nunca tive problemas. Meu trabalho é muito sério, quase jornalístico. Para você ter uma ideia, leio em torno de 200 livros sobre o assunto que será abordado, antes e durante a escrita de cada romance (às vezes, mesmo depois de pronto, não resisto e compro mais alguma coisa sobre o assunto, livros que contenham informações que não tinham sido abordadas: se for necessário, faço retificações). O único problema que costuma acontecer às vezes é com as editoras. Ao longo de todos esses anos de trabalho, cheguei à conclusão de que não basta ter uma editora. É preciso trabalhar em total sintonia com o editor, que precisa ser alguém que pense mais ou menos como você, que tenha muito conhecimento, que te apoie em todos os sentidos. Assim com foi o José Olympio para o Monteiro Lobato e o Carlos Drummond, sabe como? É preciso uma amizade, uma disposição mútua em realizar aquela tarefa que muito provavelmente já foi combinada no mundo espiritual, muito antes de chegarmos aqui...




EC – Como surgiu a ideia de escrever O sono dos hibiscos?

Lygia - Essa talvez tenha sido a mais interessante de todas as sementes de história. Eu queria entender o que se passa com uma pessoa que entra em estado de coma e comecei a pesquisar.  Aos poucos, a ideia foi se costurando na mente. O objetivo principal era mostrar que não temos o direito, nem sabedoria, nem conhecimento suficientes para decidir quando alguém deve morrer. Então imaginei uma trama em que um rapaz entrava em coma após um acidente, sem saber que a namorada estava grávida dele. Seu estado era tão grave que ele permanecia dezoito anos em coma, até que um dia acordava e se via diante de um mundo completamente daquele de quando ele “dormiu” e descobria que era pai de uma adolescente já na faculdade. Naquela época minha mãe ainda estava conosco, eu tinha o hábito de contar para ela todas as histórias antes de começar a escrever. Ela era uma pessoa que devorava romances, via filmes e novelas, a espectadora ideal para tirar a prova se a história era boa ou não.  Lembro como se fosse ontem da mamãe dizendo: - Ah, Lygia, a trama é até bonita, mas acho que dessa vez você exagerou! Dezoito anos é muito tempo, não dá para acreditar! Era minha última tarde no Rio naquelas férias de julho. Dois dias depois, eu já estava de novo em Caxambu, começando a preparar o jantar das meninas (naquela época eu ainda estava grávida do meu terceiro filho), quando o telefone tocou. Era ela, toda afobada: “Lygia, liga depressa a televisão no Jornal Nacional! Está passando uma matéria sobre um rapaz que ficou em coma por dezoito anos nos Estados Unidos, tem uma filha da mesma idade e acabou de acordar! Pode escrever o livro que vai dar certo!” Pouco tempo depois a minha mãe entrou em coma e eu, a essas alturas grávida de oito meses, vivi na pele o desespero de encontrar a melhor forma de ajudá-la naquele estado. Ela passou mais de um mês dormindo, voltou pouco antes do meu filho nascer. Disse, com muita dificuldade, porque tinha feito uma traqueotomia, que tinha voltado só para poder me contar o que tinha acontecido durante o coma para que eu pusesse no livro.... Três meses depois ela desencarnou. E eu mergulhei freneticamente no livro. Descobri que pesquisar o que viam as pessoas em coma, estudei até o livro tibetano dos mortos! Era a única forma que eu tinha de saber notícias dela, o único meio de diminuir a dor que eu estava sentindo e transformá-la em algo de útil para mim mesma e para as outras pessoas.  E assim, em cerca de quatro meses, com um bebê dormindo ao meu lado e mamando enquanto eu digitava os capítulos, eu escrevi O Sono dos Hibiscos.  




EC – Pode contar algum caso de leitor com alcoolismo, por exemplo, que leu A Ferro e Flores e deu algum retorno para você?

LygiaEssas situações me emocionam muito, não sei descrever para você a intensidade do que sinto quando alguém me escreve contando histórias assim. Dá vontade de ajoelhar no chão e agradecer a Deus... Sobretudo quando se trata desse assunto. Houve dois leitores em especial que me marcaram muito. “ Olá, sou um alcoólatra em recuperação”, dizia um deles. Esta pessoa ficou mais ou menos um ano se correspondendo comigo, contando suas dificuldades, agradecendo infinitamente o que aprendera no livro. Desejo de todo o meu coração que ele tenha conseguido conquistar a vitória que tanto desejava. O outro era um rapaz bem jovem, que escrevia muito bem. “Ganhei o seu livro "A ferro e flores" e bebi ele inteiro em uma só talagada. Há uma semana nem sabia que você existia, hoje parece que te conheço há séculos. Você não me conhece, mas gostaria muito que me aceitasse como um amigo no facebook. Na verdade acho que nem eu mesmo me conheço, porém, com a sua divina ajuda, estou me RE-CONHECENDO de novo. Muito obrigado por tudo!!! Grande Beijo no coração!!!”, dizia a mensagem, uma das mais bonitas que já recebi até hoje.  






EC – Você conheceu Herminio Miranda. Pode contar ao movimento espírita alguma experiência sua com ele?

Lygia - Hermínio e eu nos tornamos grandes amigos. Ele costumava passar pelo menos metade do ano em Caxambu, só não gostava de ficar aqui na época de frio, em função dos problemas de coração que sempre se agravavam no inverno. Eu o conheci passeando pelas alamedas do Parque das Águas, minha filha mais velha, hoje com 17 anos, ainda era um bebê; por muitas vezes nos encontramos no Parque depois desse dia e passeamos juntos por essas alamedas. Hermínio dizia que em determinado ponto de nosso Parque existe um portal de acesso que nos liga ao parque de Nosso Lar. Até hoje, sempre que estou com algum problema, costumo ir a esse lugar para orar e meditar. Num desses encontros, ele me contou que andava preocupado, havia recebido um original de mais de 800 páginas escrito em inglês do século XVIII, se questionava se valeria a pena se dedicar a uma tradução como essa, embora a história fosse muito bonita. E eu disse a ele: mas professor Hermínio – eu sempre o chamava assim, - se o senhor não fizer isso, quem poderá fazê-lo? O senhor já imaginou quantas pessoas vão perder a oportunidade de conhecer esta história tão interessante se o senhor não o fizer? Ele ficou um tempo parado, pensativo, não respondeu nem que sim, nem que não. Tempos depois ele me trazia o livro, publicado com o título de “A História Triste”. Trazia uma linda dedicatória, onde dizia que se eu “era um pouco responsável” por aquele trabalho. Como se ele, o grande Hermínio, verdadeiramente precisasse de minhas palavras de reles mortal!... Com o passar dos anos, ele foi se tornando uma pessoa mais que querida, mais próxima, passei a nutrir por ele um amor de filha. Numa das últimas  vezes em que tive a oportunidade de visitá-lo, ele olhou fundo em meus olhos e disse: ainda não identifiquei em que existência nos conhecemos. Mas eu tenho certeza de que não é de hoje... Lembrando de tudo isso sinto a alma molhada de saudades... Mal posso esperar pelo dia em que poderei abraçá-lo novamente. Conhecer o Hermínio, desfrutar do seu carinho e amizade foi um dos maiores presentes que Deus me deu nesta vida.





EC – Fale um pouquinho sobre o novo livro, Castelos de Marzipã. O que espera do livro?


Lygia - Esse livro começou com um pedido de uma grande amiga, que é endocrinologista. Ela se preocupa muito com seus pacientes, porque muitas pessoas costumam não dar importância ao diabetes, já que é uma doença que se desenvolve silenciosa e progressivamente. No entanto, conforme constatei em muitas pesquisas, é uma das doenças que mais mata pessoas no mundo inteiro. Resolvi, então, aceitar o desafio. No meio do caminho, acabei chegando à conclusão de que a doença está profundamente ligada a comportamentos compulsivos e à ansiedade que caracteriza a nossa sociedade atual. Como não cai uma folha sem que seja do conhecimento de Deus, existe todo um possível aprendizado por trás de tudo isso, em muitos casos, até mesmo um planejamento feito no mundo espiritual a fim de que pudéssemos aprender determinadas lições, importantes para a nossa evolução. Em geral, as pessoas tendem a pensar que o diabetes está sempre ligado à gula, a hábitos alimentares errados. Também é isso, mas não é só isso. Diria que a doença tem suas raízes, acima de tudo, a necessidade que aquele espírito tem de disciplinar o seu comportamento. É isso o que tento mostrar através da trama de “Castelos de Marzipã”, que tem esse nome porque a personagem principal é uma exímia cozinheira, uma mulher muito rica e bem sucedida que cresceu comendo bombons de marzipã importados. Mas que vai precisar quebrar todos os seus padrões quando a vida segue rumos que ela não esperava e ela se vê obrigada a buscar novos valores para enfrentar o seu diabetes e descobrir que podemos, sim, ser muito felizes quando aceitamos e entendemos por que precisamos passar por certas provas. 

A agenda de palestras de Lygia em Belo Horizonte pode ser acessada em: http://eventoespirita.blogspot.com.br/2015/06/escritora-lygia-barbiere-amaral-lanca.html

Um comentário:

Maria Olinda disse...

Gostei muito da entrevista com a Lygia B.Amaral e vou procurar seus livros. Assuntos interessantes e a escritora tem um jeito de ser que me cativou...SIMPLICIDADE E CARISMA...
Ah! vou propagar esse blog no grupo espírita de que faço parte. Grande abraço. Maria Olinda ( Pelotas- Rio Grande do Sul)