13.7.10

KARDEC E A RELIGIÃO


Em diversos momentos Kardec discute a questão da religião em face ao Espiritismo.
Na Revista Espírita de julho de 1864 Kardec publicou um texto pouco conhecido hoje, intitulado A Religião e o Progresso. Basicamente ele aponta mudanças no dogma católico que vão surgindo nas palavras de seus contemporâneos e seus impacto sobre a ortodoxia. Seu argumento central parece ser "a religião precisa rever seus princípios ou perecerá" e ao apontar algumas transformações anunciadas (a substituição do inferno pela caridade, por exemplo, publicada pelo Jornal La Verité), que, não intencionalmente, aproximam o catolicismo do pensamento cristão-espírita.
Ele conclui este trabalho dizendo: "Estender-se-ão as mãos, quando a ciência não vir na religião nada de incompatível com os fatos demonstrados e a religião não masi tiver que temer a demonstração dos fatos. Pela revelação das leis que regem as relações entre o mundo visível e o invisível, o Espiritismo será o traço de união que lhes permitirá olhar-se face a face, uma sem rir, a outra sem tremer. É pela concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são trazidos a Deus."

4 comentários:

Luiz Carlos disse...

As religiões são os transatlânticos da fé.

Qualquer manobra exige um complexo sistema de comunicação do comandante ao leme para mudar o rumo em 1°.

Kardec no fervor de um paradigma, cuja filosofia mudava a forma de se entender a relação homem e espírito, acreditou nas mudanças do milenarismo religioso com a nova perspectiva do Espiritismo.

Olhando o mundo hoje, mesmo com os óculos da esperança de Kardec, percebemos que os dogmas continuam os mesmos e o Espiritismo ainda é obra do demônio porque tornou-se mais uma questão de devoção do que de razão (principalmente no Brasil) que disputa o espaço com outras religiões.

Jáder Sampaio disse...

Luiz Carlos,

Um psiquiatra suiço, Carl Jung, distinguiu dois aspectos importantes da religião. Para que não houvesse confusão, a dimensão interior, experiencial e vivida pelas pessoas ele chamava de "experiência numinosa". A parte institucional, formal, dos dogmas e organizações, ele denominava como "confissões de fé".

Penso que Kardec nunca negou o caráter pessoal e interior, da relação com Deus, que o Espiritismo trazia.

De fato, a proposta de Kardec para o pensamento religioso é a articulação entre as ideias religiosas, a razão e as ciências empírico-formais. É uma proposta arrojada, ainda mais para um país com a nossa história, na qual as universidades até meio século não tinham estruturas sistemáticas de pesquisa.

Quanto ao Espiritismo ser "do demônio", se você entender demônio no sentido grego (daimon - espíritos ou seres espirituais), sou forçado a concordar com você. Se for o sentido persa (uma entidade do mal, que induz o homem ao mal, com poderes divinos ou, pelo menos angélicos), você deve saber que os espíritas não acreditamos nisso, mas respeitamos as diferenças.

Grato pelo comentário respeitoso e analítico.

Luiz Carlos disse...

Perdoe-me se a impressão das palavras tornou-me um avesso ao Espiritismo, pelo contrário.

Apenas desejei salientar que o dogma como “ponto fundamental” da religião, associado aos seus princípios, uma vez extinto o dogma, a religião desce o ralo juntos. Por isso considerei como transatlânticos da fé. Como é impossível derrubá-lo reinterpreta-se. Com sincretismo religioso surgem novas religiões, sobrevive aquela que mais converter.

Quando o Espiritismo se apresenta como ponto filosófico (o racional) a convivência é pacífica, mesmo que paradoxal. Quem não conhece pessoas simpáticas a reencarnação (outro dogma) mas que não abre mão de sua religião tradicional. Mas quando, toma o formato religioso, por exemplo, Deus é o mote da questão, não há espaço para o racional. A crença fala mais alto. Nesse momento nada melhor como adjetivar o Espiritismo como coisa do demônio.

Mesmo diante da afirmativa de Kardec “a religião precisa rever seus princípios ou perecerá”, o que vimos hoje? A instituição (religiões são milenares) – “confissões de fé”, sobrevive, porque a crença é o estado numinoso de ver o mundo.

O Espiritismo religioso como censo não passa do segundo dígito depois da vírgula no campo percentual do mundo. Agora quando se trata de filosofia ou mesmo ciência (embora tacanho pela importância que emprestam a esse ramo do conhecimento) não há como censo avaliar mas essa concepção é perceptível no senso comum. Exemplo recente no Brasil foi o filme sobre Chico Xavier, de onde veio tanto interesse já que somos insignificantes nas estatísticas demográficas?

João Donha disse...

Boa essa figura do Luiz Carlos: o transatlântico espírita. De início, Kardec, o comandante, julgou estar dirigindo uma ciência. Com algumas milhas navegadas, viu que a estrutura não era prá isso, nem o combustível, nem mesmo a tripulação atraída. Iniciou, então, as providências para a mudança de rumo (o "seria religião?", de 1868). Mas, dado o "complexo sistema de comunicação", o comandante morreu antes que suas ordens influenciassem o rumo do navio.
Ou, parece, o transatlântico tomou o rumo que as marés ditaram, à revelia da tripulação...