29.9.08

Espiritismo e Universidade: Chico Xavier e a Antropologia


Bernardo Lewgoy publicou na Revista de Antropologia da USP o artigo "Chico Xavier e a Cultura Brasileira". Neste trabalho ele faz o seguinte destaque:

"O ponto mais importante na consideração do lugar de Chico Xavier na cultura e na religiosidade do Brasil do século XX reside na peculiar combinação que este realiza, através de sua biografia, entre o espiritismo kardecista com um catolicismo familiar e popular bastante tradicional." (LEWGOY, 2001, p. 62)

Lewgoy descreve com detalhes uma grande quantidade de pontos na obra de Chico Xavier que a aproxima ao catolicismo. Seu trabalho é bem fundamentado, contudo, ele supervaloriza o racionalismo em Kardec, esquecendo-se de textos importantes do codificador, como por exemplo o final de "O Evangelho Segundo o Espiritismo" (com o título como "A Prece Segundo o Espiritismo"), no qual o codificador defende idéias cristãs, ponto de contato entre o Catolicismo e o Espiritismo, como na passagem abaixo:

"Além do anjo guardião, que sempre é um Espírito superior, temos os Espíritos protetores que, embora menos elevados, são igualmente bons e generosos. Eles são, geralmente, parentes, amigos ou quaisquer pessoas que não conhecemos em nossa existência atual. Eles nos ajudam pelos seus conselhos, e muitas vezes intervindo nos atos de nossa vida."

No 4º ENLIHPE, a historiadora Míriam Hermeto apresentou um folheto de inauguração de um Centro Espírita de Belo Horizonte, que teve a presença de Chico Xavier. Na capa encontra-se impresso "Comemoração do Dia dos Mortos", e no seu interior uma mensagem de Emmanuel desconstruindo as prática então vigentes de comportamento nesta data, sob o argumento de que não há morte.
Penso que grande parte das passagens que Lewgoy utiliza para mostrar um sincretismo católico, são desdobramentos ou referências diretas ao pensamento kardequiano. Gostaria de, respeitosamente, remetê-lo ao capítulo 7 da minha tese no qual defendo um ponto de vista diferente do apresentado por ele.

Outra questão a ser levantada, que corrobora a tese da existência de algum sincretismo entre o Espiritismo Brasileiro e o Catolicismo vigente, espécie de "zeitgeist" de nossa cultura, são os textos de Telles de Menezes, no qual ele afirma não ver diferenças importantes entre o Espiritismo de Kardec e a Doutrina Católica e defende idéias como a da ressurreição dos corpos. Esta posição seria criticada elegantemente por Desliens (informação de Jorge Damas), ex-secretário de Kardec, na Revue Spirite.

Sugiro a Lewgoy direcionar seus para uma perspectiva histórica e que considere a ótica oposta em uma releitura da obra de Chico Xavier. É bem possível que se venha a chegar à conclusão de que, mesmo mantendo práticas católicas, grande parte da obra de Chico Xavier desconstrói práticas sociais e idéias católicas vigentes não apenas no meio espírita, mas em grande parte da sociedade brasileira.

Referência: LEWGOY, Bernardo. Chico Xavier e a cultura brasileira, Revista de Antropologia, São Paulo, USP, v. 44, n. 1, p. 53-116, 2001.

3 comentários:

Alexandre disse...

Jader,
Eu também não vejo a obra de Chico Xavier como uma contribuição para a "catolicização" do espiritismo.
Na verdade, o vínculo entre o espiritismo e o cristianismo vem desde Kardec. O que não podemos confundir é "catolização" (que não ocorreu) com consolidação dos vínculos entre o espiritismo e a tradição cristã milenar.
Lewgoy, assim como muitos de nossos confrades espíritas, acabam cometendo um erro de leitura em relação a obra de Kardec.
Sobre os confrades espíritas, podemos destacar, no que se refere a tal "erro de leitura" (minha opinião particular), a polêmica sobre se o espiritismo é ou não religião, se tem ou não um aspecto religioso...
Pela leitura apenas das primeiras obras de Kardec (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e O que é o Espiritismo), o aspecto religioso do espiritismo não merece tanto destaque.
Inclusive, a caracterização do espiritismo apenas como "ciência de observação" e "doutrina filosófica", em O que é o Espiritismo, conclui como o espiritismo devia ser encarado até aquele ponto da obra Kardequiana, que procurava disponibilizar os conhecimentos da doutrina espírita para todos os religiosos da época, a fim de renovar suas crenças e não estabelecer uma nova igreja.
Somente com as obras seguintes (O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese) é que o espiritismo consolida seu aspecto religioso e se vincula, definitivamente, à tradição cristã milenar. A própria Igreja, segundo Kardec, é que tornou o espiritismo uma nova religião.
O espiritismo, então, se consolida como "Consolador prometido por Jesus" e como "Terceira Revelação". É missão do espiritismo, inclusive, promover a aliança entre a Ciência e a Religião.
Neste sentido, Chico Xavier desenvolve o que Kardec iniciou na direção da tradição cristã e não do catolicismo.
Entretanto, a tradição cristã foi por muito tempo exclusivamente o que a Igreja Romana ditou.
Logo, grande parte dos personagens que nutriram o espiritismo de exemplos integraram de modo direto ou indireto a Igreja Romana. Do mesmo modo, grande parte dos espíritos superiores que alimentaram a doutrina espírita através da mediunidade também fizeram história junto a mesma Igreja.
Não podemos esquecer disso e, ao procurarmos diferenças entre nós e os "outros", acabar jogando fora ou fugindo daquilo que na tradição cristã é base fundamental para a nossa própria existência.
Chico Xavier, inclusive, foi extremamente fiel às base espíritas e cumpriu a missão de fazer o espiritismo avançar na direção certa: afirmação do aspecto religioso do espiritismo em consonância com a tradição cristã.
Abraços,
Alexandre Ramos de Azevedo.

Alexandre Ramos disse...

Prezados,

Venho aqui novamente para dizer que quase 7 anos depois desse comentário, apresentei no 11º ENLIHPE um trabalho que aborda parcialmente este tema.

A programação do 11º ENLIHPE e algumas notícias sobre o evento estão disponíveis em:

http://www.lihpe.net/

Quanto ao referido trabalho, que a princípio não será publicado pela LIHPE, está disponível em:

http://www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2013/09/Anais-simp%C3%B3sio-da-ABHR-Sudeste.pdf

Vide páginas 1324 a 1337.

A continuação desta pesquisa terá seus frutos em breve, quando abordarei as primeiras décadas do século XX no Brasil.

Abraços,

Alexandre Ramos de Azevedo

Jáder Sampaio disse...

Alexandre, seja bem-vindo.

Se desejar, publique no grupo do Facebook do Espiritismo Comentado. Irá atingir mais pessoas ainda!

Seu trabalho tem muita qualidade, infelizmente optamos por publicar os textos ligados ao tema do evento: reencarnação.

Um abraço das Minas Gerais

Jáder